PSDB escolheu agenda favorável a João Doria: o que a manobra revela sobre a situação do partido

Rovena Rosa/Agência Brasil

Por Thaís Matos

Na semana passada, o jogo parecia perdido para João Doria: visando a vaga de candidato ao governo de São Paulo, o prefeito da capital paulista defendia a realização das prévias estaduais do PSDB no mesmo dia da escolha do candidato do partido para a presidência, marcada para 4 de março.

Luiz Felipe D’Ávila, Floriano Pesaro e José Aníbal, adversários do prefeito na disputa, haviam conseguido adiar essa votação. Além disso, o presidente do partido, Geraldo Alckmin, defendia publicamente que o PSDB abrisse mão de uma candidatura própria no estado para apoiar Márcio França, vice governador e pré-candidato pelo PSB.

Nesta semana, Doria e seus aliados conseguiram reverter a situação. Em entrevista à Rádio Bandeirantes, Geraldo Alckmin afirmou que o partido terá candidatura própria ao governo de São Paulo. E garantiu também que as prévias serão em março.

Em entrevista ao Yahoo, o deputado tucano Roberto Massafera declarou que “o presidente estadual do PSDB convocou o diretório para uma reunião no dia 5 de março a fim de estabelecer as regras da disputa, que deve ser realizada ainda neste mês”.

A decisão do partido é altamente favorável a João Doria. Ele tem até 7 de abril para deixar a prefeitura e, se as prévias ocorressem após esse prazo, como pretendiam seus opositores, ele teria de sair do cargo sem a garantia de ser o candidato escolhido.

Os aliados do prefeito já trabalham intensamente nos bastidores para angariar apoio a ele. Segundo informou a coluna Radar, da Revista Veja, DEM, PSD, PP, PTB e PRB fariam parte de sua base. A manobra revela cenários importantes no partido:

O PSDB continua rachado

O partido não se recuperou do racha que explodiu no final do ano passado. Para Milton Lahuerta, coordenador do Laboratório de Política e Governo da UNESP, “não há unidade no PSDB, em nenhum nível”.

“A eleição de Geraldo Alckmin para a presidência do partido, de certo modo, criou condições mínimas para uma recomposição de forças. Contudo, é no âmbito do estado de São Paulo que se encontram as resistências mais acerbas para se reconstruir uma unidade mínima de ação”, avalia o cientista político.

Para o professor, a racha teve início justamente com os dois protagonistas do PSDB no estado, com a benção de Alckmin à indicação de João Doria para a prefeitura da capital, há dois anos. O prefeito não era bem quisto dentro do partido. Agora, está novamente disposto a causar alvoroço, desta vez contrariando até o antigo padrinho político.

A questão Doria

Este novo rumo revela a força que Doria vem ganhando dentro do partido. Mesmo sem declarar abertamente que é candidato, conseguiu um calendário favorável a ele e ainda minou a costura que Alckmin fazia com o PSB.

Mas é preciso cautela. Apesar de ter apresentado uma votação expressiva em São Paulo e uma ótima habilidade midiática, ele está longe de ser altamente popular. Assim como a ascensão foi repentina, também a queda chegou rapidamente. Após episódios polêmicos a frente da prefeitura, como a inclusão da farinata na merenda escolar e as inúmeras viagens durante o ano, sua avaliação caiu bruscamente e o prefeito perdeu o gás inicial.

“Como não tem substância política e nem preparo para exercer um cargo executivo de responsabilidade, Doria rapidamente minguou e revelou o seu real tamanho. Passados os momentos iniciais de sua gestão, quando ele ainda pode exercer simbolicamente o papel de “gestor” eficiente, logo se tornou evidente o quanto havia de embuste em sua candidatura”, avalia o professor Lahuerta.

Sua insistência em uma candidatura a qualquer custo, segundo o professor, revela a falta de pensamento partidário e de conhecimento do jogo político, essenciais para qualquer candidatura bem sucedida. “Se insistir em cortar caminho, atrapalhando as movimentações de outras lideranças de seu partido, vai contribuir para agravar o processo de fragmentação que o PSDB vem vivendo, passando para a história não apenas como um outsider inconsequente, mas como um sujeito destituído de qualquer visão de futuro e sem nenhum espírito público”, finaliza.

Alckmin enfraquecido

Em 9 de dezembro, Geraldo Alckmin foi eleito presidente do PSDB com a missão de unir e reestruturar o partido. E também com a ambição de se tornar o candidato à Presidência. Apesar do aparente consenso em torno de seu nome, ele ainda é questionado nos bastidores.

Até agora, o atual governador tem aparecido com 8% das intenções de votos nas pesquisas, muito aquém do potencial de seu partido. Ele ainda não conseguiu convencer o centrão de que pode ser um bom representante desse segmento e o que se apresenta é uma proliferação de candidaturas que pleiteiam a mesma parcela do eleitorado.

Além disso, ele tem de lidar com os insistentes elogios de Fernando Henrique Cardoso, presidente de honra de PSDB, a Luciano Huck. Com mais este revés, Alckmin terá que trabalhar intensamente em alianças para ser um nome com chances reais em outubro.