Publicações afirmam que o gelo do Ártico atingiu o pico em 2022 com base em dados mal interpretados

Publicações compartilhadas mais de 350 vezes em pelo menos três idiomas nas redes sociais desde 31 de maio de 2022 afirmam que imagens de satélite mostram que o gelo do Ártico atingiu seu nível máximo nos últimos 30 anos. Com base nessa alegação, essas postagens insinuam que a mudança climática não existe. Entretanto, a organização internacional responsável pelos dados citados nos textos afirma que suas conclusões foram mal interpretadas e que a tendência de redução de gelo naquela área é amplamente contrastada.

“MAIS UMA NARRATIVA ALARMISTA DESMENTIDA! Verdade inconveniente para globalistas: Gelo do Ártico em alta de 30 anos!!”, diz uma das publicações compartilhadas no Twitter e no Facebook.

Conteúdos semelhantes também circularam em inglês e em espanhol.

Captura de tela feita em 15 de junho de 2022 de uma publicação no Twitter ( . / )

As publicações compartilham um artigo em inglês do site WND cujo título é: “Verdade inconveniente para globalistas: gelo do Ártico em alta de 30 anos”.

O artigo do WND afirma que, segundo a Eumetsat, uma organização intergovernamental europeia com sede na cidade alemã de Darmstadt e integrada por 30 Estados europeus, o gelo do Ártico está atualmente em um máximo de 30 anos”.

O texto atribui a descoberta dessa informação a Tony Heller, descrito como um “cético das mudanças climáticas”. O grupo DeSmog, que investiga campanhas que distorcem o conhecimento científico sobre as mudanças climáticas, inclui Heller em sua lista de indivíduos que contribuem para distrair e retardar medidas tomadas pelo público e pelas autoridades eleitas para reduzir a poluição por gases de efeito estufa e combater o aquecimento global”.

Em uma publicação de 20 de maio de 2022, Heller apresenta três gráficos do OSI SAF, um setor da Eumetsat que fornece informações sobre os principais parâmetros relacionados aos oceanos e à atmosfera.

Heller se baseia nesses gráficos para afirmar que “a extensão do gelo marinho do Ártico está acima da média desde 1989” e que “a perda de extensão de gelo no mês [maio de 2022] é a menor já registrada. em 30 anos”.

Gelo marinho na Baía de Borebukta, no arquipélago norueguês de Svalbard, em 3 de maio de 2022 ( AFP / Jonathan Nackstrand)

O cientista Thomas Lavergne, especialista do Instituto Meteorológico Norueguês de Oslo e que trabalha com a Eumetsat, disse que ao selecionar esses dois anos”, os artigos fazem uma interpretação incorreta dos dados de gelo marinho provenientes do OSI SAF”.

Lavergne disse à AFP: No Ártico, a cobertura de gelo marinho (área e extensão) diminui [em média] todos os meses”.

“A queda é mais pronunciada no verão [boreal] (setembro) do que no inverno [boreal] (março), como mostram vários satélites que cobriram os últimos 40 anos”, acrescentou.

“No entanto, essa redução na extensão e na área do gelo marinho não ocorre em uma taxa constante, há variações de ano para ano: alguns anos haverá mais gelo marinho do que o esperado com base na tendência, e outros haverá menos”. Em maio de 1989, por exemplo, havia menos gelo no Ártico do que a tendência indicava, enquanto em maio de 2022 havia mais do que a média para esses períodos.

Para medir o impacto do aquecimento global no gelo marinho, os cientistas calculam a variação percentual em sua extensão e volume em relação à média de um período de referência de 30 anos, neste caso, de 1981 a 2010.

“A tendência de maio na extensão do gelo marinho é clara”, disse Lavergne, que enviou à AFP o gráfico a seguir, que mostra um declínio médio de 2,5% por década desde 1980. O artigo que diz que a extensão do gelo do Ártico está no máximo se baseia nas datas circuladas em roxo no gráfico enviado por Lavergne, que aponta dois pontos isolados de uma tendência à queda.

Gráfico enviado à AFP por Thomas Lavergne com dados do satélite Eumetsat sobre a extensão do gelo marinho do Ártico que toma como referência o período entre 1981 e 2010 ( . / )

Impacto da crise climática

O gelo marinho é a água do oceano congelada, diferente dos icebergs, das calotas de gelo, das plataformas de gelo e das geleiras. Seu declínio é um dos impactos documentados pelo Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Cerca de 100 cientistas de 40 países diferentes produziram este relatório sobre oceanos e mudanças climáticas.

O IPCC é um alvo habitual de negacionistas das mudanças climáticas, que questionam a credibilidade científica do painel. A AFP verificou diferentes afirmações que negam a crise climática (1, 2).

No entanto, a comunidade científica considera o IPCC uma fonte autorizada sobre as mudanças climáticas e como as emissões de dióxido de carbono (CO2) e outros gases de efeito estufa da queima de combustíveis fósseis estão causando o aquecimento global.

“É indiscutível que a influência humana aqueceu a atmosfera, o oceano e a terra”, disse o IPCC em seu relatório geral de ciência climática de 2021. “Em 2011-2020, a área média anual de gelo marinho do Ártico alcançou seu nível mais baixo desde, pelo menos, 1850”.

Um estudo científico indicou que na literatura científica revisada por pares há um consenso de 99% de que a mudança climática causada pelo homem é real.

Lavergne acrescentou que outras partes do artigo em inglês usado como fonte continham alegações enganosas.

O texto observa que Heller disse em setembro de 2021 que o Oceano Ártico havia ganhado uma quantidade recorde de gelo marinho naquele mês e que no verão de 2021 “a extensão do mar Antártico estava bem acima da média”, uma aparente referência ao gelo marinho.

“A afirmação sobre setembro de 2021 também parece imprecisa”, disse Lavergne. De acordo com dados da Eumetsat, a extensão do gelo marinho do Ártico em setembro de 2021 foi a 12ª mais baixa desde que os registros começaram em 1979, conforme mostrado neste gráfico.

Quanto ao Oceano Antártico, “o gelo marinho não se reduz a longo prazo da mesma forma na cobertura de gelo marinho como no Ártico”, continuou Lavergne. De fato, houve um período de [aproximadamente] 12 meses com uma extensão maior que a média [...] mas dos últimos oito meses até agora há menos gelo marinho em média”, acrescentou, citando o gráfico.

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