Putin evita escalada na Guerra da Ucrânia durante parada militar do Dia da Vitória

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***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 14.11.2019 - O presidente russo, Vladimir Putin, durante reunião do Brics, no Palácio do Itamaraty, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 14.11.2019 - O presidente russo, Vladimir Putin, durante reunião do Brics, no Palácio do Itamaraty, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Após muita antecipação e a expectativa de que faria um anúncio de grande impacto sobre a Guerra da Ucrânia, Vladimir Putin entregou um discurso convencional para celebrar o 77º aniversário da vitória sobre a Alemanha nazista, na manhã desta segunda-feira (9), em Moscou.

Evocou o passado e associou o governo em Kiev ao nazismo, mas não anunciou mobilização nacional ou declarou guerra à Ucrânia, muito menos à Otan, aliança militar ocidental que está fornecendo o grosso das armas usadas contra a Rússia. Também não houve triunfalismo sobre vitórias inexistentes até aqui.

"Vocês estão lutando pela pátria mãe, pelo seu futuro, então não esqueçam as lições da Grande Guerra Patriótica. Não há lugar no mundo para carrascos, justiceiros e nazistas", disse Putin, referindo-se ao nome russo aos anos do conflito mundial travados pela União Soviética —iniciado em 1939 na Europa, ele chegou dois anos depois ao país então liderado por Josef Stálin, que até ali era aliado de Adolf Hitler.

"Vocês estão lutando pela mesma coisa que seus pais e avós lutaram", disse. Putin falou por 11 minutos, a partir das 10h15 (4h15 em Brasília), um pouco mais cedo do que o previsto e com duração algo maior do que em outros anos. Foi saudado por tiros de canhão junto à muralha do Kremlin, no ritualizado desfile.

Neste ano, a cerimônia foi um pouco menor do que no ano passado, com 11 mil militares ante 12 mil em 2021, e houve um anticlímax que pode ter um sentido político de distensão. Um mau tempo não perceptível foi usado como justificativa para o cancelamento da parada aérea que se destinaria a provocar o Ocidente com uma grande exibição de aviões com capacidade nuclear e a aeronave "do Juízo Final", na qual Putin embarcaria em caso de uma guerra atômica.

Outro ponto notado foi a ausência aparente do general Valeri Gerasimov, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas russas, aumentando assim o rumor de que ele foi ferido durante uma visita de surpresa às linhas de frente na Ucrânia. Não houve comentários do Kremlin ainda.

O mais próximo que o presidente russo chegou de citar os temores de uma Terceira Guerra Mundial, que têm acompanhado o desenvolvimento de um conflito perto das fronteiras da Otan, foi dizer a obviedade de que "devemos evitar os horrores de uma nova guerra mundial".

Apesar da falta do simbolismo nos ares, no solo houve a tradicional rolagem de grandes mísseis intercontinentais com capacidade nuclear, ao lado de blindados, tanques, sistemas antiáereos e a tropa.

Assim, o Kremlin manteve a promessa de que nada muito fora do normal seria anunciado nesta segunda. Nem a conquista de Mariupol, onde apenas um bolsão de resistência numa siderúrgica separa a Rússia do controle total de toda a faixa ligando o Donbass (leste russófono) e a Crimeia anexada em 2014, foi citada —na cidade, aliás, separatistas pró-Rússia marcharam nesta segunda.

A primeira fase da guerra de Putin fracassou, com um ataque em diversas frentes incongruentes e com pouca força sendo repelido até a retirada, no mês passado. O russo obviamente não citou isso, mas lembrou que "a morte de cada um de nossos soldados e oficiais é um luto para nós e uma perda irreparável". Agora, a invasão está focada no Donbass e no sul do país.

Na comunidade militar russa, há grande pressão por uma escalada com mais recursos humanos para a guerra, que, tratada legalmente por Putin como "operação militar especial", não tem poderes de mobilização total, com uso de conscritos e reservistas. Claro, em outras ocasiões, Putin tripudiou sobre as expectativas ocidentais, como quando fez piada sobre a invasão em 16 de fevereiro. A data havia sido citada pelos EUA, mas no dia o russo recebia Jair Bolsonaro, só para fazer a guerra na semana seguinte.

Putin repetiu, com pouca variação, o que vem falando desde o começo do conflito no vizinho, há 75 dias. "Vocês estão lutando por nosso povo no Donbass, pela segurança da Rússia", disse. O reconhecimento das duas autoproclamadas repúblicas da região, na prática autônomas desde a guerra civil iniciada em 2014, foi o prelúdio da guerra e uma de suas razões.

Outro motivo alegado, que fora objeto de um ultimato ao Ocidente em dezembro, havia sido impedir a adesão da Ucrânia à Otan, trazendo forças inimigas para sua maior fronteira a oeste. Voltou a dizer que a culpa pela guerra reside no que vê como conluio ocidental com Kiev e que "não teve opção".

"Os países da Otan não quiseram nos ouvir. Eles tinham planos diferentes, e nós vimos isso. Eles estavam planejando uma invasão das nossas terras históricas, incluindo a Crimeia. A Rússia rejeitou preventivamente a agressão, foi uma decisão forçada, oportuna e correta", disse o presidente russo.

Aí ele emulou a visão militar russa de que um ataque ucraniano seria inevitável —Zelenski chegou a concentrar tropas perto do Donbass no começo de 2021.

Ao mesmo tempo, não elevou demais a retórica e agradeceu aos Aliados por seu papel na guerra, que puniu os soviéticos mais agudamente. O país extinto em 1991, do qual a Rússia é a herdeira legal, perdeu 27 milhões de cidadãos na guerra, 40% do total estimado de todo o conflito.

Repetiu o discurso de que os ucranianos buscariam ter armas nucleares, o que foi a leitura de uma fala do presidente Volodimir Zelenski comentando o fato de que Kiev entregou seu arsenal remanescente da ruptura da União Soviética a Moscou em 1994.

"Tudo indicou que um embate com os neonazistas, com os Banderas [simpatizantes de Stepan Bandera, líder fascista ucraniano do século 20], apoiados pelos EUA e seus parceiros menores, era inevitável."

Zelenski criticou a fala e disse que o rival "não pode se apropriar" da vitória de 1945. O russo está fazendo "uma sangrenta encenação do nazismo", disse. Já o secretário de Defesa do Reino Unido, Ben Wallace, disse que Putin "desonra o passado militar da Rússia".

O Dia da Vitória é o mais sagrado do ano cívico da Rússia de Putin. A celebração da vitória soviética é associada pelo Kremlin ao renascimento político do país após os anos de caos da década de 1990, quando a dissolução de 1991 legou crise permanente e o empobrecimento russos.

Montado no ciclo de valorização das commodities, já que a Rússia é grande produtora de gás e petróleo, Putin logrou melhorar as condições gerais de vida no país, às custas de uma ossificação do sistema político. Com a exceção dos períodos em foi premiê em 1999 e voltou ao cargo para mandar no governo do protegido Dmitri Medvedev (2008-2012), ele é o presidente do país desde o Ano-Novo de 2000.

O desfile, ainda que fraco em termos noticiosos, repetiu a elaboração de todos os anos. O ministro da Defesa, Serguei Choigu, e o chefe das Forças Terrestres, Oleg Saliukov, desfilaram em carros abertos e escoltaram Putin a pé pela praça Vermelha, passando a tropa em revista a depois homenageando o Túmulo do Soldado Desconhecido, no jardim lateral do Kremlin.

Curiosamente, o "Z", letra latina que virou símbolo da invasão ao ser pintada em blindados e helicópteros usados na Ucrânia, esteve largamente ausente do desfile. No desfile aéreo previsto, caças formariam a letra no céu. Putin usava na lapela do sobretudo a tradicional fita de São Jorge, laranja e preta, antigo símbolo militar russo.

Se os aviões não sobrevoaram a praça Vermelha, continuaram ativos nos céus ucranianos, onde a ofensiva russa segue nesta segunda-feira. Houve ataques com mísseis em Odessa, grande porto no sudoeste do país e porta de saída da Ucrânia para o mar Negro.

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