À margem da irrelevância, PSDB recolhe a fatura de uma década de erros

Governor of Sao Paulo State Joao Doria speaks after the center-right Brazilian Social Democracy Party (PSDB) meeting for the presidential primary in Brasilia, Brazil, November 21, 2021. REUTERS/Ueslei Marcelino
O ex-governador e ex-futuro candidato a presidente João Doria Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

O PSDB perdeu ganhando as eleições de 2014. Apesar de acumular a quarta derrota consecutiva para o PT em eleições presidenciais, o partido conseguiu eleger seis governadores, entre eles Geraldo Alckmin, em São Paulo, três senadores e 54 deputados.

Mais do que tudo isso, o desempenho de Aécio Neves na disputa principal o alçava a líder da oposição ao governo Dilma Rousseff a partir das primeiras horas de 2015, quando ele reassumiria sua cadeira no Senado. Ele deixou aquela eleição com 51 milhões de votos e um espólio a ser administrado com sabedoria e paciência nos anos seguintes —tudo o que faltou para seus dirigentes dali em diante.

Parecia questão de tempo: Aécio e seu partido entrariam com tudo à medida que o governo Dilma se desgastava ao tentar explicar ao eleitorado por que precisou adotar na prática o mesmo receituário de um duro ajuste fiscal que jurou não fazer durante a campanha.

Quatro anos. Jogando parado. Na dele. Para aproveitar o desgaste de quatro administrações petistas e cruzar a rampa do Planalto em 2018 com um grande acordo eleitoral, com DEM, com a ala descontente do PMDB, com a simpatia de parte do mercado e dos formadores de opinião, com tudo.

A tendência estava desenhada no desempenho do PSDB nas eleições municipais de 2016, quando o partido elegeu 793 prefeitos – 107 a mais do que nas eleições anteriores. Um marco.

Mas aí, um pouco por afobação, outro tanto por medo de ver a Lava Jato bater à sua porta, como bateu, o líder tucano preferiu aderir a um outro grande acordo nacional –aquele descrito por Romero Jucá, com o Supremo, com tudo. Para não ser o primeiro a ser comido, como prognosticava o então aliado na famosa gravação.

Entre uma eleição e outra, o partido optou por contestar o resultado das urnas (lembra alguma coisa?), “só para encher” a paciência do adversário, como admitiu o próprio Aécio, e patrocinou a aventura jurídica que acabaria balizando o processo de impeachment de Dilma Rousseff, finalizado em 2016.

Em sociedade, PSDB e PMDB assumiram as rédeas da situação pensando que viveriam anos sem serem amolados no campo que ajudaram a minar. Faltou combinar com Rodrigo Janot, o procurador-geral da República que articulou a delação dos irmãos Batista, donos da Friboi, que alvejou Michel Temer e Aécio Neves a um só tempo. Era o princípio do fim.

Em 2018, o PSDB fez figuração na disputa presidencial, mas ainda conseguiu vitórias importantes, como a de João Doria, em São Paulo. E Aécio, de líder da oposição e futuro presidente da República, virou o agente tóxico que ainda conseguiria o feito de se eleger deputado, sem qualquer protagonismo além de um acordo aqui e outro acolá nos bastidores.

O risco da radicalização foi mal calculado, como apontávamos no já distante 2015, e o resto é história. Durante anos, o equilíbrio (ou polarização) entre forças tucanas e petistas servia como uma barragem aos anseios extremistas que rondavam, mas não chegavam a ameaçar, um arcabouço institucional construído por meio de um princípio político de não-agressão abaixo da linha da cintura.

A virulência da campanha de 2014, que se seguiu até o ano de impeachment, desequilibrou esse acordo, criou um vórtice na estrutura política e as condições para que a direita moderada fosse engolida pelo que se pode chamar de ultradireita (ou bolsonarismo, para os íntimos).

Para o PSDB, o resultado das urnas em 2022 é o retrato de um partido a caminho da irrelevância.

A sigla saiu das eleições com apenas 13 deputados eleitos (9 a menos do que a bancada atual, já minguada) e nenhum novo senador. Não elegeu nenhum governador no primeiro turno – e vai precisar rebolar para vencer as disputas em Pernambuco, Paraíba, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul, onde a situação de Eduardo Leite simboliza o conjunto de erros do partido nos últimos anos.

Leite foi derrotado para João Doria nas prévias que decidiriam quem seria o candidato tucano à Presidência. Doria venceu e não levou. Não teve suporte do partido, muito menos do adversário interno, que minou o quanto pode a candidatura do paulista para herdar a vaga.

Nenhum dos dois ficou com ela.

O partido se contentou em indicar Mara Gabrilli a candidata a vice de Simone Tebet (MDB), que terminou a corrida com menos de 5% dos votos.

Leite, que defendia o fim da reeleição, precisou voltar atrás para tentar recuperar o cargo do qual havia renunciado. Por pouco não chegou sequer ao segundo turno. Será um milagre se conseguir evitar a derrota para Onyx Lorenzoni (PL), outro candidato do campo bolsonarista que se beneficiou da crise da chamada direita democrática para desfilar com seu trator.

Mas nenhuma derrota doeu mais na alma tucana do que a observada em São Paulo, estado governado pela legenda desde 1994 e que neste ano, após outra sucessão de erros (o vai-não-vai de Doria e a candidatura de um nome recém-filiado ao partido), não chegou sequer ao segundo turno. O PSDB vai poder agora no máximo negociar a participação, no banco do passageiro, no governo de quem for eleito em troca de apoio.

Desarticulado, o PSDB não conseguiu evitar que São Paulo se transformasse num pastiche da disputa nacional entre petistas e bolsonaristas. Ao retrato trágico da legenda se soma a saída de nomes históricos, como Geraldo Alckmin, que migrou para o PSB, e a morte precoce de seu quadro mais promissor, Bruno Covas (PSDB).

Em 2020, após as eleições para prefeito, o PSDB ainda era o partido que governaria o maior número de habitantes nos municípios — 34 milhões —, número puxado pelo desempenho na maior cidade do país, hoje administrada por um emedebista (Ricardo Nunes). São esses números que impedem a decretação do "triste fim" da legenda. Mas o revés é profundo e a situação, melancólica.

À beira da irrelevância, o partido terá de se reinventar para voltar a ser sombra, no plano nacional, do que já foi um dia.