PSDB escolheu o lado errado e quem perdeu foi o Brasil, diz Doria sobre Aécio

CAROLINA LINHARES E THAIS ARBEX
**ARQUIVO** SÃO PAULO, SP, 11.01.2019: O governador João Doria (PSDB) convoca coletiva de imprensa em São Paulo. (Foto: Suamy Beydoun/Agif/Folhapress)

SÃO PAULO, SP, E BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - ​O governador de São Paulo, João Doria, afirmou que o PSDB escolheu o lado errado ao rejeitar, nesta quarta-feira (21), dois pedidos de expulsão do deputado federal Aécio Neves (PSDB-MG).

A decisão foi uma derrota para Doria, que defende a saída do mineiro e é considerado o principal líder tucano hoje. O governador paulista, que pretende ser candidato à Presidência em 2022, disse que "quem perdeu foi o Brasil".

“Lamento a decisão da maioria dos membros da executiva do PSDB que votou a favor da manutenção de Aécio na legenda. Respeito a votação, mas ela não reflete o sentimento da opinião pública brasileira", afirmou em nota.

Ao todo, 35 tucanos participaram da reunião no diretório nacional do partido, em Brasília. Foram 30 votos a favor de Aécio, 4 contra e uma abstenção.

"Cada membro da executiva deve responder por sua posição. A minha é clara: Aécio neves deve se afastar do PSDB e fazer sua defesa fora do partido. O derrotado neste caso não foi quem defendeu o afastamento de Aécio. Quem perdeu foi o Brasil."​

Doria já defendeu publicamente o afastamento de Aécio em diversas ocasiões, inclusive na terça (20), em Brasília, após reunião com a bancada na Câmara, que é majoritariamente favorável ao deputado.

O presidente estadual do PSDB de São Paulo, Marco Vinholi, que é alinhado a Doria, divulgou nota dizendo que a decisão contraria a orientação do estatuto do partido, que prevê que seus filiados mantenham conduta “ética, pessoal e profissional, compatível com as responsabilidades”.

"A decisão da executiva nacional coloca fumaça num cenário em que a sociedade exige, cada dia mais, transparência e lucidez dos agentes públicos. [...] O PSDB-SP não vai virar as costas para a sua história e continuará atuando para que os filiados ao partido não tratem lisura partidária como uma peça acessória", afirmou.

Num recado a Doria, Aécio afirmou após a reunião desta quarta que agora é “hora de todos nós lambermos as feridas e olharmos para frente”, com “menos rancor no coração e mais amor a se distribuir a todos”.

Presidente nacional do PSDB, Bruno Araújo afirmou a decisão desta quarta é “definitiva”. “O assunto Aécio Neves em relação aos fatos apresentados está encerrado”, disse.

​Aécio é investigado em uma série de inquéritos e se tornou réu, em abril de 2018, sob acusação de corrupção passiva e obstrução da Justiça. O deputado ainda não foi julgado.

O deputado é réu no processo relativo ao episódio em que foi gravado, em março de 2017, pedindo R$ 2 milhões a Joesley Batista, da JBS.

Questionado se a posição da executiva foi uma derrota para Doria, Aécio afirmou não enxergar dessa forma, mas classificou o processo como eleitoreiro.

"Ao meu ver, uma preposição inadequada foi feita, claramente, com uma percepção eleitoral e o partido simplesmente disse que aqui tem regras e essas regras é o que vão fortalecer o candidato do partido", disse.

"Doria tem qualidades, obviamente que é um projeto ainda em construção vai passar por pelo êxito da sua administração em São Paulo, para o qual todos nós torcemos."

Para Aécio, “o PSDB deu uma demonstração de que quer virar essa página”. “O PSDB sabe de sua responsabilidade”, disse.

“O partido tomou uma decisão serena e democrática. Não há aqui vitoriosos e vencidos. É uma decisão que respeita não apenas aquilo que prevê o estatuto, mas também a história daqueles que construíram o PSDB. Ninguém perde nesse episódio”, disse a jornalistas.

A ofensiva contra o deputado mineiro foi patrocinada por Doria, que conseguiu apenas quatro votos contra Aécio: o deputado Samuel Moreira (PSDB-SP), do prefeito de São Bernardo do Campo, Orlando Morando, do secretário de Saúde da capital paulista, Edson Aparecido, e do tesoureiro do PSDB, César Gontijo.

A abstenção foi do líder do partido na Câmara, Carlos Sampaio (PSDB-SP).

Uma das representações analisadas nesta quarta foi formalizada pela direção paulistana do PSDB em 9 de julho, um dia antes de o prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), aliado de Doria, ameaçar deixar o partido caso Aécio não fosse expulso.

Covas, que busca a reeleição no ano que vem, chegou a dizer "ou eu ou ele" para defender a saída do mineiro do partido.

Nesta quarta, o diretório de São Paulo enviou nova peça à direção nacional do partido, mais robusta juridicamente que a anterior. O documento iniciava com uma citação de Tancredo Neves, presidente eleito do Brasil e avô de Aécio.

“Urge que a nova legislatura comece a cuidar, desde já, de novos métodos e processos que assegurem, por inteiro, a honestidade e a veracidade dos pleitos, protegendo o voto de todas as garantias que o abroquelem contra as falsas seduções da demagogia, das deformações da violência e da ação deletéria da corrupção", discursou Tancredo.

A outra representação analisada na reunião foi oficializada pelo diretório estadual de São Paulo na terça-feira (20).

​Relator e aliado do mineiro, o deputado Celso Sabino (PSDB-PA) apresentou parecer contrário à admissibilidade das representações. A maioria da executiva acompanhou o entendimento, travando a possibilidade de os casos avançarem para o Conselho de Ética do partido.


O PLACAR DA VOTAÇÃO

- 30 votaram a favor de Aécio, pelo arquivamento dos pedidos de expulsão do deputado do partido;

- 4 votaram pelo prosseguimento do processo;

- 1 político se absteve: Carlos Sampaio (PSDB-SP), líder do partido na Câmara.