PT cancela prévias e deve escolher candidato a prefeito de SP até o fim de abril

CAROLINA LINHARES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O PT decidiu cancelar as prévias que escolheriam o candidato a prefeito em São Paulo no domingo (22). A decisão, tomada em reunião nesta terça (17), segue a recomendação de evitar aglomerações em meio à pandemia do novo coronavírus.

O candidato petista deve ser escolhido até o final de abril, segundo teto estabelecido pelo diretório municipal. Ainda há divergência sobre a forma de escolha do candidato.

Está em discussão uma votação por meio de delegados, com no máximo cem pessoas, chamada de encontro municipal. Ou uma decisão por parte do diretório municipal, que tem hoje 46 membros. A terceira opção seria uma decisão do diretório municipal e dos 37 diretórios zonais, em conjunto.

O diretório nacional do partido será consultado sobre como será feita a escolha. A ideia é buscar um consenso para determinar o método de escolha, evitando rachas internos.

Segundo Laércio Ribeiro, o cancelamento das prévias foi uma decisão acertada e que dá coerência ao PT para criticar o desdém do presidente Jair Bolsonaro em relação à pandemia.

Considerado favorito para as prévias, o ex-deputado Jilmar Tatto também tem maioria a seu favor no diretório. Além dele, se inscreveram nas prévias os deputados Alexandre Padilha, Carlos Zarattini e Paulo Teixeira, o vereador Eduardo Suplicy, o ex-vereador Nabil Bonduki, e a militante do movimento negro Kika da Silva.

Os seis nomes concorriam nas prévias diante da resistência de Fernando Haddad (PT) em disputar a eleição municipal. O ex-prefeito, que terminou em segundo lugar a eleição presidencial de 2018, é o nome considerado favorito e mais viável eleitoralmente.

O cancelamento das prévias volta a dar força a eventual candidatura de Haddad, que poria fim à indefinição do PT em São Paulo. Também ex-prefeita pelo PT, Marta Suplicy (sem partido) endossa a candidatura de Haddad, de quem gostaria de ser vice.

Membros do partido, no entanto, estão descrentes de que Haddad mudará sua posição mesmo com a nova circunstância. O ex-prefeito já comunicou oficialmente ao diretório municipal do PT que não vai concorrer neste ano.

Segundo Ribeiro, está definido que o novo processo de escolha se dará entre os sete nomes colocados --não haverá inclusões. Não está descartada também a possibilidade de que, agora, os postulantes avaliem abrir mão em favor de outro concorrente.

Para líderes petistas ouvidos pela reportagem, a indefinição da candidatura na principal cidade do país é prejudicial. O partido fica travado em relação a formação de chapa de vereadores e elaboração do programa de governo.

Tampouco consegue ecoar uma voz de oposição ao prefeito Bruno Covas (PSDB), ao governador João Doria (PSDB) e ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) --enquanto outros candidatos já se apresentam para a disputa.

No campo da esquerda, Márcio França (PSB) lançou sua candidatura na última quinta (12), pregando independência do PT e criticando Covas. O atual prefeito, por sua vez, já se declarou candidato à reeleição e adota tom eleitoral, posicionando-se ao centro, entre petismo e bolsonarismo.

Nesta segunda (16), por exemplo, Covas deu entrevista exclusiva sobre medidas contra o coronavírus ao apresentador da Band José Luiz Datena (MDB), que negocia a vaga de vice na chapa tucana. Por causa do câncer, porém, a campanha do prefeito também é incógnita, embora seus aliados garantam que ele estará em condições.

Há petistas, porém, que minimizam o impacto eleitoral da indefinição. Apostam que a força eleitoral de Lula (PT) e da legenda alavancarão o candidato seja ele qual for. O limite legal para registro de candidaturas é agosto.

O medo era que a decisão pudesse se postergar até maio ou junho, mas saindo em abril não é tão problemática. "Não vejo prejuízo. O segundo turno das prévias estava marcado para 5 de abril. Vinte dias a mais não faz diferença", diz Ribeiro.

Nos bastidores há preocupação em definir logo o candidato, sobretudo porque os nomes colocados não são tão conhecidos para os eleitores.

"Atrapalha o PT não ter uma referência para fazer o contraponto e a população perceber a diferença de pensamento. Não ter ainda um porta-voz que se contraponha aos planos de emergência do Bruno, do Doria, do Bolsonaro", afirma Tatto, para quem as medidas tomadas no município são tímidas.

O ex-deputado, contudo, apoia a decisão do partido de cancelar as prévias. "O PT foi maduro, não dá para se comportar como Bolsonaro. Como falar de campanha com o mundo desabando e pessoas morrendo? O mais importante agora é o PT montar uma frente de solidariedade, principalmente aos mais pobres."

Os petistas que disputariam as prévias já vinham cancelando eventos de suas campanhas e pediram ao diretório o cancelamento da votação de domingo.

Para Padilha, que é médico, o cancelamento é uma "demonstração de responsabilidade com a saúde e a vida não só dos nossos militantes, mas com as recomendações feitas pelas autoridades sanitárias". "É um contraponto a atitude delinquente de Bolsonaro", completou.

A votação ocorreria em 67 pontos da cidade. Os cerca de 150 mil filiados do PT no município estariam aptos a votar, mas a expectativa era de que 20 mil de fato comparecessem.

O deputado Rui Falcão (PT-SP), que integra o grupo de trabalho do PT nacional sobre eleições municipais, diz que a decisão de evitar a aglomeração foi sensata.

"Caso contrário, a prévia será muito esvaziada. Além do que, seria contrariar uma recomendação sanitária e da própria direção nacional do PT de evitar aglomerações", diz.

O PT não é o único polo de indefinição na eleição paulistana. Bolsonaro até agora também não tem um nome que o represente em São Paulo. Seu partido, a Aliança pelo Brasil, não estará pronto até o pleito de outubro.

Na esquerda, o PSOL também fará prévias para decidir entre Guilherme Boulos, Samia Bomfim e Carlos Gannazi. À direita, também há nomes já lançados para a disputa, como Andrea Matarazzo (PSD) e Filipe Sabará (Novo). Joice Hasselmann (PSL) também deve concorrer.