PT pode ficar fora do segundo turno pela primeira vez em 28 anos no Rio Grande do Sul

José Ivo Sartori, governador do estado do RS durante 41ª edição da Expointer, no Parque de Exposições Assis Brasil em Esteio (RS), neste sábado (25). (Foto: José Carlos Daves/Futura Press)

Por Naira Hofmeister

Porto Alegre (RS) – A pouco mais de 20 dias das eleições 2018, o cenário da disputa no Rio Grande do Sul é único em 28 anos. A pesquisa Ibope divulgada nesta quinta-feira, 13 de setembro, confirma a liderança do atual governador do Rio Grande do Sul, José Ivo Sartori (MDB, com 29%), que busca o inédito feito da reeleição. Em segundo lugar vem o tucano Eduardo Leite (PSDB, com 25%), jovem liderança da metade sul do Estado, ex-prefeito de Pelotas.

A se confirmar esse cenário dentro de três semanas, será a primeira vez em 28 anos que o Partido dos Trabalhadores estará fora do segundo turno na corrida pelo Palácio Piratini. “Desde que o PT entrou para valer na disputa, em 1994, sempre esteve no segundo turno contra o PMDB”, recorda a cientista política e professora da Ufrgs Maria Izabel Noll.

A exceção foi a eleição de 2006. As pesquisas mostravam que o então governador, Germano Rigotto, estava na frente dos adversários e poderia ser reeleito. Na tentativa de tirar o petista Olívio Dutra do segundo turno, o eleitor crítico ao partido votou em Yeda Crusius (PSDB). A estratégia de fato a levou à reta final da campanha (Yeda seria eleita governadora), mas os votos desviados de Rigotto fizeram falta e a disputa final acabou sendo entre Yeda e Olívio. “Foi um cálculo equivocado do antipetismo, deu errado”, complementa Noll.

A passagem, entretanto, também é reveladora da força do eleitorado petista no Estado, que se tornou referência para sigla quando Porto Alegre elegeu o mesmo Olívio Dutra como seu prefeito. Foi em 1988, ano em que Luiza Erundina conquistava o comando de São Paulo pelo PT. A diferença é que depois de Olívio se sucederiam outras quatro gestões petistas no Paço Municipal, completando 16 anos ininterruptos da sigla à frente da capital gaúcha – não houve nada parecido no Brasil, na época. Foi na Porto Alegre sob o comando do PT que nasceram dois dos projetos mais marcantes da esquerda mundial contemporânea: Orçamento Participativo e o Fórum Social Mundial.

Apesar disso, paulatinamente a sigla vem perdendo espaço no cenário eleitoral gaúcho.

Eleição de 2014 marcou virada da Capital
Porto Alegre é o balão de ensaio do PT no Rio Grande do Sul. Dois dos prefeitos da Capital chegaram também ao Palácio Piratini: Olívio Dutra governou o Rio Grande do Sul entre 1999 e 2002. O “galo missioneiro”, como é conhecido no Estado, é figura que está acima das disputas partidárias: tem a simpatia de militantes e opositores por cultivar o estilo de vida simples, de quem segue se locomovendo de ônibus pela cidade e vivendo no mesmo apartamento desde que saiu do Interior para trabalhar como bancário – carreira que o levou aos sindicalismo e à política.

Mais tarde, em 2011, foi a vez de Tarso Genro assumir a chefia do Executivo. Apesar de ter feito um governo relativamente bem avaliado (em setembro de 2014, 32% o consideravam ótimo ou bom e 40% regular), não conseguiu reeleger-se (nenhum governador alcançou o feito no Rio Grande do Sul, desde 1947). Casualmente, naquela eleição, pela primeira vez, Porto Alegre votou em peso nos candidatos do campo oposto ao PT, tanto para o governo do Estado como para a presidência da República, nos dois turnos da disputa.

“O desgaste que se manifestou em 2004, quando o PT perdeu a prefeitura, em 2014 se configura como o auge da força dessa corrente: tanto em Porto Alegre como no conjunto todo do Estado, ganharam Aécio Neves (PSDB) e José Ivo Sartori (MDB)”, recorda a cientista política Maria Izabel Noll, professora da Ufrgs.

Na eleição anterior, de 2010, a Capital já dava sinais de que mudaria de posição. Se já no primeiro turno Tarso foi eleito governador com o apoio massivo de Porto Alegre, com mais do que o dobro de votos de seu principal oponente, o emedebista José Fogaça (hoje candidato ao Senado Federal), na eleição presidencial o feito não se repetiu e quem mais fez votos na capital gaúcha foi o candidato derrotado naquele ano, José Serra (PSDB).

Dois modelos petistas em jogo
Depois que foi apeado do Paço Municipal, em 2004, nunca mais o PT voltou a comandar a prefeitura da Capital. Nas duas últimas eleições, seus representantes tiveram desempenho ruim: em 2012, Adão Villaverde amargou 76 mil votos, enquanto o então prefeito reeleito José Fortunati (PDT) teve 517 mil votos. Em segundo lugar na disputa, terminou Manuela d’Ávila (PCdoB), com 141 mil votos. Em 2016, quando a Capital elegeu Nelson Marchezan Júnior (PSDB) no segundo turno, o candidato petista Raul Pont também terminou em terceiro lugar.

Curiosamente, os anos finais do PT no comando de Porto Alegre coincidem com o início da era petista no governo federal – que também chegaria aos 16 anos ininterruptos, não fosse o impeachment ter interrompido o segundo mandato de Dilma Rousseff.

Essa transição do PT do nível local para o nacional assinalou também uma mudança na mobilização do eleitorado, especialmente o das classes populares. A antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, que acompanha há anos a juventude do Morro da Cruz, na periferia de Porto Alegre, escuta esses relatos: “A grosso modo temos dois modelos: enquanto o PT estava na prefeitura, era uma aposta pela democracia radical, baseada na mobilização coletiva do OP, de discussão comunitária. Depois veio o modelo lulista, focado na questão do consumo, quando o processo de politização é mais individualizado, envolve insubordinação e autoestima mas dentro de uma linguagem mais neoliberal que não é a do processo coletivo”, avalia.

A situação piora quando a crise econômica debela o emprego, o trabalho e a possibilidade de consumir, mas então resta muito pouco espaço de debate comunitário, e as pessoas ficam “desenraizadas”, nas palavras de Rosana.

Por essas e outras, no Morro da Cruz, onde em 2014 Dilma Rousseff foi a mais votada em todas as sessões eleitorais, contrariando o resultado em Porto Alegre, o interesse público é monopolizado pelo candidato de extrema direita Jair Bolsonaro (PSL). Curiosamente, essa é uma preferência que não deixa de estar identificada com uma ideia de transgressão: “é um voto de protesto, revolucionário, diante da política institucional que está aí. Ele se apresenta a partir de um aparato de comunicação engraçado, que fala o que quer, de apelo transgressor diante da crise. Nessa máquina de comunciação antissistêmica, a esquerda é apresentada como o status quo, o establishment de forma muito parecida como ocorreu nas eleições norte-americanas”.

Na mesma pesquisa Ibope do dia 13 de setembro, Bolsonaro aparece com 29% da preferência dos eleitores gaúchos, seguido de Fernando Haddad (PT), com 11%, Ciro Gomes (PDT) e Geraldo Alckmin (PSDB), ambos com 10%. Marina Silva (Rede), tem 8%.

Nem à direita nem à esquerda
Apesar das pesquisas e do pouco tempo que resta até o domingo, 7 de outubro, a cientista política Maria Izabel Noll acredita que ainda há espaço para mudança no cenário. Como tanto Sartori quanto Leite se posicionam em um espectro ideológico mais conservador, ela não descarta um segundo turno que inclua um dos candidatos ideologicamente mais à esquerda na disputa majoritária. Segundo o Ibope, Miguel Rossetto (PT), tem 12% e Jairo Jorge (PDT), tem 7%.

“Apesar da fragmentação partidária ter atingido seu ponto máximo no Rio Grande do Sul, com muitas candidaturas [são sete], a realidade é que tem dois grandes blocos que se articulam. O campo está cindido e quem conseguir se aproximar mais do centro, leva, pois em uma situação de radicalização de posições, dificilmente o eleitor vai alterar sua posição de um campo para o outro”, sugere.

Também vale lembrar que na eleição anterior, menos de uma semana antes do primeiro turno, o cenário que as pesquisas desenhavam era de um confronto entre o então governador Tarso Genro e a atual candidata a vice na chapa presidencial de Geraldo Alckmin, Ana Amélia Lemos (PP).

Algumas candidaturas já vem de fato se articulando para buscar o eleitor indeciso (11% segundo o Ibope) com esse discurso de centro. Desde o começo da corrida eleitoral, o pedetista Jairo Jorge tenta se apresentar como essa terceira via: ele deixou o PT no ano passado depois de uma vida de militância na sigla e buscou como candidato à vice um empresário gaúcho. Suas duas gestões como prefeito de Canoas, na Região Metropolitana, foram sustentadas por uma grande coalizão que incluía até o PP. Já Eduardo Leite apareceu recentemente em seu programa de televisão falando assim: “Se ser de direita é querer um governo menor, apoiar privatizações e parcerias com a iniciativa privada, enfrentar com firmeza a violência, muito prazer, eu sou de direita. Se ser de esquerda é querer combater desigualdades, apoiar políticas de proteção social e investir em cultura, prazer, eu sou de esquerda. Agora, se você acha que esse papo de esquerda e direita não é o que vai melhorar a sua vida, muito prazer eu sou Eduardo Leite”.

Já Sartori tampouco se caracteriza por ter um discurso mais radical – embora em seu governo tenha adotado medidas polêmicas como a extinção de oito fundações públicas para reduzir o tamanho do Estado, por exemplo. No caso do atual governador, o que joga contra ele é sua rejeição, que já esteve em 44% e, segundo o mais recente Ibope, é de 31%.

“Me parece que Rossetto ainda está muito posicionado à esquerda para poder chegar nesse campo do centro. Ele está atuando dentro das marcas tradicionais da esquerda”, analisa a cientista política.

Se a atuação mais marcadamente ideológica pode prejudicar o desempenho do PT no eleitorado amplo, foi justamente esse resgate dessas bandeiras que levou a militância da sigla novamente para as ruas, como ocorria nos anos 80 e 90 em Porto Alegre. O número de filiados da sigla no Rio Grande do Sul vem crescendo, mesmo depois da crise do segundo mandato do governo Dilma Rousseff e do impeachment, quando, aliás, bateu recordes.