Psicólogos optam por clínicas especializadas para tratar grupos minorizados

*Arquivo* SÃO PAULO, SP, 10.06.2022 - O psicólogo Marcos Lacerda se associou à Clinica Baobá, especializada para tratar minorias. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)
*Arquivo* SÃO PAULO, SP, 10.06.2022 - O psicólogo Marcos Lacerda se associou à Clinica Baobá, especializada para tratar minorias. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

SALVADOR, BA (FOLHAPRESS) - Quando era paciente de psicoterapia, Marcos Lacerda, 29, sentiu que nem todas as suas demandas relacionadas com a pauta racial eram bem compreendidas pelos profissionais que o atendiam. Foi essa experiência pessoal que motivou o psicólogo analítico a se associar a uma clínica direcionada ao atendimento de grupos vulneráveis após sua formatura.

"Desde 2014, aproximadamente, eu procuro psicoterapia e percebo que é um pouco complicado para alguns profissionais lidarem com a temática do racismo, justamente por não terem muito contato com esse recorte racial", afirma Lacerda.

Para ele, a razão da dificuldade de parte dos profissionais em atender adequadamente os pacientes que querem falar sobre racismo é a insuficiente presença do tema na grade curricular dos cursos de psicologia.

Psicólogos brasileiros estão se associando a clínicas que promovem atendimento especializado a grupos minorizados como negros, pessoas LGBTQIA+ e com deficiência. Os profissionais apontam defasagem na formação na hora de tratar pacientes que possuem demandas relacionadas à sexualidade, raça ou gênero, por exemplo.

Natália Silva, 30, fundadora de uma clínica voltada à população LGBTQIA+, negros e mulheres, concorda que o tema é pouco explorado na academia. "Pessoas pretas, LGBTs, PCDs (pessoas com deficiência) acessam a clínica. E aí, o que a gente faz? Vamos ficar associando tudo ao complexo de Édipo?", diz.

A profissional afirma que o tratamento de um paciente negro com sintomas de baixa autoestima precisa passar pela reflexão acerca das implicações do racismo estrutural.

"Eu sempre falo: o Freud é muito legal, o Skinner é muito legal, mas esses caras não explicam tudo. Se a gente não se debruça em uma formação política e social, a nossa clínica está fadada ao fracasso. A gente vai reproduzir a violência do estado dentro da sala de terapia".

Silva chama de traumatizantes algumas das suas experiências profissionais. Segundo ela, enquanto trabalhava no setor de recursos humanos, recebeu muitas demandas incompatíveis com a ética profissional.

"Nat, a gente precisa de uma recepcionista, mas não pode ser preta, porque ela vai ficar na recepção do prédio central. Nat, eu preciso de um assistente comercial. Pode ser gay, mas não pode ser solto, não pode dar pinta", conta ela sobre algumas das solicitações discriminatórias que já recebeu de empresas.

A recorrência dos pedidos fez com que a psicóloga tivesse a ideia de criar um espaço especializado. Hoje, ela tem uma clínica que, além de oferecer consulta a pacientes, faz o recrutamento e a seleção de pessoas para trabalhar em empresas parceiras. O foco é reinserir os pacientes, majoritariamente negros e LGBTQIA+, no mercado de trabalho. A empresa também promove encontros, palestras, rodas de conversa e outras estratégias de sensibilização sobre o tema.

Para Hamilton Kida, 34, fundador de uma clínica voltado ao público LGBTQIA+, sensibilização é a palavra mais importante quando o tema é atender adequadamente a grupos minorizados.

"Nós fazemos grupos de discussão de caso clínico, grupos de dúvidas, mas a principal ferramenta que temos hoje é o encontro de sensibilização", diz. "O principal é estar sensível à pessoa que está na sua frente. É justamente isso que falta em profissionais da psicologia e da área da saúde como um todo. É muito difícil encontrar pessoas que tenham manejo para atender as diversidades".

Segundo Kida, pacientes chegam constantemente à clínica procurando ajuda especializada por não gostarem da maneira como foram recebidos em outros lugares. De acordo com ele, o espaço já recebeu casos de pacientes que passaram por terapia de reversão sexual e ficaram traumatizados com a experiência.

O profissional cita Rozangela Alves Justino, que teve o registro cassado em fevereiro deste ano pelo CRP-DF (Conselho Regional de Psicologia do Distrito Federal), como exemplo de caso em que profissionais continuam defendendo terapia de reversão sexual.

No Brasil, esse tipo de conduta viola o código de ética dos profissionais, já que é vedado, no exercício da profissão, induzir a convicções de orientação sexual.

Desde 1999, o CFP (Conselho Federal de Psicologia) proíbe a oferta de tratamento para a homossexualidade. Com a cassação, Rozangela foi impedida de exercer a profissão.

Sobre os impactos desse tipo de conduta, Kida afirma que o despreparo aumenta a resistência de pessoas vulneráveis em procurar ajuda. "O primeiro malefício é a quebra do vínculo terapêutico. A pessoa não vai se abrir, não vai poder usufruir da terapia como poderia. As demais questões são relacionadas à possibilidade de haver crise de ansiedade, depressão e ideações suicidas".

O psicólogo afirma que o ideal seria não serem necessárias clínicas especializadas para que determinados grupos possam ser atendidos de maneira adequada. "Espero que um dia a gente possa trabalhar para que não precise existir uma empresa dessa forma.".

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