Adolescente é preso suspeito de matar duas pessoas em protesto antirracista nos EUA

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Protestos seguem mesmo após morte de dois manifestantes - Foto: KEREM YUCEL/AFP via Getty Images
Protestos seguem mesmo após morte de dois manifestantes - Foto: KEREM YUCEL/AFP via Getty Images

Um adolescente foi preso nos Estados Unidos nesta quarta-feira (26) após a morte de duas pessoas durante protestos antirracistas em Kenosha, no estado de Wisconsin, para onde o presidente Donald Trump anunciou o envio de forças federais adicionais.

Ao mesmo tempo, a NBA liderou uma onda sem precedentes de boicote nas ligas esportivas americanas na quarta-feira contra o racismo e a brutalidade policial.

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A cidade de Kenosha, no norte dos EUA, tem sido abalada por manifestações com surtos de violência desde domingo, quando um homem negro, Jacob Blake, foi baleado à queima-roupa por um policial branco.

O Departamento de Justiça anunciou na quarta-feira à noite que vai abrir uma investigação por possível violação dos direitos civis contra o agente, já identificado, que atirou em Blake.

Após dias de silêncio, as autoridades de Wisconsin publicaram nesta quarta-feira um primeiro comunicado sobre o ocorrido e no qual afirmam que Blake tinha uma faca "em seu poder" quando o agente, há sete anos na polícia, atirou.

A arma foi encontrada dentro do carro, mas as autoridades não esclareceram se Blake segurava a faca quando foi alvejado.

Blake sobreviveu aos tiros, mas os médicos temem que ele fique paralítico.

Durante os protestos da terça-feira, duas pessoas foram mortas a tiros e uma terceira foi ferida depois que um homem em roupas civis com um rifle de assalto abriu fogo contra os manifestantes.

"Esta manhã, as autoridades do condado de Kenosha emitiram um mandado de prisão do indivíduo responsável pelo incidente, acusando-o de homicídio intencional em primeiro grau", (homicídio doloso), disse a polícia de Antioch, cidade do estado vizinho Illinois.

"O suspeito neste incidente, um residente de Antioch de 17 anos, está atualmente sob a custódia do sistema judicial do condado de Lake, enquanto aguarda uma audiência de extradição para transferir a custódia de Illinois para Wisconsin", acrescentou.

As autoridades ordenaram um toque de recolher das 19h às 7h até domingo em Kenosha na esperança de acalmar a situação após a violência de terça-feira, quando vigilantes armados correram para o local dos protestos prometendo defender a propriedade privada.

Vídeos mostram um dos vigilantes, que se acredita ser o jovem detido, atirando contra os manifestantes com um rifle de assalto. Ele aparentemente acerta dois que tentam detê-lo e então caminha livre pela rua, com a arma no peito, enquanto a multidão se dispersa e veículos da polícia passam por ele.

'Restaurar a lei e a ordem!'

Trump anunciou o envio de reforços policiais e tropas da Guarda Nacional para Kenosha para "restaurar a LEI e a ORDEM!".

"Nós NÃO vamos apoiar saques, incêndios criminosos, violência e ilegalidade nas ruas americanas", tuitou Trump, em sua primeira reação ao assassinato de Blake no domingo.

As autoridades locais, porém, disseram que já tinham centenas de policiais de todo o estado, cerca de 250 homens da Guarda Nacional, agentes federais e do FBI os ajudando.

“Sei que as pessoas estão buscando justiça”, disse o xerife do condado de Kenosha, David Beth, em entrevista coletiva. Mas ele ressaltou que as pessoas precisam obedecer o toque de recolher e que não será tolerada uma repetição dos distúrbios da segunda-feira, quando veículos e edifícios foram queimados.

Boicote na NBA

O caso de Blake acontece apenas três meses após a morte do afro-americano George Floyd por asfixia, quando um policial branco ajoelhou em seu pescoço em Minneapolis, o que provocou uma onda de protestos dos direitos civis que não era registrada em décadas.

Na quarta-feira, os jogadores da NBA se uniram aos protestos após a decisão dos jogadores do Milwaukee Bucks, cuja base de operações fica ao norte de Kenosha, de não disputar a quinta partida da primeira série dos playoffs.

O protesto chegou ao beisebol, com o Milwaukee Brewers se negando a disputar o jogo programado contra o Cincinnati Reds.

No tênis, a ATP/WTA suspendeu a programação do Masters de Cincinnati até sexta-feira.

Também foram adiadas partidas da Major League Soccer e da WNBA.

Tema de campanha

Esse último caso de violência policial contra um afro-americano gerou manifestações em outras cidades americanas, como Nova York e Minneapolis, ligadas ao movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam).

O ataque a Blake provavelmente será um dos focos da marcha antirracista programada para este fim de semana em Washington. Além disso, a dois meses da eleição, os comentários de Trump deixaram claro que o novo incidente também alimentará a disputa pela Casa Branca.

A campanha republicana pintou como uma ameaça de extrema esquerda os protestos contra a brutalidade policial que movimentaram o país desde a morte em maio de George Floyd, homem negro asfixiado por um policial branco.

Seu rival democrata Joe Biden pediu o fim da violência na quarta-feira. “Mais uma vez, um homem negro, Jacob Blake, foi baleado pela polícia. Na frente de seus filhos. Isso me deixa doente”, ele tuitou.

"É este o país que queremos ser? A violência desnecessária não vai nos curar. Precisamos acabar com a violência e nos unir pacificamente para exigir justiça", escreveu o candidato.

Em protesto ao caso de Blake, os jogadores de basquete do Milwaukee Bucks se recusaram a jogar a partida de quarta-feira contra o Orlando Magic nos playoffs da NBA, que acabou suspendendo a rodada.

***Por Robert Chiarito e Paul Handley, da AFP