'PT nasceu para polarizar', diz Lula em primeira entrevista fora da prisão

Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante comício em Recife, 17 de novembro de 2019. Foto: REUTERS/Adriano Machado

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu sua primeira entrevista a um veículo de imprensa brasileiros após sair da prisão nesta quarta-feira (20). Ao blog Nocaute, do jornalista Fernando Morais, Lula voltou a se defender das acusações de corrupção, atacou Sergio Moro, Deltan Dallagnol e o presidente Jair Bolsonaro, e comentou possíveis cenários para as eleições presidenciais de 2022.

"Não me peçam paciência com Bolsonaro, Moro e Dallagnol", disse ao responder se saíra da prisão disposto a brigar. "Eu sou de bem, mas também sou de brigar, estou defendendo a minha honra", completou.

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Ao mesmo tempo, Lula disse não guardar mágoas políticas de figuras como Marta Suplicy (sem partido) e Ciro Gomes (PDT), e se mostrou desfavorável a um possível impeachment de Bolsonaro. Segundo Lula, cabe ao presidente governar, já que “ele não cometeu crime de responsabilidade ainda provado”.

“Sou um cara que já perdeu muitas eleições, e quando eu perco, respeito o resultado. Mas acho que o PT deveria ter protestado mais na vitória do Bolsonaro, que foi ilícita, foi um roubo aquela indústria das fake news”, afirmou o ex-presidente

Lula repetiu que o "PT nasceu para polarizar", ao comentar as análises de que solto ele iria aumentar a polarização com Bolsonaro. "Se você tiver um partido que não queira polarizar, não tenha partido. [...] Vamos polarizar em 2022. [...] O PT tem que polarizar mesmo, tem que disputar pra valer", afirmou. 

Questionado sobre as eleições de 2020, o petista afirmou que o PT deve ter candidato próprio --embora não seja contra alianças com partidos de esquerda.

"Um partido do tamanho do PT tem que ter candidato para defender as teses do partido. [...] Tem que se defender na TV dos ataques de que foi vítima", disse.

Lula afirmou que o que mais deseja é a anulação do processo do tríplex em Guarujá (SP), e voltou a fazer críticas ao ex-juiz Sergio Moro, responsável pelas ações da Lava Jato e hoje ministro da Justiça, e Deltan Dallagnol, chefe da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba. "Quem montou quadrilha nesse país foi Moro e Dallagnol", disse o petista. 

O ex-presidente chamou Dallagnol de "moleque irresponsável e desaforado". 

A defesa de Lula busca a anulação do processo por considerar que o julgamento de Moro foi parcial. Conversas dos procuradores da Lava Jato reveladas pelo The Intercept Brasil e publicadas também pela Folha de S.Paulo mostram que Moro orientou os acusadores e mantinha próxima relação com eles. 

Lula pediu que a "Suprema Corte tenha sabedoria" ao decidir sobre a anulação. "Se eu tiver culpa, provem e me punam. Agora se provar que Moro fez sacanagem, má-fé, foi mal caráter, que ele seja punido, pelo bem da instituição", disse. 

"Para que o país volte a normalidade, meu processo tem que ser anulado e os responsáveis presos", completou.

O ex-presidente também comentou o andamento das propostas em tramitação no Congresso que querem instituir legalmente a possibilidade de prisão em segunda instância - tese que permitiu sua prisão em 2018 e acabou derrubada pelo STF em novembro, libertando-o do cárcere.

"Espero que o Congresso Nacional tenha juízo. Constituição não é um manuscrito que pode jogar fora toda hora", afirmou o ex-presidente. Para Lula, a elite brasileira conservadora diz que a Constituição é um atraso pois não gostam de mecanismos de proteção e garantias sociais.

*Com Folhapress