Protestos em Hong Kong colocam em risco economia chinesa

IGOR GIELOW
HONG KONG, CHINA, 26.11.2019 - Manifestantes durante ato contra o governo de Hong Kong em passarela no centro da cidade. (Foto: Igor Gielow/Folhapress)

HONG KONG, CHINA (FOLHAPRESS) - Numa esquina da movimentada avenida Des Voeux, no centro financeiro de Hong Kong, operários fixam placas de aço lacrando as vitrines de uma agência do Bank of Communications.

A seu lado, segue com paredes de vidro o americano Citibank. Do outro lado da rua, brilham luzes de uma filial da grife francesa Louis Vuitton, mas os clientes rareiam.

De certa forma, a cena resume o paradoxo econômico que é central na discussão sobre os protestos que agitam a região chinesa desde meados deste ano.

O banco estatal em questão foi vandalizado por ativistas contrários a uma lei que permitiria a extradição de cidadãos honcongueses para responder à Justiça comunista chinesa. Virou alvo preferencial de protestos junto com outros ativos do regime de Pequim, como a agência de notícia Xinhua.

A presença continental é maciça. Segundo a consultoria honconguesa Natixis Asia Research, 64% do investimento direto estrangeiro na China e 65% do que o regime investe fora passam pelos mecanismos liberalizados da cidade.

Desde que foi devolvida pelos britânicos em 1997, Hong Kong vive sob um sistema capitalista, ainda que faça parte do gigante comunista. Isso poderá ser revisto a partir de 2047, e movimentos como o da legislação de extradição são vistos com desconfiança.

A dependência vai além. A Bolsa local fez 73% dos IPOs (ofertas iniciais de ações) de empresas chinesas em 2018 -ela foi a campeã mundial no quesito com 16% de todos os IPOs.

Pequim até criou 12 zonas econômicas especiais para tentar tirar influência da rebelde cidade-Estado, mas não deu certo.

Dos US$ 64 bilhões levantados por empresas chinesas em 2018, apenas US$ 20 bilhões vieram de centros como Xangai ou Xenzhen -contra US$ 35 bilhões em Hong Kong.

Bancos chineses, como o Bank of Communications, têm 9% do PIB (Produto Interno Bruto) da China em ativos na antiga colônia britânica. Nada menos que US$ 1,1 trilhão (R$ 4,62 trilhões).

O motivo? "Aqui é um lugar com liberdade de movimento. Capitais, bens, pessoas. Isso dá segurança jurídica. Se acabar, vai todo mundo para Singapura fazer negócios, porque nenhuma dessas liberdades são encontradas nas outras cidades chinesas", diz o corretor americano Joe Mullhouse, que trabalha para investidores do continente. 

Usualmente, políticos chineses deixam essa simbiose de lado e focam o fato de que, de 1997 para cá, a participação de Hong Kong no PIB do país caiu de 18% para cerca de 3%.

"Na prática, é o pulmão de Pequim. Por isso não podem deixar a situação sair de controle", escreveu o cientista político Brian Fong, da Universidade de Hong Kong.

Essa é uma explicação para a cautela do governo de Xi Jinping em lidar com a balbúrdia na ilha e adjacências. A reação do público à presença de instituições como o Commercial mostra o quão delicada é a questão.

Outro motivo está ao lado, na intocada agência do Citibank. Empresa americanas têm 434 escritórios regionais e 290 quartéis-generais asiáticos baseados na cidade. Seu consulado tem status de embaixada.

"Gostamos de ver o Ocidente presente, é um aliado, mesmo que não seja um amigo. A presença das empresas mostra o quão Hong Kong importa", diz o deputado Eddie Chu, um dos mais influentes da oposição local a Pequim.

O banco-símbolo da cidade é o maior do Reino Unido, o HSBC, cuja sigla inglesa remete a Corporação Bancária Hong Kong e Xangai. Hoje, metade dos US$ 20 bilhões que fatura anualmente vem da cidade, mesmo com a crise.

Num momento de disputa aberta entre Ocidente e China, é de todo interesse de americanos e aliados uma presença robusta na linha de frente.

Naturalmente, tudo isso é o cenário atual. Uma desaceleração controlada da China, com crescimento em níveis ainda altos, pode simplesmente fazer Hong Kong obsoleta com o tempo. Mas isso não está colocado agora.

Estudo da Capital Consultancy sugere dificuldades à frente, a depender do desfecho da guerra comercial entre Xi e Donald Trump: Pequim poderá chegar a 2030 com um crescimento magro de 2% anuais.

Soa alarmista, até porque o país tem gorduras de US$ 2 trilhões (quase R$ 9 trilhões, muito mais que o PIB brasileiro) para gastar em estímulos, e a posição americana não é tão sólida assim. Mas sinais existem: em 2018, pela primeira vez em 20 anos, caiu a venda de carros no país. E 20% das casas novas construídas estão ociosas.

Por fim, temperando o cozido, como dizem os chineses, está a Louis Vuitton. Com uma perda de clientes estimada no mercado em 25% do faturamento local no ano, ela é parte de um dos setores afetados pela crise, o de luxo.

A economia honconguesa está vivendo sua primeira recessão desde a ressaca da crise global, em 2009. Caiu 3,2% no terceiro trimestre em comparação ao anterior, e deve fechar 2019 com uma queda de 1,3%.

O turismo, fonte que alimenta as reservas hoje em US$ 140 bilhões, está sofrendo com os protestos. Segundo dados do Escritório de Turismo da região, os primeiros 15 dias de outubro tiveram 50% a menos visitantes do que a mesma época em 2018.

Na chamada semana dourada de feriados chineses, de 1 a 7 de outubro neste ano, Hong Kong não chegou nem ao ranking de dez primeiros colocados como destino turístico para moradores da China continental. Em 2018, foi o terceiro.

Até a vizinhança, como a também região especial de Macau, perde. Ali, a queda no número de turistas está na casa dos 10%, segundo a consultoria Nomura Invest.

O comércio no total caiu 18% em setembro sobre o mesmo mês do ano passado, e todos temem efeitos caso as sanções aprovadas pelo Congresso americano contra Pequim por causa de Hong Kong sejam confirmadas pelo presidente Donald Trump. 

Na chamada "rua do ginseng e do ninho de pássaro", especialidades vendidas por comerciantes da Bonham Strand, o clima é de desânimo. "Ninguém mais veio na semana dourada, e os meus estoques estão altos", diz o dono de uma loja que só se identifica como Pak.

Ele emprega dez pessoas -a economia gira a pleno emprego, com apenas 3,1% de gente na rua. Os indicadores são invejáveis ainda: juros e inflação na casa dos 2% e um salário médio mensal perto dos R$ 10 mil.

"Se continuar ruim terei de pensar em reduzir a estrutura", diz, apontando para sacos com tudo quanto é parte de peixe seco.

Com tudo isso, há poucas dúvidas sobre a dificuldade que a crise política trouxe para todos os atores. Talvez esteja nessa concordância uma saída para o impasse atual.