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Putin é um "gangster" diz Mikhail Khodorkovsky o antigo homem mais rico da Rússia

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Os líderes dos principais países europeus ainda acreditam que é possível chegar a acordo com Putin. E isso é um erro dramático.

A UE, os EUA e o Reino Unido aplicaram sanções sem precedentes ao governo russo, ao setor energético, aos meios de comunicação social controlados pelo Kremlin, assim como a mais de 900 indivíduos, muitos dos quais oligarcas, ligados ao financiamento e ao funcionamento da guerra russa na Ucrânia. Um antigo oligarca, Mikhail Khodorkovsky, outrora o homem mais rico da Rússia e proprietário da Yukos Oil, diz que a queda de Putin é agora inevitável devido à agressão. Mikhail Khodorkovsky vive no exílio da Rússia. Foi preso durante dez anos por evasão fiscal, desvio de fundos e fraude por Putin. O seu encarceramento é visto como uma mensagem a outros oligarcas,  para se manterem afastados da política.

Shona Murray, euronews: Durante algum tempo, um tempo significativo na sua vida, conheceu bem Vladimir Putin. O que acha que ele está a pensar neste momento e até que ponto pode ir com esta guerra?

**Mikhail Khodorkovsky:**O que vejo hoje da sua parte é uma mistura de pragmatismo, ou seja, um desejo de reforçar a sua classificação eleitoral, e a emocionalidade - refiro-me a uma espécie de medo paranoico do que está a acontecer no país vizinho, medo das transformações democráticas, da independência que a Ucrânia ganhou.

**Shona Murray, euronews: **Mas, ao mesmo tempo, vimos as suas incursões em 2008 e a tomada da Crimeia em 2014. Acredita que são acontecimentos separados desta guerra ou que a guerra é agora desencadeada, como disse, pela COVID-19 e por outras questões? É isso que está a dizer?

**Mikhail Khodorkovsky:**Putin resolveu os seus problemas eleitorais através da guerra, quatro vezes durante a sua presidência. A primeira vez foi em 99. Depois foi em 2008, 2014 e agora 2022. O isolamento devido à COVID-19 ajudou-o a formar a ideia de que a Ucrânia não iria resistir, que não encontraria nenhuma resistência organizada e que talvez algumas cidades o recebessem com flores!

Shona Murray, euronews:  É o fracasso de Putin, diz . Mas será também o falhanço do Ocidente? Tendo em conta o que vimos sobre Vladimir Putin nas últimas duas décadas, vimo-lo tentar tomar conta da Crimeia, a sua interferência na Síria e por aí fora... O Ocidente foi ingénuo em relação ao que Putin acabaria por fazer?

Mikhail Khodorkovsky: Os líderes dos principais países europeus ainda acreditam que é possível chegar a acordo sobre algo com Putin sem demonstrações de força, ou seja - partindo de uma posição fraca, de acordo com Putin. E isto é um erro dramático, porque eles não estão a falar com um líder igual a eles - não - estão a falar com um gangster. E qualquer gangster que acredite ser forte e a quem está a ser pedido que faça algumas concessões, tentará de facto acabar com a sua vítima.

Shona Murray, euronews: Então, qual é a solução no seu entender? Obviamente, acredito que, neste momento, talvez Emmanuel Macron e outros estejam a aprender a não tentarem negociar com Putin. O que sugere que façam para pôr fim a esta situação?

Mikhail Khodorkovsky: Sabe, muito recentemente, provavelmente há um mês, fiquei surpreendido com o Sr. Borrell, ele é um funcionário europeu e nunca esperei quaisquer palavras duras da sua parte. Mas ele disse a coisa certa - este conflito será resolvido não à mesa das negociações, mas no campo de batalha. Mais tarde, é claro que haverá negociações e, no final, a guerra será interrompida com negociações. Mas a primeira solução será tomada logo no campo de batalha. Não há alternativa!

Shona Murray, euronews: E o que é que isso inclui? Será que se seguirá ao envolvimento oficial ou formal do NATO na Ucrânia? Pensa que é a única solução? Caso contrário, a guerra vai continuar ou alastrar. O que é que pensa?

Mikhail Khodorkovsky: Atualmente, a NATO tem uma grande oportunidade de ajudar a Ucrânia a defender a sua soberania, participando nesta guerra através do fornecimento de armas e treinando soldados ucranianos, em vez de lutar nos seus próprios territórios. Se esta oportunidade for perdida, lanço um aviso: dentro de alguns anos, ou talvez até mais cedo, a NATO estará diretamente envolvida nesta guerra, porque estará a decorrer no território de um dos países da organização. Aqueles que acreditam que se pode de alguma forma chegar a um acordo com o agressor, repetem os erros de muitos dos seus predecessores. Dezenas de milhões de europeus já pagaram estes erros com as suas vidas há cerca de 70 anos.

Shona Murray, euronews: Como avaliaria a situação em termos da forma como a NATO tem funcionado? Como é que os Estados membros da NATO têm atuado? Assistimos frequentemente a alguns conflitos na Alemanha sobre o envio de armas alemãs para a Ucrânia, inicialmente. Acha que é necessário intensificar significativamente os esforços ou estamos no bom caminho em termos de apoio militar à Ucrânia?

Mikhail Khodorkovsky: Estou convencido de que as sanções poderiam ter sido importantes em 2014. Agora, as sanções não conseguem travar a agressão, embora possam enfraquecer o regime para que esta agressão não se reproduza depois de algum tempo. Mas agora a questão está a ser resolvida no campo de batalha. Se a NATO quer que seja resolvida no território da Ucrânia, então, é claro, deveria fornecer um apoio muito mais sistemático. Faz-me rir ouvir alguns oficiais dizerem: "se acrescentarmos mais cinco, dez ou vinte armas à Ucrânia, poderá lutar no território da Rússia! Do que estão a falar? Atualmente, a artilharia do exército de Putin ultrapassa em 20 vezes a capacidade do exército ucraniano! 20 vezes! O domínio da aviação de Putin é absoluto.

Shona Murray, euronews: Apenas uma última questão, já disse antes que esta guerra levará ao desaparecimento de Vladimir Putin. E a própria guerra tocou-o pessoalmente devido à história da sua família na Ucrânia - a sua avó, o tempo que lá passou na infância. Se assistirmos ao fim da administração de Vladimir Putin, imagina-se regressar à Rússia como parte da reconstrução política ou como figura política?

Mikhail Khodorkovsky: Não sou um político por natureza. Sempre gostei de fazer negócios. E depois da prisão, onde passei 10 anos, prefiro e estou mais interessado em atividades sociais. Creio que a Rússia não deveria ter esta figura de um czar, que procura inerentemente um inimigo externo. É muito importante para a Rússia pós-Putin tornar-se um estado federal e construir um parlamento funcional que represente os interesses das regiões russas. Se nessa altura (ao construir o parlamento) precisarem do meu apoio como gestor, administrador com uma experiência de gestão relevante, é claro que tentarei ajudar o meu país. Se a geração mais jovem conseguir lidar com isto, ficarei muito feliz.

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