Putin tenta ditar paz em seus termos após anexar parte da Ucrânia

***FOTO DE ARQUIVO*** BRASÍLIA, DF, 14.11.2019 - O presidente da Rússia, Vladimir Putin. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***FOTO DE ARQUIVO*** BRASÍLIA, DF, 14.11.2019 - O presidente da Rússia, Vladimir Putin. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O presidente da Rússia, Vladimir Putin, formalizou nesta sexta (30) a anexação de quatro regiões da Ucrânia que controla total ou parcialmente desde que invadiu o país vizinho, em 24 de fevereiro. Considerando isso um fato consumado, disse que está aberto para negociar a paz em seus termos, desde que Kiev aceite um cessar-fogo unilateral.

Em um discurso para membros da elite russa no pomposo salão São Jorge, no Grande Palácio do Kremlin, o presidente voltou a insinuar o uso de armas nucleares para defender suas novas possessões. "Usaremos todos os meios necessários", afirmou, enquanto repassou seu discurso tradicional em que pinta a Rússia como vítima de uma conspiração ocidental.

Com efeito, o império comunista finado em 1991 esteve no centro da fala. Putin voltou a lamentar os efeitos de sua dissolução. "Não há mais União Soviética, não podemos voltar ao passado", disse, enquanto anunciava "quatro novas regiões russas".

E culpou o Ocidente pela guerra, já que "buscou expandir a Otan para o leste" e "quebrou acordos de controle de mísseis [nucleares]", verdades pelo valor de face, mas direcionadas para o contexto pretendido pelo russo.

Putin disse que "o Ocidente quer nos enfraquecer" e que os Estados Unidos travam uma "guerra híbrida", sugerindo precedente para o uso da força atômica. Chamando as regiões pelo nome nacionalista de Nova Rússia, ele disse que "não vamos discutir" mais o status, mas convidou Kiev a baixar armas e voltar à mesa de negociação. "Estamos preparados para isso", afirmou.

No Telegram, a Presidência da Ucrânia disse que não daria ouvidos a Putin. A anexação ocorre no pior momento do russo no conflito, e após ele ter se consultado com o aliado Xi Jinping enquanto enfrenta crises subjacentes na antiga periferia soviética, que considera seu quintal: conflitos renovados entre Armênia e Azerbaijão e as escaramuças entre Tadjiquistão e Quirguistão.

Na presença dos líderes separatistas por ele indicados, o presidente assinou quatro decretos separados de anexação, após completar o lustre burocrático e legalista que sempre dá a atos de seu governo, sejam eles legítimos ou contestados. As quatro áreas, cerca de 15% da Ucrânia, fizeram às pressas referendos pedindo a adesão, vistos como farsas.

Na noite de quinta (29), reconheceu formalmente as regiões de Kherson e Zaporíjia, no sul ucraniano, como Estados independentes. Ele havia feito o mesmo às vésperas da invasão de fevereiro com as autoproclamadas repúblicas populares de Lugansk e Donetsk, que compõem o Donbass (bacia do rio Don, o leste russófono no centro do conflito).

Diferentemente daquelas, as novas regiões não estavam nas mãos, ainda que parcialmente, de separatistas pró-Rússia. O Donbass estava dividido desde 2014, quando começou a guerra civil que seguiu a anexação russa da Crimeia, primeira etapa do projeto de Putin de evitar que a Ucrânia caísse na esfera ocidental --seu aliado Viktor Ianukovitch havia sido derrubado em Kiev.

Agora, a Federação Russa ganha mais quatro membros, elevando para 89 o número de entes federais sob o comando de Moscou. Eles somavam, antes da guerra, mais de 7 milhões de habitantes, mas é impossível saber quantos deles serão incorporados aos 146 milhões de russos. Contando a Crimeia, no papel Putin absorveu 22% do vizinho.

Arte HTML5/Folhagráfico/AFP https://arte.folha.uol.com.br/mundo/2022/09/29/mapa-guerra/ *** Não haverá reconhecimento da ONU ou da comunidade internacional, e Putin não liga: a Crimeia também só teve sua anexação validada por seis países laterais e aliados do Kremlin (Cuba, Venezuela, Síria, Coreia do Norte, Afeganistão e Nicarágua) e três encraves pró-Rússia (Abkházia e Ossétia do Sul, na Geórgia, e Nagorno-Karabakh, no Azerbaijão).

O presidente Volodimir Zelenski já disse que continuará sua luta até reconquistar todo o território ucraniano, o secretário-geral da ONU, António Guterres, chamou a anexação de ilegal e líderes ocidentais, o americano Joe Biden à frente, a denunciou como criminosa.

Diferentemente da Crimeia, conquistada sem um tiro após um referendo apoiado por tropas russas infiltradas, contudo, o movimento de agora se dá em meio a uma guerra que ameaça se espalhar pelos vizinhos. A posição militar de Kiev é outra também, com bilhões de dólares em equipamento ocidental e melhor treinamento e experiência.

Exemplo disso é o cerco que se forma em Liman, cidade de Donetsk que está sob ataque ucraniano desde que Zelenski recuperou quase a totalidade de Kharkiv, no nordeste do país, no começo deste mês. A administração russa na região fala em "semi envelopamento" das forças do Kremlin lá, o que parece dar margem ou a um recuo vergonhoso ou a uma batalha suicida.

É a famosa água no chope na festa de Putin, que incluiu uma praça Vermelha cheia de cidadãos para ver em telões o presidente formalizar seu ato imperial. Segundo a Folha ouviu de moscovitas, funcionários de hospitais e repartições públicas foram convocados a comparecer e levados de ônibus ao evento, que contou com show de música.

O caso de Liman lembra que Putin promove a maior anexação à força na Europa desde que Adolf Hitler marchou sobre o continente e o perdeu depois, na Segunda Guerra Mundial, mas não tem total controle sobre suas novas terras. Em Donetsk, principalmente, os russos comandam cerca de 60% do território.

Segundo relatos, o clima é de apatia na capital russa. Um funcionário de banco de investimento conta que, até a guerra, um russo médio teria dificuldade de apontar Zaporíjia no mapa e que a fama do Donbass era semelhante à da americana Detroit: um antigo centro industrial em decadência. O Kremlin já banca quase R$ 8 bilhões anuais para manter o governo da Crimeia, e terá de desembolsar bem mais agora.

O resto é o jogo desenhado desde o anúncio das anexações, que veio após as derrotas em campo de setembro. Putin agora ameaça usar armas nucleares contra quem invadir o que considera parte da Rússia e prossegue com sua impopular mobilização de 300 mil reservistas, que visa garantir pessoal para manter seu esforço de guerra.

A ação pode também abrir caminho para que o Kremlin decida pelo fim da guerra em termos que considera satisfatórios, já que o admitido objetivo de derrubar Zelenski fracassou na aurora do conflito justamente por táticas falhas e falta de soldados.

Como Putin em si sempre falou em termos genéricos sobre as metas, aquela que seu porta-voz revelou na semana passada (conquistar ao menos Donetsk) pode ser a linha de corte.

Ou não, como temem os vizinhos da Ucrânia, preocupados com a eficácia do aumento da pressão de Putin sobre as maiores economias europeias, por meio do fechamento das torneiras de gás russo durante o inverno no continente e, agora, com o nebuloso ataque aos megagasodutos russos no mar Báltico.