Quadrilha de Beira-Mar é suspeita de cobrar ‘pedágio’ em lixões clandestinos em Gramacho

Marcos Nunes
Montanhas de lixo em depósitos clandestinos crescem no entorno do antigo aterro de Jardim Gramacho: risco à segurança e ao meio ambiente

RIO — O tráfico em Caxias está lucrando até com o lixo. Mais especificamente a quadrilha de Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, que cumpre pena há 17 anos. Bandidos ligados ao traficante comandam não só a venda de drogas em Jardim Gramacho, como são suspeitos de cobrar “pedágio” de caminhões que despejam detritos em terrenos clandestinos na região. Além disso, carcaças de veículos roubados estão sendo jogadas nesses lixões. O negócio paralelo do bando está sendo investigado pela Polícia Civil.

Durante um voo de helicóptero na região, o biólogo Mário Moscatelli constatou o crescimento dos depósitos em situação irregular no entorno do antigo aterro sanitário de Jardim Gramacho, onde prefeituras da Região Metropolitana depositavam lixo até 2012, quando o lixão foi desativado.

Para piorar a situação, o despejo, segundo ele, está sendo feito cada vez mais perto da Baía de Guanabara. O especialista observou que as montanhas de detritos já aterraram um longo trecho da faixa de proteção do Rio Sarapuí, um dos maiores da Baixada Fluminense. Ele calcula que, além das margens do rio, cerca de três hectares numa área de manguezal já foram tomados pelo lixo .

— Aquilo ali é um problema ambiental. Além disso, esses lixões produzem chorume que vai para a Baía de Guanabara. Não há controle algum do lixo despejado nas áreas do antigo aterro sanitário. Você tem um problema de saúde pública porque joga-se de tudo ali sem qualquer controle, além da questão de segurança já que a área faz parte do perímetro do Aeroporto Internacional do Rio. Por causa dos resíduos, há uma grande quantidade de urubus, o que é um risco para os aviões — disse Moscatelli.

Risco para a pesca

Segundo ele, o vazamento de chorume em direção à Baía afeta diretamente a pesca e a captura do caranguejo:

— Esse líquido da decomposição dos resíduos é tudo de ruim. Afeta a biodiversidade da área, a comunidade vegetal e a fauna do manguezal.

A Polícia Civil informou que a 59ª DP (Caxias) tem uma investigação sobre o tráfico de drogas no antigo aterro sanitário de Gramacho. Já a titular Márcia Julião, da Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente (DPMA), disse que há dois inquéritos em andamento que apuram as responsabilidades pelo despejo de lixo em terrenos clandestinos.

A prefeitura de Caxias alegou que uma empresa retira os gases provenientes dos detritos do antigo aterro de Gramacho, mas que o chorume não está sendo completamente tratado. Segundo o órgão, a responsabilidade por essa fiscalização é do Instituto Estadual do Ambiente (Inea). Antes de ser fechado por questões ambientais, o aterro recebia sete mil toneladas de lixo por dia.

Procurada, a Secretaria estadual do Ambiente e Sustentabilidade anunciou que vai enviar ofícios às polícias Civil e Militar para intensificar as operações na região. A pasta disse que, no ano passado, foram feitas 11 ações de fiscalização no antigo aterro sanitário e no seu entorno. Em três operações de combate a crimes ambientais, que tiveram a participação da polícia, sete pessoas foram detidas.

Houve ainda a apreensão de dois caminhões e quatro máquinas de grande porte. Os agentes ainda demoliram 34 fornos, que eram usados para transformar em carvão a madeira usada em obras e despejada irregularmente junto com entulhos.

Estado tem projeto

A secretaria tem um projeto básico de recuperação e proteção ambiental do bairro de Jardim Gramacho. Estão previstas obras de reurbanização, drenagem urbana e saneamento básico, além da implantação de um sistema viário e do monitoramento por câmeras. O lugar ganharia ainda ciclovia, áreas de lazer e quadras de esporte. Cerca de 20 mil moradores seriam beneficiados. O custo do projeto, que não tem data para começar, é de R$ 150 milhões.