PSDB aprova regra de prévias para 2022, mas adiamento sobre brechas dá sobrevida a plano de Doria

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***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 21.10.2020 - Governador de São Paulo, João Doria (PSDB). (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 21.10.2020 - Governador de São Paulo, João Doria (PSDB). (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A cúpula do PSDB aprovou, nesta terça-feira (8), por unanimidade as regras das prévias presidenciais do partido, que diferenciam o peso de filiados e políticos com mandato —mas deixou brechas para mudanças a serem votadas na semana que vem, o que mantém o jogo aberto e pode beneficiar João Doria (PSDB).

O adiamento da definição, contudo, foi visto como nova derrota do tucano em seu partido. O grupo de Doria acreditava ter maioria para emplacar, na reunião, alteração favorável ao governador paulista —o aumento do peso dos filiados— e defendeu que a votação fosse concluída nesta terça.

Os demais pré-candidatos, no entanto, quiseram adiar a questão. O tema foi a votação, e o adiamento foi aprovado. Os concorrentes internos de Doria são Eduardo Leite (RS), Arthur Virgílio (AM) e Tasso Jereissati (CE).

Pelas regras aprovadas, os filiados têm 25% do peso dos votos, e Doria quer ampliar a participação para ao menos 50% . Sua proposta inicial de voto universal, ou seja, todos os filiados com o mesmo peso, já foi enterrada pela comissão de prévias do PSDB na semana passada.

Aliados de Doria pressionam por maior peso dos filiados porque São Paulo concentra a maior fatia deles —cerca de 22% de 1,36 milhão, segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Para tucanos próximos de Doria, o adiamento foi uma manobra para evitar a vitória do paulista. Mesmo tucanos não ligados ao governador admitem que o clima era favorável a ele e que a proposta de que os filiados representassem 50% dos votos poderia ser aprovada.

Outros membros do partido apontam, porém, que o fato de Doria ter perdido por ampla margem a votação sobre o adiamento demonstra que ele não teria maioria no colegiado. ​No último teste de força na executiva, em 2019, para deliberar sobre o processo de expulsão de Aécio Neves (PSDB-MG), a ala de Doria perdeu por 30 a 4.

Segundo tucanos ouvidos pela Folha, há uma ala disposta a fazer um aceno para Doria e ampliar a participação de filiados, mas para qual percentual é o que ainda gera debate. O presidente da sigla, Bruno Araújo, chegou a sugerir 35%, mas recuou.

Araújo designou que Virgílio articule a conversa entre os quatro candidatos para que haja um entendimento entre eles. Se não houver, a executiva nacional vota de qualquer forma, na próxima terça (15), as alterações propostas.

"Será um prazer exercer esse papel de trabalhar pela unidade. [...] Vou me dedicar com a maior sinceridade nesse desafio. De minha parte, há uma disposição absoluta de chegar a um acordo e creio que esse será o espírito de todos", tuitou o ex-prefeito de Manaus.

​Consultado pela reportagem, Leite, governador do Rio Grande do Sul, afirmou estar disposto a dialogar, mas defendeu que a proporção dos filiados siga em 25%.

"O trabalho da comissão foi muito bem feito dentro da lógica do equilíbrio federativo que eu tenho defendido. Eu trabalharei para que seja mantida a regra apresentada pela comissão", afirmou.

​"Não tenho problemas em buscar caminhos de unidade", completa o governador. "Mas não faz sentido ter prévias se partir de uma regra que desequilibra [a disputa] de forma quase irreparável."

Membros do PSDB ouvidos pela reportagem consideraram, de forma geral, que as regras definidas pela comissão eliminam favoritismos e dão chance para que qualquer um dos quatro vença a eleição interna.

"Defendemos que se votasse hoje por entender que havia ampla construção e várias opiniões a favor", disse o presidente do PSDB de São Paulo, Marco Vinholi, que compõe o governo Doria, a respeito da proposta de 50%.

Para ele, esse seria um modelo de convergência. "Todos os candidatos têm chance nesse critério, seria uma proposta correta com a militância e com a amplitude dos nossos atores dentro do partido."

​Além da maior participação de filiados defendida pelos paulistas, há outra questão apresentada pelo deputado federal Paulo Abi-Ackel, presidente do PSDB em Minas Gerais. A ideia é que dirigentes estaduais façam parte do grupo de prefeitos e vice-prefeitos, e não do grupo de filiados. Na prática, isso amplia o peso dos estados na votação.

Em teoria, só cabem alterações nos pesos dos grupos votantes já aprovados nesta terça, mas essas mudanças laterais têm potencial para dar vantagem a um ou outro presidenciável tucano.

No último dia 31, a comissão de prévias do PSDB, coordenada pelo ex-senador José Aníbal (SP), concluiu a proposta de votação em quatro grupos, cada um ​com peso unitário de 25%.

Os grupos são: um de filiados; um de prefeitos e vice-prefeitos; outro de vereadores, deputados estaduais e distritais; e o quarto grupo reúne governadores, vice-governadores, senadores, deputados federais, ex-presidentes e presidente do PSDB.

Por exemplo: no grupo um, o candidato A tem 60% dos votos e o B, 20%. Na conta final, o A soma 15% e o B, 5%.

O tesoureiro da sigla, César Gontijo, que é aliado de Doria, afirmou que o adiamento se deve à busca de uma convergência, "para que não haja vencidos ou vencedores". Em sua avaliação, o que dá força à proposta de 50% é o compromisso do partido com a democracia interna e o entendimento de que os filiados devam participar mais da vida do partido.

"Acho que foi válido para buscar o consenso. Temos que construir uma candidatura para que o partido saia fortalecido", completa.

Araújo afirmou à Folha que "a discussão interna faz bem ao partido".

Tucanos experientes apontam que, caso Doria insista em regras que o favoreçam, pode até vencer as prévias, mas não terá respaldo do partido na eleição para a Presidência da República. A leitura é a de que as prévias são o único instrumento capaz de legitimá-lo na sigla e de dar a ele a chance de percorrer o país.

Portanto, o paulista deveria evitar esticar a corda no processo interno, o que, em última instância, poderia até causar a desistência dos demais.

Como mostrou o jornal Folha de S.Paulo, Doria vem buscando se viabilizar dentro do partido, com conversas e jantares, e entre eleitores, com plano de vacinação e inaugurações no interior —mas encontra dificuldades. Leite é considerado favorito fora de São Paulo, enquanto Doria é lembrado pelos seus pares por intervenções, atropelos, falta de articulação e erros políticos.

O último foi a viagem ao Rio de Janeiro, no fim de semana, onde Doria foi flagrado tomando sol na piscina de um hotel de luxo sem máscara, contrariando lei estadual que obriga o uso da proteção. Dias antes, o governador recomendou à população que não gerasse aglomerações.

De acordo com a deliberação da executiva, as prévias estão marcadas para 21 de novembro, com possível segundo turno em 28 de novembro. Enquanto Doria preferia a data divulgada pelo partido inicialmente, 17 de outubro, outros pré-candidatos e líderes do partido pressionavam pelo adiamento para o ano que vem.

A expectativa de tucanos é de que Doria, caso perca as prévias, saia do partido e busque ser candidato ao Planalto por outra sigla, o que explica sua pressa.

Já o motivo apresentado para o adiamento era a questão da pandemia, mas há, nos bastidores, esforços de parte da bancada da Câmara dos Deputados, grupo que incluí Aécio Neves (PSDB-MG), para que o partido não lance candidato a presidente da República, medida que faria sobrar mais verba do fundo eleitoral para os parlamentares se reelegerem.

A necessidade de escolher um presidenciável neste ano se consolidou no partido após a constatação de que outros nomes já estão em franca campanha, como o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), Lula (PT) e Ciro Gomes (PDT).

Por causa da pandemia, os tucanos devem votar por meio de um aplicativo, e estarão aptos todos os filiados até 31 de maio.

A expectativa é baixa em relação à participação de filiados, considerando prévias anteriores. Em 2016, Doria teve 43% dos cerca de 6.100 votos no primeiro turno e venceu o segundo turno com quase a totalidade dos 3.200 votos. A capital paulista tinha cerca de 27 mil filiados à época. Em 2018, ele teve 80% dos votos de cerca de 15 mil filiados –o total do estado na época era de aproximadamente 310 mil.​​

REGRAS DAS PRÉVIAS APROVADAS PELO PSDB

Colégio eleitoral de quatro grupos, com 25% de peso cada

1. filiados

2. prefeitos e vice-prefeitos

3. vereadores, deputados estaduais e distritais

4. governadores, vice-governadores, deputados federais, senadores, ex-presidentes do PSDB e o atual

Datas

20.set - inscrição dos candidatos

18.out - início dos debates

21.nov - primeiro turno

28.nov - segundo turno

PROPOSTAS AINDA EM DISCUSSÃO

Serão votadas na próxima terça (15), após presidenciáveis tucanos conversarem entre si​

Aumentar participação dos filiados (grupo um) para 50%

Acrescentar dirigentes estaduais no grupo dois, e não um

OS NÚMEROS DO PSDB

Prefeitos: 520 (202 em SP)

Vereadores: 4.372 (1.028 em SP)

Deputados estaduais: 72 (9 em SP)

Deputados federais: 33 (7 em SP)

Senadores: 7 (2 em SP)

Filiados: 1,36 milhão (cerca de 300 mil em SP)