Quadra da Grande Rio enlouquece com primeiro título da história

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A quadra da Acadêmicos da Grande Rio soltou o grito de "é campeão" que estava preso há mais de 30 anos na garganta. Foi sua vez de subir ao alto do pódio, pela primeira vez, depois de um título de vice engasgado por um desempate contra a Viradouro no último Carnaval, em 2020.

Duque de Caxias, cidade da região metropolitana do Rio, está em festa desde as 16h, quando grupos já se acotovelavam nos botecos das esquinas da cidade para ouvir o "nota: dez" em todos os nove quesitos. Terminou com 269,9 de 270, com desconto apenas no samba-enredo.

A cada nova nota, o volume do grito subia no galpão que abriga a torcida. E a temperatura também. O suor se misturava com cerveja, distribuída de graça a quem pulava, sambava ou chorava em cima do palco.

As 150 mil latinhas já gelavam há horas, porque a escola sentia que seria campeã. "Eu sabia, o desfile foi perfeito", diz o comerciante Paulo Leite, 26, que espera o título desde que nasceu na cidade. "Para mim, isso aqui é igual a um título do Flamengo", compara.

"É o auge", grita ao pular em cima de uma caixa o diretor de harmonia André Sá, o Andrezinho, dando um beijo na testa da repórter depois de ser levantado nos ombros dos amigos. Ele foi o responsável por fazer a escola acertar o passo, sem correr nem atrasar na avenida.

"É o reencontro com o povo da rua, e de rua, que leva a Grande Rio ao pódio pela primeira vez no Grupo Especial", analisa o guia de turismo Well Rodrigues, 28, que costuma estudar a história do Carnaval. "Minha vó que não gosta de Carnaval está em casa chorando."

Ele lembra o refrão da agremiação sobre Exu: "É poesia na escola e no sertão. A voz do povo. Profeta das ruas", entoa a bateria sobre o orixá da comunicação e da linguagem, que segundo as religiões afro age como mensageiro entre os seres humanos e as divindades.

Foi sobre ele o enredo que levou a escola ao título, personificado pelo ator Demerson D'alvaro numa comissão de frente que surpreendeu público e especialistas. A ideia era subverter a crença de que o orixá seria uma figura maligna, fruto da intolerância religiosa.

"A Grande Rio era conhecida como uma escola plástica, a escola dos artistas. Mas essa dupla de carnavalescos [Gabriel Haddad e Leonardo Bora] mudou isso e decidiu que sem o povo não é nada. Por isso esse título tem um gosto muito especial para o povo de Caxias", completa Well.

Antes da vitória consumada, a comemoração se estendia também a todas as notas "nove" da Beija-Flor, colada em segundo lugar até o final da apuração --perdeu por três décimos. "Desenrola, bate, só mais um dezinho", cantava a plateia no ritmo do hit deste Carnaval.

Era incentivada pelo mestre de cerimônias, que mais tarde condenou furtos de celulares e pediu cuidado com os pertences: "Não vai passar batido, uma hora vai ser pego, hein", avisou. Depois brincou: "O cara achou uma carteira com R$ 50 mil e devolveu. Só em Caxias que acontece isso".

Com o troféu em mãos, a bateria seguiu batucando o samba-enredo e outros ritmos por horas, coroada pela rainha Paolla Oliveira.

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