Ataque químico na Síria aumenta divisão entre países no Conselho de Segurança

Mario Villar.

Nações Unidas, 5 abr (EFE).- O suposto ataque químico cometido no norte da Síria não fez mais que aprofundar nesta quarta-feira a divisão que os cinco países com poder do veto do Conselho de Segurança da ONU mostraram desde o início da guerra na nação árabe.

De um lado, Estados Unidos, França e Reino Unido, do outro, Rússia e, em menor medida, China. Os membros permanentes do Conselho voltaram a trocar acusações e, até agora, foram incapazes de levar adiante um simples texto de condenação do ocorrido na cidade síria de Khan Sheikhoun.

Ali, segundo a ONU, pelo menos 70 pessoas morreram e mais de 200 ficaram feridas em um ataque do qual a oposição síria e o regime se acusam mutuamente.

Organizações como a Médicos Sem Fronteiras (MSF) afirmaram que as vítimas apresentavam sintomas similares aos causados por um agente neurotóxico como o gás sarin.

Os países do Ocidente acusaram diretamente o regime de Bashar al Assad como responsável e consideram que o ataque é mais uma demonstração de sua "barbárie".

Também criticaram muito a Rússia por proteger Assad nas Nações Unidas e, concretamente, por rejeitar hoje uma resolução que foi proposta para condenar o ocorrido em Khan Sheikhoun.

"Quantas crianças mais têm que morrer para que a Rússia se importe?", questionou a embaixadora americana Nikki Haley, que acusou Moscou de utilizar uma "falsa narrativa" para blindar seus aliados em Damasco diante de possíveis sanções.

Durante sua intervenção, Haley ficou de pé para mostrar aos outros diplomatas fotografias de algumas das vítimas do suposto ataque químico.

"Não podemos fechar nossos olhos para estas imagens. Não podemos fechar nossas mentes para nossa responsabilidade de agir", afirmou a embaixadora americana.

Diante do bloqueio existente no Conselho de Segurança, Haley foi além e sugeriu que seu país poderia tomar algum tipo de medida unilateral, sem dar mais detalhes.

França e Reino Unido insistiram também que a Rússia deve permitir a ação do Conselho de Segurança diante do uso de armas químicas na Síria.

"Não há nenhuma aliança política que possa justificar fechar os olhos para enormes atrocidades", disse o embaixador francês, François Delattre.

Seu colega britânico, Matthew Rycroft, insistiu que os vetos russos no Conselho só servem para encorajar o regime sírio a continuar matando e defendeu que o texto porposto por seu país, França e EUA sobre o ataque químico é aceitável para qualquer Estado.

A minuta não cita nenhum responsável e se limita a condenar o ataque, a pedir uma investigação internacional urgente e cooperação às autoridades sírias, e que as portas fiquem abertas para eventuais medidas contra quem for considerado culpado.

A Rússia, no entanto, deixou claro desde o primeiro momento que considerava o texto "categoricamente inaceitável" e defendeu que qualquer decisão deve ser tomada após uma investigação "completa".

Ao término da reunião do Conselho de Segurança, os países seguiam discutindo de maneira informal a minuta e, diante das reservas russas, nenhuma votação foi colocada na agenda.

O representante russo, Vladimir Safronkov, insistiu que tudo o que há, por enquanto, são "relatórios falsos" e reiterou algumas informações fornecidas por Moscou, segundo as quais a aviação síria teria bombardeado um armazém onde o grupo terrorista Organização para a Libertação do Levante, o antigo braço da Al Qaeda na Síria, estaria fabricando munição para "armas tóxicas".

A troca de acusações desencadeada pelo suposto ataque químico acontece enquanto as Nações Unidas tentam fazer com que governo e oposição avancem nas negociações de paz para a Síria em Genebra, na Suíça.

O Kremlin disse hoje que as iniciativas ocidentais no Conselho procuram "dificultar" esses progressos, enquanto os Estados Unidos acusaram Assad, Rússia e Irã de "não terem interesse na paz".

Nos últimos dias, os EUA tinham indicado que a saída do presidente sírio não era mais uma de suas prioridades, que se concentram em combater o Estado Islâmico (EI). Mas hoje, o presidente Donald Trump assegurou que sua atitude em relação a Assad "mudou" por causa do ataque químico.

A França e o Reino Unido reiteraram o tempo todo que tudo passa por uma "transição política" na Síria e insistiram hoje que o uso de armas químicas demonstra mais uma vez que Assad tem que sair. EFE