Protestos violentos prosseguem no Irão e já ecoam no Mundial de futebol

Prossegue a espiral de protestos e violência no Irão, dois meses após a morte às mãos da chamada "polícia da moral" da jovem Mahsa Amini, de 22 anos, pelo alegado uso indevido do véu islâmico.

Esta semana, coincidiu também com as comemorações do chamado “Novembro Sangrento”, um outro protesto iniciado no Irão em 2019 e que se repetiu em 2020, no qual terão sido mortos mais de 300 manifestantes, então, revoltados contra o aumento dos combustíveis.

Esta semana, os confrontos entre manifestantes e as forças de segurança voltaram a ser violentos. Entre quarta e quinta-feira, terão sido mortas mais de 10 pessoas, incluindo dois rapazes de 10 e 13 anos.

De acordo com a agência persa IRNA, as autoridades acusam alegados terroristas de se aproveitarem das multidões para abrir fogo contra as forças de segurança e de estarem a matar manifestantes indiscriminadamente.

Desde o início dos protestos provocados pela morte da de Mahsa Amini a 16 de setembro, a ONG Direitos Humanos do Irão estima já terem morrido pelo menos 342 pessoas, incluindo 43 crianças, devido à repressão armada das autoridades.

A organização não-governamental fala ainda em milhares de feridos e de pelo menos duas mil pessoas detidas, incluindo cinco manifestantes condenados à morte, mas a revolta não parece abrandar contra as apertadas regras islâmicas do regime iraniano e tem-se feito ouvir também em cidades de outros países.

Protestos já chegaram ao Qatar2022

A seleção iraniana de futebol, que se prepara para competir no Mundial do Qatar, também está a ser arrastada para os protestos.

Alguns jogadores já se manifestaram a favor dos protestos, como por exemplo o portista Taremi. O capitão da equipa, Alireza Jahanbakhsh, que alinha no Feyenoord, dos Países Baixos, assegurou esta quinta-feira que o posicionamento dos jogadores perante os protestos "é uma decisão pessoal", deixando entender não haver diretivas políticas dentro da seleção treinada pelo português Carlos Queiroz.

"Estamos focados em jogar futebol. Desde pequeno que sonho em jogar pela seleção e todo o grupo sente isso. Estamos cá para respeitar a camisola, a seleção e dar alegrias ao povo iraniano. Celebrar ou não [assinalando os protestos] é uma decisão pessoal de cada jogador", referiu o capitão.

O selecionador já foi entretanto questionado pela imprensa inglesa se se sentia confortável por representar um país acusado de não respeitar os direitos das mulheres.

Carlos Queiroz recusou responder no momento, por estar focado no futebol, mas abriu a porta a um esclarecimento após o Mundial se o mesmo jornalista, que trabalha para o canal privado Sky News, lhe fizer uma oferta monetária.

O português sempre foi dizendo, no entanto, que os jogadores "têm o direito de se expressar", desde que no espírito "do jogo e das leis da FIFA" e lembrou que em Inglaterra os futebolistas "dobram um joelho" num manifesto antirracismo. "Algumas pessoas gostam, outras não. No Irão é igual", disse.

E no final da conferência de imprensa ainda deixou mais uma provocação aos jornalistas ingleses: "Pensem no que aconteceu no vosso país com a imigração".

O Irão está inserido no grupo B, o mesmo da Inglaterra, e a estreia no Mundial está marcada para segunda-feira, 21 de novembro, contra os "três leões". Quatro dias depois, os persas defrontam o País de Gales e, na última ronda, os Estados Unidos, num outro duelo com forte cariz político.