Protestos contra abuso policial e racismo continuam nos EUA

Por Ariela NAVARRO con Charlotte PLANTIVE en Minneapolis
1 / 2
Protesto em frente à Casa Branca em Washington, 31 de maio de 2020, após a morte de um homem negro, George Floyd, nas mãos de um policial branco em Minneapolis

A indignação nos Estados Unidos pela morte, há uma semana, de George Floyd, um cidadão negro, pelas mãos de um policial branco, continua viva, assim como os protestos, com alguns distúrbios, apesar do toque de recolher em muitas cidades.

Na capital, Washington, houve tumultos nas proximidades da Casa Branca, com alguns danos, incêndios provocados por manifestantes, queima de bandeiras americanas e paredes pintadas com frases contra a polícia.

O resultado completo da necropsia realizada por autoridades sanitárias no corpo de George Floyd revelou nesta segunda-feira que se tratou de "homicídio", devido a uma "compressão do pescoço" quando um policial o imobilizou, segundo um comunicado do condado de Hennepin.

O resultado também listou outras condições de saúde significativas de Floyd, como "doença cardíaca arteriosclerótica e hipertensiva, intoxicação por fentanil e uso recente de metanfetamina".

O funeral de Floyd será realizado no próximo dia 9, em Houston, informou hoje o advogado da família. "Em Minneapolis, haverá um memorial na próxima quinta-feira, adiantou Ben Crump, em entrevista coletiva naquela cidade.

"No sábado, haverá uma missa na Carolina do Norte, onde ele nasceu, e em 9 de junho o funeral acontecerá em Houston, Texas, às 11h", detalhou o advogado.

No momento em que os Estados Unidos enfrentam uma onda de protestos não vistos desde os anos 1960, durante a luta pelos direitos civis, fica na lembrança a imagem da Casa Branca no escuro e o presidente Donald Trump alojado no bunker de segurança.

De Nova York a Los Angeles, da Filadélfia a Seattle, no fim de sofridas pelas minorias. semana, dezenas de milhares de americanos marcharam para denunciar a brutalidade policial, o racismo e as desigualdades

Esses protestos ocorrem no momento em que mais de 100.000 pessoas morreram nos Estados Unidos devido ao novo coronavírus, e quando as medidas tomadas para mitigá-lo atingiram fortemente a economia em um ano eleitoral.

A epidemia teve um impacto devastador na comunidade negra e alguns estudos mostram que essa população sofre uma mortalidade três vezes maior que a dos brancos.

Em Washington, o protesto começou no domingo com uma marcha pacífica na qual centenas de pessoas caminharam da Universidade Howard, um bastião da cultura negra nos Estados Unidos, para a Casa Branca gritando "Não consigo respirar", as últimas palavras de George Floyd.

Durante a noite - e apesar da prefeita da cidade, Muriel Bowser, ter decretado um toque de recolher após as 23H00 (horário local) - alguns distúrbios foram registrados.

Nesta segunda-feira, a medida foi prolongada por mais dois dias e antecipada quatro horas, a partir das 19H00, anunciou Bowser.

Na Filadélfia e em Nova York e também em Santa Monica, uma periferia rica de Los Angeles, houve alguns saques.

Em Minneapolis, onde ocorreu a morte de George Floyd, o dia passou com menos incidentes do que antes, depois que as autoridades implantaram um dispositivo excepcional.

No entanto, no domingo, um caminhão entrou na rua onde estava ocorrendo a manifestação - cujo tráfego foi reduzido - e avançou em alta velocidade, causando medo entre os presentes, sem relatos de feridos.

No total, mais de 150 pessoas foram detidas por violações do toque de recolher.

- Balas de borracha -

O presidente Donald Trump condenou a morte de Floyd, mas também chamou os manifestantes de "bandidos" e culpou a "esquerda radical" pelas mobilizações, citando seu provável adversário das eleições em novembro, o democrata Joe Biden.

Uma das medidas tomadas pelo governo Donald Trump foi designar o grupo antifascista Antifa como uma organização "terrorista".

A disseminação de imagens mostrando Floyd no chão com o joelho de um policial no seu pescoço, implorando à polícia que o deixasse ir, alimentou protestos que ocorreram em mais de 140 cidades.

Em muitos protestos, os manifestantes ficaram de joelhos, um gesto popularizado por atletas para denunciar a violência policial sofrida por negros nos Estados Unidos.

Vários vídeos mostraram policiais de Santa Cruz, Califórnia, Nova Jersey e Michigan fazendo o mesmo gesto para dialogar com os manifestantes.

Entretanto, em uma dúzia de outras cidades a nota principal foi o envio de unidades de choque e tropas da Guarda Nacional.

Essa resposta de segurança foi acompanhada pelo uso de veículos blindados para o transporte de tropas, o uso de gás lacrimogêneo e balas de borracha.

Os abusos policiais contra a população negra são repetidos ciclicamente nos Estados Unidos. "Toda vez que penso nisso, fico com lágrimas nos olhos porque é como se meu filho viesse do túmulo para me dizer que ainda o estavam matando", disse à CNN na segunda-feira Gwen Carr, mãe de Eric Garner, um jovem que morreu. quando um policial branco o enforcou para prendê-lo em 2014.

- "Estamos cansados de que isso se repita" -

O ex-vice-presidente Joe Biden, que provavelmente será o candidato dos democratas para enfrentar Donald Trump em novembro, disse no domingo que os Estados Unidos "são uma nação que está sofrendo".

"Somos uma nação enfurecida, mas não podemos deixar nossa raiva nos consumir", acrescentou Biden, que é o único candidato ao campo democrata a enfrentar Trump nas eleições de 3 de novembro, mas ainda não foi formalmente indicado na convenção partidária.

O agente processado pela morte de George Floyd, acusado de homicídio involuntário, deveria comparecer ao tribunal nesta segunda-feira, mas essa audiência foi adiada.

A família da vítima planeja divulgar nesta segunda-feira os resultados de uma segunda autópsia, esperados com expectativa.

"Temos filhos negros, irmãos negros, amigos negros e não queremos que eles morram", disse Muna Abdi, manifestante negra de 31 anos, à AFP em Saint-Paul. "Estamos cansados disso, esta geração não vai permitir".