Puro brilho: um encontro entre Diogo Vilela, que vive Cauby, e Marcio Louzada, intérprete de Sidney Magal

Caracterizados no palco, eles parecem ter vindo no mesmo bonde. O GLOBO-Zona Sul promoveu o encontro entre o Cauby Peixoto vivido por Diogo Vilela no musical “Cauby uma paixão”, em cartaz no Teatro dos Quatro, no Shopping da Gávea, e o Sidney Magal interpretado por Marcio Louzada no espetáculo “Quero vê-la sorrir”, no Teatro Claro, em Copacabana. E o brilho, que sempre foi uma marca na carreira dos dois, saltou aos olhos. Cauby, que morreu em 2016, aos 85 anos; e Magal, que está com 71 anos e tem mais de 50 anos de carreira, sempre imprimiram um estilo extravagante e autêntico, a despeito de olhares preconceituosos. Para Diogo, a força de Cauby era maior do que seu 1,90m.

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— Ele sofreu muito, foi constrangidíssimo. Havia lugares em que ele era vaiado pelos ignorantes, pela maneira com que se apresentava, com aquelas roupas cheias de brilho, a peruca, porque ele foi perdendo cabelo. Criou um arquétipo dele próprio, e muitas pessoas gostaram — conta o ator, morador de Copacabana.

Louzada identifica o mesmo espírito de resistência em Magal, igualmente alto — tem 1,93m — e exuberante. O ator destaca que ele ditou moda em plena década de 1970, tão conservadora.

— Magal tem uma alma totalmente transgressora. Imagina o quanto esse cara, que rebolava daquele jeito, com figurinos bufantes, coloridos, extravagantes, deve ter sofrido. Ao mesmo tempo, tinha uma postura muito masculina e viril e conseguiu se impor — observa Louzada, que mora em São Paulo, mas está instalado em Copacabana para o espetáculo.

A história de ambos os personagens pode ser facilmente comparada à da cantora Anitta, que sempre peitou tudo e todos para defender suas posturas e convicções, e, recentemente, vítima de ataques de cantores sertanejos, acabou por escancarar os cachês astronômicos pagos a eles com verba pública de pequenos municípios. Diogo acredita, aliás, que Cauby foi a Anitta dos anos 1950:

— Ele também foi cantar no exterior e fez um filme em Hollywood (“Jamboree”), mas não se adaptou ali, voltou por saudade. Anitta saiu de Honório Gurgel e ganhou o mundo. Isso acontece toda hora nos Estados Unidos. Mas, no Brasil, é preciso pedir desculpas para brilhar. Eu a vejo no meio do furacão, e a maneira como se posiciona acaba com todo mundo. Eu a considero uma heroína, num país de ingratos que somos.

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Louzada também acredita que Magal é transgressor como a cantora e, “assim como ela, enfrentava todo mundo para ser quem ele era”:

— Admiro a ativista que ela é, rápida, inteligente. Alguém precisava botar um freio nisso; esses sertanejos demonizam as leis de incentivo, tão necessárias para a cultura. Eles nos tacham de vagabundos enquanto ganham milhões em municípios paupérrimos.

Não é só nas opiniões que Diogo e Louzada se identificam. Ambos se dedicaram com afinco para viver seus personagens. Diogo estudou por três anos antes de, em 2006, encenar “Cauby! Cauby!”, que deu origem a “Cauby uma paixão”.

— Tinha medo, apesar de meu professor de canto até hoje, Victor Prochet, dizer que eu tinha extensão para alcançar as notas dele. Ensaiei escondido até me sentir vocalmente pronto. O mais desafiador é que falo com uma voz e canto com outra, porque a voz dele era mais grave que a minha. Peguei os trejeitos vendo milhões de vídeos; ainda vejo. Acho que fica no inconsciente — conta Diogo.

Selecionado para o personagem em fevereiro, com o espetáculo com estreia agendada para maio, Louzada teve pouco mais de dois meses para se preparar. Mas a dedicação foi a mesma: ensaiou seis horas por dia, fora as aulas de canto lírico. E também assistiu a incontáveis vídeos do cantor:

— Sou muito estudioso. Vi praticamente tudo o que tem de registros, os clipes, os filmes (“Amante latino”, “Magal e os formigas”), para construir o cigano de araque que ele criou, como ele mesmo diz. A personalidade e a expressão do olhar dele são muito fortes; as mãos são outra marca registrada.

Tanta entrega valeu a pena. Magal ainda não viu a peça, mas assistiu a trechos por vídeo. E se diz muito honrado com o tributo:

—O Marcio Louzada está maravilhoso no papel, está fazendo um trabalho respeitoso, de dedicação. Sei do grande sucesso do espetáculo e fico muito feliz.

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Diogo conta que Cauby adorava o musical: o ator o remontou, inclusive, a pedido do próprio. E que até hoje sente a validação do cantor:

— Antes de entrar em cena, eu falo: “Vem, Cauby! Canta aí, meu querido”. Outro dia, estava em Vitória fazendo a peça e , no ensaio, ouvi a voz dele dentro de mim. Falei: “Será que estou maluco?”. Acho que fomos aprovados.

Prima de Cauby, a aposentada Magali Velasco diz que achou a homenagem maravilhosa:

—Diogo é um ator versátil, procura lá no fundo as características de Cauby, e o espetáculo cresce. E o público sai de lá duplamente satisfeito, pelo trabalho dele como ator e por matar a saudade de meu tio.

Desvendando as montagens

A transformação de Diogo Vilela em Cauby Peixoto dura ao menos 30 minutos: é o tempo que o ator leva para fazer a maquiagem, orientado pela caracterizadora Mona Magalhães: passa verniz para esconder a própria sobrancelha e risca a de Cauby, mais fina, com lápis de olho bem acima. Também passa base, sombra escura para tornar o rosto mais redondo, rímel, batom perolado e blush. Por último, põe a peruca e o figurino, que eram dele.

— A maquiagem de Cauby ficou cada vez mais de palhacinho. Não no sentido pejorativo, mas daquela pessoa do palco, dos bastidores, que parece que morava na coxia — observa Diogo.

No espetáculo, com roteiro de Flávio Marinho, direção de Marco Aurélio Monteiro e direção musical de Liliane Secco, o ator desfila sucessos como “Conceição”, “A pérola e o rubi”, “Molambo” e “Samba do avião”, em meio a curiosidades sobre Cauby.

— Ele foi achincalhado. As pessoas queriam dizer que ele era homossexual, mas ele não falava nada da vida pessoal porque o empresário (Edson di Veras, que criou para ele uma imagem de galã) não deixava — diz o ator.

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A caracterização de Marcio Louzada vai acontecendo aos poucos: o ator começa como Magal menino, vestido com uma calça e uma camisa simples, e vai trocando de roupa no palco, atrás de uma cortina translúcida.

— São mais de dez trocas. E deixei o cabelo crescer para ficar mais parecido com o de Magal — conta o ator, que participou de montagens como “Constellation” e “My fair lady”.

O musical, baseado na biografia escrita por Bruna Ramos da Fonte, tem roteiro e direção de Francisco Nery, direção de produção de Ernaldo Santini e direção musical de Nico Rezende. Louzada contracena com Izabella Bicalho, que vive a mãe do protagonista; interpreta músicas como “O meu sangue ferve por você” e “Sandra Rosa Madalena”; e passeia pela trajetória de Magal.

— O espetáculo começa com um grande ritual cigano, com uma fogueira e bailarinos dançando em volta. É um sonho que Magal tem com Sandra Rosa Madalena — adianta.

SERVIÇO

“Cauby uma paixão” Sextas, sábados e domingos, às 20h, no Teatro dos Quatro (Shopping da Gávea). Ingresso a R$ 100 (inteira). Até 31 de julho.

“Quero vê-la sorrir — O musical" Sextas e sábados, às 21h, e domingos, às 19h, no Teatro Claro, em Copacabana. Ingressos a partir de R$ 50 (inteira). Até 26 de junho.

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