Pugilista e treinador faz dissertação sobre boxe em mestrado na USP: “Senti preconceito de ambos os lados"

Breno Macedo nos ringues e na USP (Arquivo Pessoal)

Por Gabriel Leão

Breno Macedo, 31, oriundo de Rio Claro, no interior de São Paulo, galgou seu espaço no pugilismo como atleta amador, treinador e líder de projeto social, no segundo semestre do ano passado obteve o título de Mestre em História pela Universidade de São Paulo (USP) com a dissertação “Sangue, Suor e Lágrimas: o boxe em São Paulo de 1928 a 1953” (2019), a primeira no país a tratar da história da nobre arte em São Paulo, sendo assim um nome relevante na discussão de história de boxe no país.

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Reconhecido pelo trabalho adiante do Boxe Autônomo em São Paulo, em entrevista exclusiva ao Yahoo Esportes, Macedo fala das relações entre ringue e sala de aulas, preconceitos, cultura e literatura esportiva no Brasil e a necessidade de romper paradigmas.

Yahoo Esportes: O que o motivou a pesquisar no meio acadêmico a história do pugilismo nacional? 

Breno Macedo: Minha maior motivação foi o amor e o envolvimento que tenho com este esporte, que apesar de ser muito popular é pouco, ou nada, estudado pela universidade brasileira. Quando iniciei minha graduação em História eu ainda era atleta, cheguei a ser campeão paulista peso médio, e, pouco a pouco fui vislumbrando a possibilidade de unir estas minhas duas paixões: História e Boxe. 

Por que há tão poucos livros e material jornalístico sobre boxe produzidos no Brasil? Como isto afeta o desenvolvimento da modalidade? 

Creio que poucos autores se dedicam a estudar ou escrever sobre o boxe devido à uma falta de cultura esportiva no Brasil aliada à não-conservação da memória. A falta de literatura sobre o boxe faz com que as histórias deste esporte fiquem concentradas em poucas pessoas. 

Um dos estereótipos que perseguem boxeadores é de ser uma figura sem cultura, pouco polida e dada a ataques agressivos. Em algum momento sofreu preconceito por este tipo de imagem? 

Sim, pude sentir preconceito de ambos os lados. Na universidade recebi alguns olhares e comentários jocosos devido ao meu envolvimento com o boxe, esporte tido por muitos como de brutamontes. Já no mundo do boxe cansei de ouvir comentários preconceituosos também, já que achavam que por eu estudar na USP eu seria um 'playboyzinho' ou algo do tipo. Mas sempre soube me esquivar bem dessas situações, contragolpeando com eficiência... (risos). 

Qual foi a reação de seus colegas acadêmicos ao saberem de seu passado como pugilista? 

A surpresa que causava nas pessoas o fato de eu ter sido um boxeador era sempre aliada a um respeito grande. As pessoas viam que o boxe para mim era mais do que um simples objeto de estudo, mas sim uma parte importante da minha vida, ao ponto de eu ter dado meu sangue em cima do ringue. 

O que pode ser feito para mudar tal imagem? 

A imagem do boxeador ignorante e violento já está ultrapassada. Educação e respeito às diversidades é o caminho para deixar este estigma pra trás e estamos caminhando bem nesta direção. 

Ter subido nos ringues como atleta e ter se tornado técnico da modalidade de alguma forma influenciou sua pesquisa? 

Influenciou completamente. Desde a minha motivação inicial até eu me colocar no lugar daquelas pessoas, que há quase cem anos atrás desenvolviam a mesma função que desenvolvo atualmente: treinadores, dirigentes, divulgadores da modalidade. Minha experiência empírica no boxe abriu muito meus horizontes e pautaram meu olhar como historiador. 

O boxe brasileiro passa por um bom momento tendo um novo campeão mundial, Patrick Teixeira, e atletas amadores de nível internacional. O que a história ensina para que se aproveite esta fase para atrair o grande público e patrocinadores e não voltar a ser um esporte de momentos dependente de uma ou duas figuras? 

Devemos manter uma regularidade de competições, com um calendário ativo no boxe olímpico e programas constantes de boxe profissional. Atualmente temos bons empresários fazendo este papel, promovendo bons eventos constantemente. A Confederação vem fazendo um excelente trabalho com a equipe olímpica, mas não deve deixar de olhar para a base para fomentar novos atletas. 

O ex-pugilista Floyd Mayweather foi apontado como o atleta mais bem pago da década mesmo tendo se aposentado em 2017, por outro lado a modalidade está muito associada às camadas mais pobres da sociedade. O que causa esse abismo e por que parece ser tão comum ao boxe? 

Esse abismo na verdade é um reflexo da nossa sociedade capitalista e desigual. Um relatório da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) recentemente apontou que metade dos jogadores de futebol no Brasil ganham menos que um salário mínimo, e que 80% dos jogadores ganham até 5 mil reais. Uma parcela muito pequena fatura milhões e milhões, replicando o mesmo retrato da nossa sociedade: muito para poucos e nada para muitos. Não é um problema só do boxe, mas sim da sociedade capitalista. 

A USP é a principal universidade da América Latina. O que significa para você ter se formado mestre por esta instituição e ter levado este tema com o qual lida desde sua infância? 

Para mim é motivo de grande honra, orgulho e responsabilidade. Por ser o primeiro ex-boxeador a estudar o boxe academicamente no Brasil, me senti na obrigação de produzir um estudo com a grandeza que o boxe merece. Me senti honrado por trazer à luz personagens que estavam esquecidos. E me sinto orgulhoso pela minha trajetória pessoal, estudante de escola pública, boxeador amador que viveu as dores deste esporte e que chegou ao ápice da Universidade Brasileira. Este mestrado foi uma conquista individual e coletiva inestimável, pois represento a comunidade pugilística da qual faço parte.

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