Putin admite posicionar armas nucleares na Belarus contra a Otan

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    Vladimir Putin
    Presidente da Rússia
*ARQUIVO* BRASILIA, DF,  BRASIL,  14-07-2014, 1O presidente russo, Vladimir Putinl, no Palácio do Planalto. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
*ARQUIVO* BRASILIA, DF, BRASIL, 14-07-2014, 1O presidente russo, Vladimir Putinl, no Palácio do Planalto. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O presidente Vladimir Putin admite posicionar armas nucleares na vizinha Belarus, às portas da União Europeia, se considerar que a segurança da Rússia está sob risco devido à ação da Otan na Ucrânia.

A carta nuclear foi sacada em jogada combinada com a ditadura de Aleksandr Lukachenko, e se encaixa no jogo de pressões desde que o líder russo emitiu um ultimato aos Estados Unidos e seus aliados europeus para tentar solucionar a crise com Kiev.

Nesta segunda, o chanceler belarusso, Vladimir Makei, havia dito que seu país estava pronto para receber armas nucleares russas caso houvesse uma ameaça da Otan. Seu chefe, Lukachenko, especificou que um caso para isso seria o posicionamento de mísseis com ogivas atômicas na vizinha Polônia.

Questionado sobre as hipóteses, o porta-voz de Putin, Dmitri Peskov, disse: "Não é segredo que o deslocamento de vários tipos de armas perto de nossas fronteiras, que podem apresentar um perigo para nós, claramente requer passos adequados para balancear a situação. Várias opções estão disponíveis."

Tudo isso é um jogo retórico, mas não é todo dia em que detentores de armas nucleares fazem ameaças tão pouco sutis.

Primeiro, não há indicação de que a Otan esteja planejando empregar mísseis de alcance intermediário com capacidade nuclear em qualquer ponto da Europa, apesar de os EUA terem deixado em 2019 o tratado que proibia isso explicitamente.

Segundo, as declarações se inserem numa construção narrativa do Kremlin acerca da atual crise, que começou quando Putin deslocou algo entre 100 mil e 110 mil soldados para áreas relativamente próximas das fronteiras ucranianas.

Quando fez algo semelhante em abril, visava conter a percebida movimentação de Kiev para tentar retomar as áreas sob controle de separatistas pró-Rússia, imersas numa guerra civil ora congelada desde 2014, quando buscaram independência após Putin anexar a Crimeia.

Só que a tomada da península, na esteira da derrubada do governo pró-Kremlin na Ucrânia, visava manter Kiev sob pressão e incapacitada de entrar oficialmente na Otan e na União Europeia, além de proteger a vital Frota do Mar Negro russa --baseada por leasing na principal cidade crimeia, Sebastopol.

Agora, contudo, Putin indica querer uma solução para a questão, o que no cânone das lideranças russas ao longo dos séculos não inclui permitir a tomada de áreas tampão por adversários. Ao colocar a carta militar explicitamente, fazendo os EUA e a Europa denunciarem o risco iminente de uma invasão que nega querer, o russo ganhou força na barganha.

Por ora, o Ocidente mantém a linha dura retórica, mas sempre em termos econômicos. Ninguém falou, por exemplo, em militarizar a Ucrânia --ainda que US$ 80 milhões em equipamentos americanos tenham sido fornecidos neste ano, além de drones de ataque turcos, o que irritou Putin.

Ao trazer essa possibilidade e retrucar com a palavra proibida, armas nucleares, os russos sobem o tom de um jogo já bastante delicado.

Só na terça passada (14), por exemplo, metade da frota do mais sofisticado avião de coleta de inteligência americano, o RC-135V/W River Joint, mordiscou áreas em torno da Rússia nos mares Negro e Báltico.

Um eventual entrechoque numa interceptação pode levar a uma escalada indesejada, embora, claro, ninguém esteja falando em uso de armas nucleares.

O ultimato dado pela Rússia é inexequível. Em resumo, ele pede que a Otan retire forças de países que absorveu depois de 1997, ou seja, países dos blocos ex-comunista e ex-soviético como Polônia, Romênia, Lituânia e outros.

Além disso, exige que a aliança militar ocidental não admita mais nenhum antigo Estado associado à União Soviética, nominalmente Ucrânia, Geórgia e Moldova. Isso coloca às claras sua intenção estratégica de ter áreas neutras ou aliadas separando russos de ocidentais.

Na Belarus, isso acontece pelo sequestro final da ditadura, que sempre foi uma aliada difícil de controlar. Mas os enormes protestos contra a eleição fraudada por Lukachenko em 2020, seguidos por uma violenta repressão denunciada no exterior, enfraqueceram o líder belarusso.

A Rússia intensificou a presença militar no país, que efetivamente virou uma extensão de suas forças. Desde a crise entre Minsk e Varsóvia sobre o influxo forçado de migrantes ilegais, Moscou tem patrulhado os céus belarussos com bombardeiros estratégicos. Agora, Lukachenko devolve o favor com sua proposta nuclear.

Por fim, o ultimato russo pede um comprometimento mútuo de não instalar os tais mísseis banidos pelo acordo de 1987 que foi jogado no lixo por Donald Trump.

Apenas o último item pode gerar algum tipo de negociação, e ainda assim os líderes da Otan estão reticentes em admitir isso.

A questão dos mísseis enerva Moscou porque o eventual posicionamento de armas do tipo no Leste Europeu colocaria a capital a talvez quatro minutos de uma detonação nuclear. As grandes armas intercontinentais levam meia hora para cair na Rússia, com tempo para retaliações e tentativas de interceptação.

Por outro lado, os próprios russos têm seus mísseis do tipo instalados na Crimeia e Kaliningrado, o que deixa todas as capitais até Berlim sob sua mira. Para as outras e para os EUA, têm mísseis de maior alcance.

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