PSOL pode apoiar Lula em 2022, mas vai cobrar 'reciprocidade' do PT com Boulos em São Paulo

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  • Em entrevista ao Yahoo!, presidente do PSOL diz que vai cobrar "reciprocidade" de partidos para formação de frente nacional

  • PSOL não descarta apoiar Lula na disputa presidencial, mas quer apoio para Guilherme Boulos em SP

  • PT lançou nome de Fernando Haddad para o governo de São Paulo, mas PSOL não abre mão da candidatura de Boulos

Em entrevista ao Yahoo! Notícias, o presidente do PSOL, Juliano Medeiros, recém-reeleito, sinaliza que o partido pode apoiar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na disputa presidencial de 2022, mas adianta que irá cobrar “reciprocidade” em nível estadual caso o apoio ao PT se confirme.

Ex-presidente Lula e Guilherme Boulos
Ex-presidente Lula e Guilherme Boulos (Photo NELSON ALMEIDA/AFP via Getty Images)

Isso porque o PSOL já decidiu pela pré-candidatura de Guilherme Boulos para o governo de São Paulo, enquanto o PT lançou o nome de Fernando Haddad.

"Vamos cobrar reciprocidade no caso de uma frente no plano nacional", afirmou o presidente do PSOL. "Nós queremos o apoio de todos os partidos progressistas, do campo democrático, a essa candidatura", completou.

No debate sobre as eleições de 2022, uma questão que tem se destacado é a de como os partidos que se opõem ao atual governo do presidente Jair Bolsonaro irão se articular para o pleito. Entre as legendas de esquerda, tem se discutido a possibilidade de construção de uma frente para fortalecer o candidato que irá para a disputa.

O nome do ex-presidente Lula ganha mais força a cada nova pesquisa divulgada, mas a garantia de apoio dos demais partidos ao petista também irá passar pelas negociações para as eleições nos Estados.

Para entender esta e outras possibilidades que irão desenhar o cenário de 2022, o Yahoo! Notícias inicia nesta semana uma série de entrevistas que terão como foco as eleições do ano que vem.

Na conversa desta quinta-feira (7), o presidente nacional do PSOL, Juliano Medeiros, falou sobre diversos assuntos: desde o conjunto de prioridades do partido neste momento até como estão sendo encaradas as divergências dentro da legenda em relação a um possível apoio a Lula.

Ao ser questionado sobre o possível apoio a Lula, Medeiros explicou que o PSOL não quer "começar a discussão pelo nome" porque essa definição deve ser a conclusão do processo de debates do partido sobre 2022. "Agora, é claro que eu reconheço que o nome do ex-presidente Lula é, nesse momento, o nome mais forte para essa frente das esquerdas", ressaltou.

Uma parte do PSOL defende que a legenda tenha candidatura própria à Presidência da República. O deputado federal Glauber Braga (RJ) chegou a se lançar como pré-candidato em maio deste ano. Mas, Medeiros, disse ver com naturalidade esse tipo de divergência interna por fazer parte do debate democrático de legenda.

A saída de Marcelo Freixo do PSOL

Ex-presidente Lula e deputado federal Marcelo Freixo
Ex-presidente Lula e deputado federal Marcelo Freixo (Photo credit should read MAURO PIMENTEL/AFP via Getty Images)

Juliano Medeiros falou ainda sobre a saída de Marcelo Freixo do PSOL em junho. Importante liderança da legenda no Rio de Janeiro, o deputado federal era o nome da sigla para a disputa do governo estadual. Freixo, porém, decidiu se filiar ao PSB.

"A questão é que meu amigo Marcelo Freixo quer fazer alianças mais amplas. Isso, sim, encontra a resistência do PSOL", avaliou. Mas ele disse que não está descartado um apoio a Freixo mesmo agora que o parlamentar está no PSB.

Para Medeiros, terceira via não chegará ao segundo turno

No debate sobre as eleições de 2022, a discussão sobre uma candidatura de terceira via tem sido feita, mas, na opinião de Juliano Medeiros, dificilmente terá condições de passar do primeiro turno.

"Tradicionalmente, há espaço no Brasil para quem quer fugir da polarização. Eu acho que haverá espaço para uma candidatura de terceira via. Eu não acho que essa candidatura vai ter força para ir ao segundo turno", resumiu.

Impeachment de Bolsonaro é prioridade para o PSOL

Juliano Medeiros, reeleito presidente do PSOL, lista como prioridades do partido viabilizar o impeachment de Bolsonaro e construir a união dos partidos da esquerda para a formação de uma frente eleitoral em 2022.

“A quantidade de crimes que foram cometidos por Bolsonaro justifica de longe a abertura de um processo de impeachment na Câmara dos Deputados”, destaca Medeiros.

“Achamos que o impeachment é uma saída importante para começar a superar a grave crise política, econômica e social que nós vivemos. Então, em primeiro lugar, nossa tarefa é unir amplos setores democráticos para poder viabilizar o impeachment, aumentar a pressão sobre o presidente da Câmara, Arthur Lira, para poder a partir dessa pressão iniciar o processo impeachment contra o Jair Bolsonaro”.

Manifestantes contrários ao presidente Jair Bolsonaro seguram faixa
Manifestantes defendem impeachment do presidente Jair Bolsonaro (Photo by Mateus Bonomi/Anadolu Agency via Getty Images)

Sobre a união das legendas de esquerda, o presidente do PSOL aponta que essa negociação passa por “contemplar os interesses eleitorais dos partidos” e pela construção de uma plataforma de medidas emergenciais para tirar o Brasil da crise.

“É claro que se esse é um processo complexo, que envolve debates sobre a plataforma dessa frente nas eleições do ano que vem, envolve também a conformação de uma aliança eleitoral, portanto contemplar interesses eleitorais dos partidos e, claro que o PSOL também quer ver seus interesses eleitorais contemplados. Significa construir síntese em torno do que poderia ser um governo das esquerdas a partir de uma vitória eleitoral em 2022”, afirma.

PSOL busca aumentar bancada na Câmara e representatividade

Na entrevista ao Yahoo!, o presidente do PSOL comentou também que aumentar a bancada na Câmara dos Deputados será uma das prioridades do partido para a eleição de 2022.

“É um mecanismo feito para asfixiar os partidos ideológicos. Claro que também asfixia partidos de aluguel, que são os partidos fisiológicos. Mas os grandes partidos fisiológicos não precisam se preocupar com a cláusula de barreira. Está aí o PSL, DEM, PP, MDB, os grandes da fisiologia brasileira. Veja que curioso que é essa cláusula, só pega os partidos fisiológicos pequenos ou os partidos ideológicos, né?”, critica.

Ele não descarta a possibilidade de o PSOL aderir à federação partidária, mas enfatizou que essa adesão não seria com o objetivo de driblar a cláusula de barreira. O mecanismo foi aprovado recentemente pelo Congresso e permite a união de partidos que têm afinidade programática para disputarem a eleição e atuarem, durante o mandato, como uma só legenda.

Bancada do PSOL na Câmara eleita em 2018 (Foto: Divulgação)
Bancada do PSOL na Câmara eleita em 2018 (Foto: Divulgação)

“A gente tem que ficar atento à cláusula, porque ela é uma ameaça permanente, constante aos partidos ideológicos, mas a gente só faria uma federação se houvesse identidade política, programática, ideológica com algum partido, nunca faríamos uma federação só com o objetivo de superar a cláusula”, diz Medeiros.

O presidente afirma também que, além de aumentar a bancada, o PSOL quer garantir a representatividade de setores tradicionalmente sub-representados, como mulheres, negros, indígenas, pessoas com deficiência e a comunidade LGBTQIA+.

“Isso se faz financiando adequadamente as campanhas, se faz também ao abrir espaços de poder das instâncias partidárias. Hoje nossas instâncias têm 50% de mulheres e pelo menos 30% de negros e negras. Fomos ao Supremo Tribunal Federal para garantir que os demais partidos reservassem recursos do fundo eleitoral para financiar candidaturas negras. Então para a gente é muito importante, não basta uma bancada combativa, não basta uma bancada comprometida com os direitos sociais, essa bancada também tem que ter a cara do povo brasileiro”, finaliza.

PSOL cobra explicações do ministro Paulo Guedes

Como um dos principais partidos da oposição ao governo de Jair Bolsonaro, o PSOL reagiu duramente às notícias de que o ministro da Economia, Paulo Guedes, fundou uma empresa fora do território brasileiro para proteger sua fortuna. O partido foi um dos articuladores para a convocação do ministro à Câmara para explicar os recursos.

Documentos obtidos pela Pandora Papers, projeto do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, revelaram também que o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, abriu offshore em paraíso fiscal.

Ao Yahoo!, Juliano Medeiros considerou muito graves as denúncias e cobrou investigação e punição aos dois agentes públicos.

“Em qualquer país sério, nem o presidente do Banco Central, nem o Ministro da Economia durariam vinte e quatro horas nos seus cargos. Eles teriam que ser demitidos por um presidente sério para se defender“, avalia.

“As acusações são muito graves. Não porque os agentes públicos não têm o direito de ter seus negócios privados, mas porque Paulo Guedes foi um dos beneficiados diretos pela política cambial, pela política de desvalorização do real. Gente que tem dólares em um paraíso fiscal, quando um dólar se valoriza, passa a ganhar sem fazer esforço”.

“É pedagógico para o país quando poderosos, especialmente aqueles que cometem crimes de colarinho branco como parece que é o caso do ministro da economia e do presidente do Banco Central, respondam por seus crimes. Nós defendemos a mais rigorosa investigação e apuração e, se necessário, a punição pelos crimes financeiros que possam ter sido prometidos por esses dois indivíduos”, afirma.

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