Protestos no Irã têm oito mortos, segundo autoridades e ONG

Pelo menos oito manifestantes morreram até esta quarta-feira (21) nos recentes protestos no Irã, segundo uma contagem das autoridades e o balanço de um grupo de direitos humanos.

A insatisfação popular eclodiu quando as autoridades anunciaram a morte de Masha Amini, de 22 anos, na sexta-feira, após sua prisão pela polícia moral, encarregada de impor um código de vestimenta rígido para as mulheres.

A jovem ficou em coma após sua prisão e morreu três dias depois de ser hospitalizada.

Segundo as autoridades iranianas, a jovem morreu por causas naturais, mas ativistas e o Alto Comissariado de Direitos Humanos afirmam que ela foi atingida violentamente na cabeça e jogada contra um veículo da polícia.

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, declarou nesta quarta-feira que os americanos "apoiam as corajosas mulheres do Irã" durante os crescentes protestos no país pela morte da jovem.

"Hoje apoiamos os corajosos cidadãos e as corajosas mulheres do Irã que neste momento estão se manifestando para assegurar seus direitos básicos", declarou Biden na Assembleia Geral das Nações Unidas.

Os protestos começaram na sexta-feira (16), em sua província natal do Curdistão, cujo governador, Ismail Zarei Koosha, disse na terça-feira (20) que três pessoas foram mortas, sem especificar quando. Como outras autoridades, ele atribuiu as mortes a "um complô do inimigo".

Os meios estatais iranianos informaram que, na quinta noite de protestos em 15 cidades, os agentes usaram gás lacrimogênio e fizeram detenções para dispersar multidões de até mil pessoas.

Nesta quarta-feira, o comandante da polícia do Curdistão, Ali Azadi, anunciou a morte de outra pessoa, segundo a agência de notícias Tasnim.

Além disso, outros dois manifestantes foram mortos na província de Kermanshah, afirmou o procurador distrital, Shahram Karami, citado pela agência de notícias Fars.

"Infelizmente, duas pessoas foram mortas em distúrbios ontem", relatou. "Temos certeza de que este é o trabalho de agentes contrarrevolucionários", acrescentou. Não se sabe, contudo, se foi a morte relatada logo depois pelo comandante da polícia.

Hengaw também informou que cerca de 450 pessoas ficaram feridas, e quase 500 foram presas, números que não puderam ser verificados de forma independente.

- "Sim à liberdade!" -

Algumas manifestantes desafiaram as autoridades, tiraram seus hijabs e os queimaram ou cortaram em meio à multidão, segundo imagens de vídeo que viralizaram nas redes sociais.

"Não ao véu, não ao turbante, sim à liberdade e à igualdade!", gritaram os manifestantes em Teerã. Os protestas geraram uma onda de solidariedade internacional e manifestações de apoio em cidades como Nova York e Istambul.

Os manifestantes lançaram pedras contra as forças de segurança e incendiaram veículos da polícia, informou a agência de noticias oficial Irna, que reportou concentrações em cidades como Mashhad, Tabriz, Isfahan e Shiraz.

O acesso à internet sofreu restrições, segundo o grupo de monitoragem Netblocks.

A morte de Amini e a repressão aos protestos provocaram clamor internacional e foram condenadas pelas Nações Unidas, Estados Unidos, França e outros países.

Em paralelo à Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova York, o secretário britânico de Assuntos Externos, James Cleverly, disse à AFP que "os líderes iranianos devem perceber que a população está descontente com a direção que tomaram. Devem escolher outro caminho".

Em Nova York, o presidente iraniano, Ebrahim Raisi, ultraconservador, acusou o Ocidente de uma "dupla rasteira" sobre os direitos das mulheres.

Segundo disse Raisi à Assembleia Geral da ONU, os ocidentais focam "em apenas um lado e não em todos", aludindo às mortes de mulheres indígenas no Canadá e às ações israelenses nos territórios palestinos.

- "Impacto tremendo" -

Trata-se dos protestos de maior alcance no Irã desde os ocorridos em novembro de 2019, contrários ao aumento dos preços dos combustíveis.

As manifestações supõem um "impacto tremendo" na sociedade iraniana, indicou o especialista em temas da República Islâmica, David Rigoulet-Roze, do Instituto Francês para Assuntos Internacionais e Estratégicos.

"É difícil saber qual será o resultado, mas existe uma desconexão entre as autoridades, com seu DNA da Revolução Islâmica de 1979, e uma sociedade cada vez mais secularizada", explicou.

"O que se coloca nas entrelinhas é todo um projeto social. E as autoridades demonstram dúvidas sobre como atuar frente a este movimento", acrescentou.

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