Protestos em Caracas deixam um morto, feridos e dezenas de detidos

Por Javier TOVAR, Alex VASQUEZ
Opositores enfrentam a polícia em Caracas

Manifestantes opositores enfrentaram nesta quinta-feira agentes da Guarda Nacional e policiais em Caracas, em confrontos que deixaram um morto, feridos e dezenas de detidos, em meio aos protestos contra o governo do presidente Nicolás Maduro.

Um jovem de 19 anos morreu após ser baleado no peito durante um protesto na noite desta quinta-feira no subúrbio de Montaña Alta, revelou a polícia do Estado de Miranda.

Jairo Ortiz faleceu "devido a um ferimento de bala na altura do tórax", quando efetivos militares chegaram para remover um bloqueio de rua por parte de manifestantes, disse à AFP o porta-voz Miguel Mederico.

Henrique Capriles, ex-candidato presidencial e governador de Miranda, responsabilizou o ministro do Interior e Justiça pela morte de Ortiz: (Néstor) "Reverol (...) obriga os comandantes da Guarda (Nacional) a reprimir sem importar as vidas".

Durante o dia, uma passeata em direção ao centro de Caracas foi reprimida com violência por homens da polícia e da Guarda Nacional.

"Retiramos duas pessoas com ferimentos na cabeça, uma com o braço fraturado e uma jornalista intoxicada", disse à AFP o deputado Miguel Pizarro, que participou do protesto. Um membro da Guarda Nacional também foi ferido na cabeça.

O prefeito do município de Chacao, Ramón Muchacho, informou que 19 pessoas feridas foram atendidas, mas não correm risco.

Em rede nacional de TV, Maduro informou que trinta manifestantes foram "detidos" e "vamos atrás de todos, estão todos identificados". "Um a um vão cair e irão à Justiça".

Os confrontos começaram quando a manifestação, que reuniu 10.000 pessoas, mudou de rumo para se dirigir até o centro da cidade e foi impedida de avançar por uma barreira montada pelos policiais.

Os opositores se concentraram em uma estrada na altura do bairro de Altamira, segundo o plano original, mas Capriles e outros dirigentes decidiram seguir até a Defensoria do Povo, localizada em uma área histórica.

"Capriles está procurando por mortos para incendiar o país", denunciou o dirigente oficialista Freddy Bernal.

No setor de El Recreo, a militarizada Guarda Nacional colocou grandes caminhões e uma barreira metálica, bloqueando a estrada de oito pistas.

Também lançaram bombas de gás lacrimogêneo e jatos de águas para dispersar a multidão, mas os manifestantes, muitos deles com os rostos cobertos, responderam com pedras.

Quando a manifestação tentava avançar pelas ruas adjacentes, o batalhão de choque se deslocava para bloquear a passagem, utilizando bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha e jatos d'água.

Da manifestação participaram vários deputados da maioria opositora no Parlamento.

"Vamos ficar aqui até conseguir passar", expressou a parlamentarista Gaby Arellano, enquanto choviam balas de borracha.

Na linha de frente estava o vice-presidente do Parlamento, Freddy Guevara, que pedia aos manifestantes para avançar, mas sem atirar pedras.

O deputado Carlos Paparoní, outro parlamentar no front, devolveu uma das bombas de gás lançada pela polícia.

"Basta de diálogo! Até quando? Estamos dispostos a tudo, até morrer", declarou um manifestante, chamado de "capitão".

Mas após várias horas de confronto, a Guarda Nacional desmontou parte da barreira para que dois caminhões do choque e policiais avançassem para dispersar os manifestantes, que se reagruparam em outras zonas.

"Não vamos nos calar, nos fizeram recuar, mas vamos resistir", disse Agustín Ovalles, 32 anos, com os olhos lacrimejando pelo gás.

O governo costuma impedir qualquer mobilização opositora até o centro, que o chavismo considera seu reduto e onde se concentram as sedes dos poderes públicos.

Nessa área, próximo à Assembleia Nacional, milhares de oficialistas se manifestavam nesta quinta-feira em apoio a Maduro.

A oposição anunciou que voltará às ruas no próximo sábado, "com o dobro de gente que saiu hoje e tem de estar nas ruas da Venezuela". "O povo não está fazendo nada errado, salvo exigir seus direitos", declarou Freddy Guevara.

- "Não temos medo" -

Os opositores protestam contra as sentenças do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) com as quais assumiu brevemente, na semana passada, os poderes do Parlamento e retirou a imunidade dos deputados.

"Queremos tirar Maduro, estamos cansados desta ditadura, não temos medo", disse à AFP Yoleidy Rodríguez, estudante universitário de 22 anos.

As sentenças, anuladas parcialmente no sábado após a forte pressão internacional, impulsionaram os críticos do governo a tentar reconquistar as ruas.

Já os chavistas protestam contra o "golpe parlamentar" que, segundo alegam, a Assembleia quer dar em sua disputa contra o TSJ.

Diosdado Cabello - um dos principais dirigentes chavistas - convocou a Milícia Bolivariana, grupo civil armado pelo governo, a "entrar em alerta combativo" diante do "golpe de Estado" da direita.

Maduro acusa os dirigentes opositores de querer "encher as ruas de sangue" para derrubá-lo, com a ajuda da Organização dos Estados Americanos (OEA), que nesta semana declarou uma "grave" alteração da ordem constitucional na Venezuela.

O secretário-geral da OEA, Luis Almagro, recebeu nesta quinta-feira em Washington o presidente do Legislativo, o opositor Julio Borges.

"Vamos enfrentar o imperialismo, os grupos econômicos que querem derrubar o governo revolucionário", disse à AFP Vismar Cifuentes, funcionário público, durante um protesto que incluiu canções e palavras de um cover do falecido presidente Hugo Chávez (1999-2013).

- Destituição improvável -

Como ocorreu durante o protesto opositor de terça-feira, que deixou vários feridos e presos, nesta quinta-feira havia forte presença militar e policial, várias estações de metrô foram fechadas e nos acessos da cidade havia pontos de controle.

O foco da manifestação opositora é apoiar um processo iniciado na quarta-feira na Câmara para destituir os magistrados do TSJ.

Mas os organismos de controle da Venezuela, agrupados no Conselho Moral, rechaçaram nesta quinta-feira a possibilidade de abrir um processo para destituir os magistrados do TSJ.

O aval do Conselho Moral é necessário para que a Assembleia Nacional, dominada pela oposição, pudesse votar a destituição dos juízes do TSJ, acusados de servir ao governo Maduro.

As eleições dos governadores deveriam ser realizadas em dezembro de 2016, mas foram suspensas e ainda não têm data. As de prefeitos estão marcadas para este ano e as presidenciais para dezembro de 2018.