Putin apoia ditador que desviou avião de olho em união com a Belarus

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*ARQUIVO* BRASILIA, DF,  BRASIL,  14-07-2014 - Presidente Vladimir Putin. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
*ARQUIVO* BRASILIA, DF, BRASIL, 14-07-2014 - Presidente Vladimir Putin. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Após passar a semana tentando manter distância do escândalo internacional causado pelo desvio do voo de um blogueiro opositor do regime de Aleksandr Lukachenko na Belarus, o presidente Vladimir Putin apoiou o aliado nesta sexta (28).

A motivação foi deixada clara pelo próprio presidente russo, ao falar com repórteres antes do começo do encontro fechado. "Estamos construindo o Estado da União", disse, ressaltando "passos concretos" nesse sentido.

Ambos se encontraram em Sochi, balneário favorito de Putin, no mar Negro. Putin criticou o Ocidente pela "explosão de emoções" em torno da ação de Lukachenko, que mandou um caça interceptar e desviar o voo em que estava o blogueiro Roman Protasevitch e sua namorada, no domingo (23).

Uma desculpa esfarrapada de risco de atentado a bomba no voo foi dada, e a dupla a bordo foi presa. O avião da empresa irlandesa Ryanair ia da Grécia à Lituânia, onde o opositor mora.

A União Europeia decretou novas sanções contra a ditadura belarussa, que vem sendo chacoalhada por protestos desde que Lukachenko alegadamente roubou mais uma eleição, em agosto do ano passado.

No poder desde 1994, ele é um aliado difícil, mas vital, para Putin. Seu enfraquecimento tem sido visto em Moscou como uma antessala à realização de um antigo sonho do russo, a criação do chamado Estado da União entre os dois países.

O Estado, entidade supranacional criada quando Putin era premiê em 1999, tecnicamente aproxima os dois países --que dividem raízes culturais e linguísticas, foram parte da União Soviética e são parceiros próximos.

Putin lembrou de um episódio de 2013, quando o então presidente boliviano Evo Morales teve de pousar na Áustria porque vários países europeus negaram trânsito em seu espaço aéreo a seu avião por suspeitar que ele transportava de Moscou para La Paz o delator Edward Snowden.

"O presidente foi retirado de seu avião e nada, silêncio", disse Putin. Na realidade, países como a França se desculparam com Evo posteriormente. "Há a intenção de perturbar o país", afirmou Putin, dizendo que "é claro o que esses amigos ocidentais querem de nós".

Analistas próximos do Kremlin preveem passos radicais à frente. "Esperamos o reconhecimento da Crimeia como parte da Rússia, um nível novo do Estado da União, moeda única, formação de governo único", disse por mensagem Serguei Markov, que nos anos 2000 assessorou Putin.

Ele nega que seu ex-chefe vá pressionar Lukachenko de "forma abusiva", mas acredita que o belarusso deverá ceder.

Até aqui, o ditador nunca topou os termos de Putin, temendo perder seu próprio poder e o cacife que tem por sua posição estratégica. Belarus é um anteparo entre a Rússia e o Ocidente, como a Ucrânia --mas desde 2014 o governo em Kiev é hostil a Moscou.

Isso levou Putin anexar a Crimeia e a fomentar guerra civil no leste do país, impedindo sua absorção pelas estruturas de poder europeias, em especial a Otan (aliança militar). Lukachenko, significativamente, nunca reconheceu oficialmente a península como russa.

Os protestos de rua a partir de agosto do ano passado mudaram a situação. Lukachenko apoiou-se nas ofertas de suporte militar de Putin e ambos os países intensificaram suas manobras conjuntas, alarmando o Ocidente.

O ditador recrudesceu sua repressão em um momento em que Putin fez o mesmo na Rússia, com a prisão do opositor Alexei Navalni e o combate a renovados protestos de rua no país. De quebra, movimentações de tropas junto à Ucrânia levaram a uma crise com a Otan no mês passado.

Há também a questão energética, com 1/4 do petróleo russo destinado à Europa passando por ele. Os europeus consomem 30% do produto com origem russa. Já 1/5 do gás natural, que chega a 40% do mercado a oeste, transita pelas terras de Lukachenko.

Por fim, não é desprezível a proximidade da elite belarussa do vizinho ao leste, o que deixa sempre à mão a possibilidade de criação de um aliado alternativo dentro do sistema político para o russo.

A crise da prisão de Protasevitch, ousada mesmo para os padrões belarussos, não parece ter agradado a Putin. Houve manifestações contidas do Kremlin ao longo da semana, colocando Lukachenko na situação de ter de render homenagens ao patrono pessoalmente.

Nesta sexta, o Kremlin negou que estivesse impedindo a chegada de voos europeus, que agora se recusam a sobrevoar a Belarus. Duas chegadas, da Air France e da Austrian Airlines, acabaram canceladas.

"Foram questões técnicas" devido à mudança de rota, disse o porta-voz Dmitri Peskov. "Não precisamos de problemas adicionais, já temos os nossos."

A Europa tenta reagir, mas seu espaço de manobra é curto. Também nesta sexta, a Comissão Europeia enviou mensagem à opositora Svetlana Tikhanovskaia, que após perder a eleição para Lukachenko se refugiou na Lituânia, prometendo EUR 3 bilhões (R$ 19,1 bilhões) em ajuda caso a Belarus volte a ser uma democracia.

"Nenhuma quantidade de repressão, brutalidade ou coerção vai trazer legitimidade para o regime autoritário", afirmou. Resta agora combinar com o ditador.