Qual é a relação entre exportação de alimentos e aumento dos preços nos mercados? Nath Finanças explica

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O Brasil é o segundo da lista de países que mais exportam alimentos. Segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC), o país atende 800 milhões de pessoas em todo o mundo. Pesquisas mostram que ele pode ultrapassar o primeiro colocado dessa lista, os EUA, daqui a cinco anos.

Apesar disso, nosso país tem, em sua zona rural, 75,2% dos domicílios em situação de insegurança alimentar. O termo diz respeito não só à falta de alimentos, mas também a uma dieta menos nutritiva que, em geral, é mais barata.

Segundo estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a população que mais sofre com a falta de alimentos é a mais pobre. Com isso, há prejuízo para o desenvolvimento físico e mental e até mais risco de pegar Covid-19.

A segurança alimentar é um direito de todo cidadão assegurado pela Constituição, como consta no artigo 6º. Mas por que um país que exporta tantos alimentos não consegue proteger sua população da fome?

Em 1990, o governo criou a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), por meio da fusão de três empresas públicas que tinham o mesmo objetivo: formular e executar políticas públicas que visam à gestão da agropecuária do país, e cuidar da segurança alimentar e nutricional de toda a nossa população. É função da Conab administrar o Programa de Aquisição Alimentar (PAA), que é um instrumento de desenvolvimento e organização da agricultura familiar brasileira.

Sistema é desigual e privilegia quem paga mais

Além da seca e da alta de combustíveis e da luz, a exportação é um fator que pesa no aumento dos preços dos alimentos. O coordenador da Rede Penssan, que pesquisa segurança alimentar, disse em uma entrevista que o sistema alimentar no mundo é desigual, e ele é mesmo.

Após avanços tecnológicos na agricultura e na pecuária, a falta de alimento não se dá por escassez, mas pela desigualdade dessa divisão, pela má administração. Só se alimenta no mundo quem pode pagar por esse alimento. E o pior: quem pode pagar um valor alto.

Corte em políticas públicas para o campo

A Conab é a responsável pela armazenagem de alimentos da cesta básica, como o arroz e o feijão. Isso é feito justamente para não ocorrer o que aconteceu no ano passado, quando os estoque de arroz baixaram por conta do aumento do consumo na pandemia, e para controlar o preço e o mercado em períodos de entressafra ou crise.

Entretanto, esse estoque vem diminuindo ano após ano. O diretor da Conab, Sergio de Zen, relatou em entrevista que não faz mais sentido ter um estoque público hoje, e que os países utilizam um estoque global atualmente. Porém, não foi bem isso que vivenciamos no ano passado, com o arroz a R$ 40.

Outro problema é que o orçamento do PAA vem caindo ano após ano. Nesse programa, o governo compra uma quantidade de alimentos da agricultura familiar e a destina para redes de assistência social.

O corte no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) também fez com que a demanda na agricultura familiar caísse, pois 30% da renda desse programa era para aquisição de alimentos de pequenos produtores. Isso gerou mais fome e desemprego nas zonas rurais.

A crise no sistema alimentar nacional não é de 2021, muito menos de 2020: ela nasceu antes da crise sanitária causada pela Covid-19. O problema com a insegurança alimentar no país vinha desde 2017, quando o Brasil voltou a ter taxas absurdas de fome — 5,8%, sendo que o mapa da fome considera o país em um estado crítico a partir de 5%.

Resumidamente, foram três fatores juntos que fizeram o Brasil voltar ao mapa de fome da Organização das Nações Unidas (ONU): o agronegócio visando sempre vender os alimentos por um valor maior, porque faz parte da lógica de mercado e de uma política de voltada para exportação; o problema de baixo investimento em agricultura familiar; e políticas públicas ineficientes.

Entenda como a alta do dólar fez o valor do arroz disparar em 2020

No episódio do meu podcast Boletos Pagos, conversei com a economista Laura Carvalho. Ela explicou como o dólar influenciou no preço do arroz aqui no Brasil no ano passado, lembra? Você consegue ouvir o bate-papo na íntegra no Spotify.

Laura disse que, quando o dólar aumenta, mercadorias internacionais ficam mais caras para o Brasil, porque muitos insumos ou até mesmo produtos finais são comprados lá de fora — consequentemente, em dólar. E os produtores nacionais também elevam o preço dos produtos para ganharem com esse aumento, principalmente quando vendem para fora, para aproveitar o dólar alto, porque fazem a negociação em dólar.

Isso faz com que o preço dos alimentos dentro do país também aumente. Na questão do arroz, muitos são os boatos de que os produtores seguraram a safra para aumentar ainda mais o valor de venda, visto que o mundo estava em lockdown e muitos queriam estocar comida.

Alimentos existem, o que falta é recurso e distribuição para adquirir! Por isso, políticas públicas que geram renda para a população mais pobre são tão importantes, como as que dão incentivo à agricultura familiar.

A própria ONU já declarou que desenvolver a agricultura familiar nos países pode acabar com a fome. Segundo a entidade, a agricultura familiar produz aproximadamente 80% dos alimentos consumidos e preserva 75% dos recursos agrícolas do planeta.

Meu agradecimento a todos que acompanharam a coluna!

Esta é minha última coluna para o EXTRA. Espero que, em todos esses meses, meus textos tenham ajudado você, leitor. Foi uma honra poder passar, a cada 15 dias, tudo que aprendi e aprendo todo dia para vocês.

Espero poder criar novamente, mais pra frente, conexões. Obrigada a toda equipe do EXTRA que me acolheu tão bem. Obrigada à designer que fez artes maravilhosas para exemplificar o conteúdo.

Não é uma despedida, é um “até logo”.

Beijos, Nath.

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