Quais são as torcidas mais negras do futebol brasileiro?

Para além do azul, vermelho e branco, o preto é cor fundamental no Bahia. Torcida que mais se destaca no recorte por raça ou cor da pele da pesquisa O GLOBO/Ipec, os tricolores veem sua fatia nacional crescer mais de 40% entre os negros. No geral, o Bahia foi a 12ª torcida mais citada, com 1,7%. Entre quem se declara preto ou pardo, a classificação sobe para 7º, com 2,4% (entre os brancos, fica apenas em 13º, com menos de 1,5%).

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— O Bahia ter colocado o nome de personalidades negras na camiseta (ação feita em 2018, no mês da Consciência Negra) acabou refletindo no país inteiro. Foi para todos os programas esportivos nacionais. É um clube muito marcado por essas lutas sociais, humanistas. Esse percentual de torcedores, com certeza, está muito ligado a esse trabalho — opina Marcelo Carvalho, diretor do Observatório da Discriminação Racial no Futebol.

O maior engajamento do clube, no entanto, é recente. A questão regional também contribui: segundo dados de 2010 do IBGE, Salvador, centro da torcida do Bahia, é a capital mais negra do Brasil, com índices próximos a 80%.

A segunda capital neste ranking, segundo o Mapa da População Preta e Parda no Brasil do instituto, é o Rio de Janeiro, com 3 milhões de habitantes negros. O que ajuda a explicar a presença de Botafogo e Vasco no top-5 de clubes que mais crescem a fatia da torcida neste recorte racial, e o Flamengo, que lidera o ranking das torcidas mais negras do Brasil, com 25,4%, contra 15,2% do segundo colocado, o Corinthians. Maior torcida do Brasil, os rubro-negros são maioria também entre os brancos, mas com uma margem bem menor: 17,2% x 15,6%, um empate técnico.

— O Flamengo sempre teve essa associação de ser o clube do povo. A história recente está muito ligada a esse clube de torcida popular, mais pobre, negra. Tanto que os rivais cantam direcionados a isso quando querem ir contra o clube — explica Marcelo.

O fator histórico ajuda a explicar a forte presença negra no Vasco. O torcedor cruz-maltino, por exemplo, se orgulha em dizer que o clube foi pioneiro na luta por negros e operários no futebol brasileiro. Em 2022, o cruz-maltino comemorou 98 anos da “Resposta Histórica”, a manifestação do clube pelo direito de poder jogar com pretos no time, algo incomum na época.

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No Botafogo, analistas supõem que o grande passado de ídolos negros do alvinegro, como Garrincha, Jairzinho e Paulo César Caju, possa ter favorecido a identificação de pretos e pardos com o alvinegro.

Especialistas reforçam, porém, a dificuldade em fazer análises a partir do recorte étnico-racial por conta da precariedade nos estudos que aprofundam a temática no país. Segundo levantamento feito pelo Grupo de Estudos sobre Futebol e Torcidas (GEFuT), foram defendidas, entre 1996 e 2016, 959 teses e dissertações no Brasil sobre futebol na área das Ciências Humanas e Sociais. Desses, apenas 14 estudos têm o racismo como questão central. Entre 1980 e 1995, nenhum foi encontrado.

Do outro lado, Grêmio e Santos aparecem como os clubes com a maior presença de quem se autodeclara branco. O time gaúcho é só o 13º lugar entre os negros (1,1%). Entre os brancos, a torcida tricolor fica em 5º (5,7%). A questão regional também pesa nesse caso, mas o desequilíbrio na pesquisa é maior que no rival, o Internacional.

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