Protestos miados mostram dilemas do MBL e congêneres, não da 3ª via

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Sao Paulo's governor Joao Doria addresses demonstrators during a protest called by right-wing groups and parties to demand the impeachment of Brazilian President Jair Bolsonaro, in Sao Paulo, Brazil, on September 12 2021. (Photo by NELSON ALMEIDA / AFP) (Photo by NELSON ALMEIDA/AFP via Getty Images)
João Doria em ato organizado pelo MBL. Foto: Nelson Almeida/AFP (via Getty Images)

Há exatos dois anos, após uma entrevista, um integrante do alto escalão do MBL, o Movimento Brasil Livre, me falou sobre as chances do então prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), na disputa pela sucessão municipal que começaria alguns meses depois. Para ele, o tucano estava num limbo no qual seria considerado “esquerda demais” para a direita e à “direita demais” para quem era de esquerda.

O lugar indefinido afunilaria, segundo o diagnóstico, as suas chances de reeleição na maior cidade do país.

Não foi o que aconteceu. Covas foi eleito numa disputa marcada pela moderação em que conseguiu atrair o campo conservador no segundo turno contra um líder do campo progressista mais nítido, Guilherme Boulos (PSOL). A análise hoje soa como vaticínio, mas do próprio grupo.

Desgarrados do campo extremista que ajudou a alimentar, os integrantes do MBL lideraram uma marcha anti-Bolsonaro em algumas das principais cidades do país cinco dias depois de o presidente mostrar força ao chamar um protesto em sua defesa em alguns dos mesmos palcos. Não passaram nem perto de ressuscitar os tempos, nem tão distantes, em que mobilizavam multidões nos protestos pelo impeachment de Dilma Rousseff.

O esforço em transformar o protesto com antigos adversários, como Ciro Gomes (PDT), integrantes do PSOL, alas do PSDB, PSL e até centrais sindicais, foi interpretado como um esboço da viabilidade de uma chamada terceira via para as eleições de 2022.

Se fosse uma competição por metros quadrados, a disputa estaria perdida. Foto por foto, a mobilização pró-Bolsonaro foi pelo menos 20 vezes maior só na avenida Paulista. As imagens também não fazem frente com os protestos pró-Dilma que grupos à esquerda conseguiam mobilizar já no fim do governo petista.

O protesto esvaziado foi lido como um dos muitos sinais de impasse sobre a aposta “nem Lula nem Bolsonaro” que se desenha. E de fato são muitos impasses.

Mas entre o sucesso, ao menos para a fotografia, da reunião pró-Bolsonaro em detrimento do protesto miado do dia 12 diz mais sobre a crise de identidade do próprio MBL (e dos movimentos de rua que colaram e se firmaram em seu entorno) do que do país em si.

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Por anos, o MBL flertou com o radicalismo que cresceu e ganhou vida própria à medida que os afetos descarregados nas ruas encontraram em Jair Bolsonaro o corpo de sua desova. O movimento fez isso enquanto tratava os rivais à esquerda não como rivais, mas como inimigos. O ensaio de macartismo das mobilizações que ajudaram a derrubar o governo petista cobrou seu preço.

Se antes os próprios militantes do MBL expulsavam de suas manifestações nomes do PSDB identificados com a tal velha política, como fizeram com Aécio Neves e Geraldo Alckmin em 2016, agora são eles quem são hostilizados quando dão as caras em protestos contra e a favor de Bolsonaro. O caso mais recente foi a expulsão do deputado estadual Artur do Val, o Mamãe Falei, ao registrar os atos do dia 7 de Setembro e mostrar as contradições dos fãs de Bolsonaro.

Havia razões para antecipar que os atos pelo impeachment puxados pelo MBL não passariam perto nem dos tempos áureos do grupo nem dos neo-inimigos bolsonaristas. Uma delas é uma dedução: os apoiadores de Bolsonaro tendem a manifestar mais disposição para ir às ruas em uma pandemia porque seu próprio líder desdenha dos riscos da doença e da importância do distanciamento e do uso de máscara.

À esquerda ou à direita, o componente racional de quem avalia se deve ou não ir às ruas neste momento tem peso maior. Isso praticamente não existe do outro lado.

Outro fator que hoje pesa contra as propostas do grupo é justamente a estratégia para moderar o tom. Uma vez eleitos, seus principais integrantes entenderam que a manutenção do tom agressivo, calcado na criação e perseguição de inimigos balizados pela chamada guerra cultural levaria em algum momento à combustão. Diferentemente do que fez Bolsonaro, eles trocaram o fogo alto pelo fogo brando.

Os jovens recém-saídos da adolescência entre 2015 e 2016 hoje são deputados e possuem algum apego à liturgia do cargo. Todos têm o direito ao amadurecimento. No caso do MBL, isso está associado diretamente à passagem dos meninos combativos à vida adulta.

Só que o resgate do velho figurino para as trincheiras antibolsonaro hoje cheira a naftalina. Ao tentar reunir lideranças diversas, do governador João Doria a deputados do PSOL, na mesma luta contra o “mal maior”, o MBL parece não ter conseguido nem pacificar os ânimos nem alcançar o tom necessário ao enfrentamento das agressões bolsonaristas. Esse é um dilema difícil de resolver.

Fica ainda mais difícil quando se quer discutir o empenho e engajamento do Partido dos Trabalhadores, ainda o maior e mais popular partido político do país, quando à entrada sua maior liderança é hostilizada em um boneco vestido de presidiário ao lado de um Bolsonaro amarrado à camisa de força. Ou quando os gritos de ordem insistem em um “nem nem” tão produtivo quanto açodado. Fica sempre aquela dúvida se, na hora H, a depender de como se desenrolar a disputa de 2022 em um provável segundo turno, os novos amigos não estarão novamente na trincheira inimiga.

Do mais, cartazes do tipo “Volta Temer” dão a dimensão dos limites do coro dos descontentes ensaiados pelo MBL. Se a ideia era engrossar as ruas, os que sonham com um candidato alternativo poderiam ao menos idealizar uma figura um pouco mais carismática do que o ex-presidente que acaba de ser acionado como bombeiro de Bolsonaro. Uma cadeira, hoje, teria mais apelo popular do que Michel Temer.

Sim: as rusgas e traumas, por picuinhas ou ofensas graves, causam hoje a dispersão de quem se mostra incapaz de se unir contra alguém que lhes aponta uma arma na cara. Mas não é (só) isso que está escancarado na fotografia dos protestos do dia 12. O que está escancarado ali é a crise existencial de um movimento que não atrai a confiança nem da esquerda chutada até outro dia nem da direita já acoplada ao bolsonarista. Sobrou o sonho de uma noite de verão representada pela Lava Jato, extinta sob Bolsonaro, em um país pronto para envergar a estrada do liberalismo, este que arrepia os cabelos ao ver os pendores intervencionistas de um líder populista de direita. Achar que uma multidão irá às ruas com os deserdados da esperança lava-jatista ou do Estado mínimo é acreditar que a velha multidão estava realmente engajada pelo fim da corrupção.

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