Novos protestos antecedem diálogos para superar a crise na Colômbia

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Manifestante vestido como os personagens da série A Casa de Papel, durante protesto contra o governo da Colômbia, em Bogotá, 19 de maio de 2021

O movimento de protesto voltou às ruas da Colômbia nesta quarta-feira (19) antes de retomar o diálogo com o governo para negociar uma eventual saída para a crise que explodiu em 28 de abril, e atiçou os abusos policiais reconhecidos parcialmente pelo presidente Iván Duque.

Em Bogotá, Cali, Medellín e outros pontos do país se mobilizaram para exigir políticas mais solidárias que aliviem os efeitos da crise econômica provocada pela pandemia e que castiga duramente os jovens.

Os protestos antecederam o encontro que deverá ser celebrado entre o governo e a frente mais visível do protesto que, no entanto, não reúne todos os setores descontentes.

As partes acordaram negociar uma saída para a crise, que implodiu um projeto já retirado para aumentar impostos, mas que aumentou a repressão nas ruas.

Depois de duas rodadas de diálogos, o governo e o chamado Comitê da Paralisação continuam divididos sobre os excessos da força pública, denunciados por organizações locais e internacionais.

Duque se concentrou em assegurar a liberação das vias bloqueadas, o que provoca o desabastecimento em alguns pontos, sobretudo no sudoeste do país. Ao mesmo tempo, fez ofertas para que no próximo semestre os jovens acessem gratuitamente a universidade e obtenham créditos para moradia. Diariamente as vias ficam cheias de manifestantes quando o país atravessa um novo pico da pandemia.

O governo "está dilatando as negociações, ignorando as propostas e o clamor do povo, e além disso, está atacando o povo", disse à AFP Viviana Clemente, uma comerciante de 41 anos que foi protestar em Bogotá com a filha de 15 com um cartaz que dizia "a luta de poucos vale pelo futuro de todos".

- "Precisamos de mais gestos" -

Em 21 dias de protestos morreram pelo menos 42 pessoas, a grande maioria civis, mas também foram registrados mais de 1.700 feridos entre manifestantes e uniformizados. Até o momento, a procuradoria determinou que 15 das vítimas morreram por sua participação nas mobilizações e investiga outros 11 casos.

Três dos crimes envolvem membros da força pública, segundo o organismo. Uma plataforma de direitos humanos chefiada pela ONG Temblores dá conta de "43 homicídios" nas mãos de agentes estatais.

O ministro da Defesa, Diego Molano, terá que responder ao Congresso por estas mortes e "as omissões em que tenha podido incorrer" no cargo, declarou o líder sindical Francisco Maltés, ao apoiar a moção de censura contra o funcionário, prevista em 25 de maio.

A ONU, a União Europeia, os Estados Unidos e ONGs internacionais denunciaram os excessos das autoridades colombianas.

No entanto, Duque é resistente em admitir uma repressão generalizada e se concentra em rejeitar "casos" de abuso policial, enquanto condena o "vandalismo" e o bloqueio de vias que causam destroços e perdas milionárias.

Nesta quarta-feira, o ex-presidente colombiano e prêmio Nobel da Paz, Juan Manuel Santos, sugeriu ao governo que assuma com "humildade" os abusos policias ocorridos durante os protestos.

"Precisamos de mais gestos, precisamos que das diferentes partes saia mais empatia e mais humildade, que o Estado reconheça, 'veja, cometemos abusos'", disse o ex-presidente à W Radio.

Segundo Santos, "este gesto único já geraria uma reação muito favorável da contraparte neste conflito muito específico".

- "Copa de Sangue" -

A estratégia de Duque "é dilatar a negociação ao não aceitar garantias básicas solicitadas" pelo Comitê Nacional da Paralisação, destacou a líder universitária Jennifer Pedraza.

"Aposta em que o protesto se desgaste (...) Engana-se. Tem paralisação por um bom tempo", escreveu no Twitter antes de se unir às manifestações.

A crise atingiu a Copa América, prevista para ser celebrada conjuntamente na Colômbia e na Argentina em menos de um mês. Na entrada do estádio El Campín, em Bogotá, torcedores exibiram uma faixa denunciando "a Copa de sangue".

Pedimos "que não se faça" o torneio "enquanto estão massacrando nossos jovens", disse à AFP Juan Sebastián Urrea, de 24 anos, membro da organização Fiebre Amarill,a que se reivindica como "torcida oficial da Seleção Colômbia".

A pandemia afetou a economia do país. Em um ano, o percentual de população pobre passou de 35,7% a 42,5%, e quase um terço dos colombianos (27,7%) entre os 14 e os 28 anos não estuda, nem trabalha, segundo o órgão estatal de estatística.

Os jovens pedem para não ser mortos, um Estado mais solidário e uma reforma da polícia que comece por tirá-la da órbita do ministério da Defesa, após décadas de combate à guerrilha e ao narcotráfico.

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