PSDB não tem como fazer oposição sistemática ao governo Bolsonaro, diz Eduardo Leite

CAROLINA LINHARES
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***FOTO DE ARQUIVO***CAMPOS DO JORDÃO, SP, BRASIL, 05-04-2019: Com a presença de ministros, o Fórum Empresárial LIDE, acontece em Campos do Jordão. Na foto, o governador do Rio Grande do Sul Eduardo Leite. (Foto: Bruno Santos/ Folhapress)
***FOTO DE ARQUIVO***CAMPOS DO JORDÃO, SP, BRASIL, 05-04-2019: Com a presença de ministros, o Fórum Empresárial LIDE, acontece em Campos do Jordão. Na foto, o governador do Rio Grande do Sul Eduardo Leite. (Foto: Bruno Santos/ Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na semana em que se consolidou dentro do PSDB como alternativa a João Doria para candidatura presidencial no ano que vem, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), 35, fez questão de demarcar suas diferenças em relação ao paulista.

Em entrevista à reportagem, Leite defendeu seu estilo moderado em contraposição a ataques, disse não fazer política ao sabor dos ventos e nem como aspiração pessoal e lembrou que Doria fez campanha para Jair Bolsonaro em 2018.

Há ainda distância em relação à oposição a Bolsonaro. Doria pretende adotá-la como regra no partido, enquanto Leite vê na oposição sistemática custos para a sociedade e defende a análise das propostas econômicas do governo.

Nesta sexta (12), os tucanos impuseram uma derrota a Doria ao reconduzir Bruno Araújo para a presidência do partido. Aécio Neves (PSDB-MG) também propôs prévias, o que fortalece Leite, embora o gaúcho rejeite aproximação com o deputado.

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Pergunta - O sr. deu início a um processo quase de pré-candidatura à Presidência. O sr. quer isso e se sente preparado?

Eduardo Leite - Por mais que insistam em falar em pré-candidatura, se trata de discutir um projeto para o país. Nesse sentido, estou preparado. O que os deputados me pediram foi que eu compartilhasse a experiência, que dialogasse com pessoas de forma a construir um projeto de centro, de moderação. Quero cumprir minha parte. Mas candidaturas vão ser definidas no momento apropriado.

Doria tem uma candidatura desenhada para a Presidência. Sua postura não o confronta e as prévias não trazem o risco de separar o partido?

EL - Eu não acho que prévias sejam um problema. Elas podem significar bons debates para a construção não só de uma candidatura, mas de uma visão de programa partidário. Nos EUA, há essa tradição. Há um sentimento de que o país precisa ter alternativas, nomes, ideias, políticas públicas em contraponto ao que a gente observa do presidente da República.

E o contraponto é exatamente a moderação, a ponderação, a sensatez, a sobriedade. Quem tem disposição de fazer o contraponto com esses valores e princípios não tem que temer fazer um processo de prévias se for o caso. Tem que se analisar quem tem capacidade de gestão, capacidade política de aglutinação e capacidade eleitoral de fazer o projeto prosperar nas urnas. As ideias vêm antes dos nomes.

Mas a capacidade eleitoral não é determinada apenas pela capacidade individual, carismática, ou a capacidade de fazer campanha de um candidato, ela é também determinada pelas circunstâncias, pelo contexto, e estamos ainda a um ano e meio da eleição.

Nos aspectos gestão, política e viabilidade eleitoral, como o sr. vê suas condições e as de Doria?

EL - O mais importante não é como eu vejo, mas como os outros veem, especialmente dentro do partido. Para que a decisão seja para o caminho que o partido entende ser o mais adequado à forma do partido atuar e que eleitoralmente vai melhor se relacionar com a percepção do eleitor. Estou falando sobre se adequar à visão do eleitor, mas não que isso signifique comportamento oportunista de adequar a forma de fazer política àquilo que mais poderá render votos no curto prazo. Não é sobre sermos conduzidos ao sabor dos ventos.

O sr. é cuidadoso em relação à candidatura, mas tucanos afirmam que o sr. venceria as prévias em todos os estados. O sr. vê esse cenário?

EL - Tenho me dedicado a cuidar dos assuntos do meu estado. Não nos debruçamos de forma mais atenta a essa discussão de um rumo para o partido. O governador Doria já disse em algum momento que tem disposição para dialogar sobre os melhores caminhos que não sejam exclusivamente uma candidatura sua. Se essa é a posição dele, é também a minha. Eu não faço a política para atender a uma aspiração pessoal. Precisamos colocar o país no rumo da sobriedade, o que não significa ausência de posição. Muita vezes se confunde o não conflito, o não radicalismo com o morno, com o que não se compromete com um lado. Significa conciliar posição com convicção mas sem desrespeitar quem pensa diferente.

Esse governo não é como outro qualquer no desafio à democracia, no desprezo à vida. Não acha que esse governo deveria, sim, ter uma resposta de oposição mais enfática, como a que Doria dá?

EL - Naquilo que diz respeito ao negacionismo, em relação à ciência, ao desprezo pelos cuidados com a saúde e com a vida das pessoas, sem dúvida nenhuma. De forma contundente, nós devemos nos opor. De outro lado, o governo apresenta, do lado econômico, depois de o país ter tido grave crise econômica, pautas que se aproximam daquilo que a gente defende. Digo que se aproxima porque ainda são tímidas as ações do governo.

Então não tem como fazer oposição sistemática, aquela que obstaculiza, que impede totalmente as ações do governo, aquela que obstrui tudo que vier do governo, porque, apenas numa intenção de benefício eleitoral, o partido estaria dificultando as condições de o país minimamente contornar esse problema econômico que está atingindo a vida das pessoas. A dona Maria e o seu João que lá na ponta sofrem as consequências. Se não temos a mínima disposição para o diálogo, talvez aos olhos desses cidadãos, farão justificar o argumento do presidente de que ele tenta fazer e não o deixam.

A divergência no PSDB escancarada nesta semana é uma divergência sobre ser oposição ou não, sobre expulsar Aécio Neves ou não, ou no fim das contas é uma divergência sobre ser a favor ou contra Doria?

EL - Não há nenhuma influência de Aécio Neves nessa discussão como tenta fazer crer o governador João Doria. Eu mesmo já me manifestei várias vezes que entendo que Aécio Neves deveria ter sido sim expulso ou que tivesse se retirado do partido. O deputado Aécio Neves frustrou nossas expectativas e nos decepcionou tanto quanto decepcionou milhões de brasileiros que acreditaram nele como uma alternativa em 2014. Essa tentativa de dizer que tem uma ala de Aécio e uma ala contra Aécio é uma mentira.

Se isso é uma mentira, qual o cerne da divisão no partido?

EL - A divisão está [no fato de] que a construção do projeto do PSDB deva envolver as lideranças como um todo, e não se impor a partir de ninguém ou de um grupo específico dentro do partido.

Aécio, ao propor que o partido necessariamente faça prévias, fez um movimento que beneficia o sr diretamente. O sr. vê uma espécie de apadrinhamento de sua candidatura por Aécio Neves?

EL - De forma alguma. Eu não tenho qualquer contato com o deputado Aécio Neves. Já manifestei de forma contundente minha visão sobre a atuação do deputado. Pelo menos 12 parlamentares estiveram no Rio Grande do Sul conversando comigo.

Resumir essa conversa a um posicionamento do Aécio seria diminuir a liderança de um senador e de mais uma dezena de deputados de diversos estados, que têm a mesma relevância individual que o deputado Aécio Neves. Seria um desrespeito e uma desconsideração a todos os agentes partidários que estão engajados na construção de um projeto para o país.

Seu campo político está congestionado com Luiz Henrique Mandetta (DEM), Sergio Moro, Luciano Huck, Doria e até Ciro Gomes. Como vê esse espaço pequeno para tantos nomes?

EL - A um ano e meio da eleição é positivo que o país tenha alternativas, nomes para um projeto de centro. No momento adequado, talvez estrategicamente seja melhor a busca por maior aglutinação em menos candidaturas.

A esquerda já se posicionou com Fernando Haddad (PT). Teme que o centro seja estrangulado numa polarização entre esquerda e Bolsonaro?

EL - Por isso entendo que as candidaturas de centro devem guardar todo o respeito e a possibilidade de diálogo permanente. No sentido de buscar construir a maior convergência possível, que possa furar o bloqueio desse radicalismo e mostrar ao país que se tem alternativas ao centro.

Em 2018, o sr. e Doria apoiaram Bolsonaro no segundo turno. Se o cenário se repetir em 2022, com Bolsonaro e o PT, o sr. repete sua posição?

EL - Foi nesse contexto que eu disse em outra entrevista que eu não associei meu nome ao de Bolsonaro, porque acho importante, no momento em que o país venha a me conhecer mais, que saiba o que aconteceu e distinga isso daquilo que se observou em outros lugares, como São Paulo. Eu sofri pressão para que fizesse campanha casada com Bolsonaro e não cedi a essas pressões. E manifestei que, em função da eleição plebiscitária que é a do segundo turno, pela não volta do PT naquelas circunstâncias que se vivia. As circunstâncias para 2022 dependerão de como se comportarão as candidaturas.

Como vê a investigação do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, em relação a omissão ou responsabilização na pandemia, e acha que Bolsonaro também pode ser enquadrado?

EL - Não dá pra dissociar a atuação do ministro das diretrizes dadas pelo presidente. De outro lado, ressalto que recebemos sempre atenção do ponto de vista técnico do Ministério da Saúde necessário para habilitação de leitos, recebimento de insumos, de equipamentos. O principal enfrentamento com o governo federal se deu nas manifestações do presidente com relação ao distanciamento.

Como construtor de um projeto nacional, o sr. deve ter em mente a questão de Manaus. Se não faltou nada ao Rio Grande do Sul, lá faltou oxigênio.

EL - A situação de Manaus, como de outros estados que passam por dificuldades, merece a apuração devida para identificar responsabilidades. Seria uma irresponsabilidade eu atribuir as responsabilidades apenas pelas notícias de jornal.

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RAIO-X

Eduardo Leite, 35

Filiado ao PSDB desde os 16 anos, foi vereador, presidente da Câmara e prefeito de Pelotas (2013-2017) antes de concorrer a governador, em 2018, quando derrotou José Ivo Sartori (MDB), que tentava a reeleição. Formado em direito, declarou 'apoio crítico' a Jair Bolsonaro (PSL) no segundo turno da eleição presidencial.