Qual o protocolo da PM para ações em bailes funk de São Paulo?

Giorgia Cavicchioli
Observatório de Olho Na Quebrada reúne dados sobre violência policial dentro da comunidade. Foto: Divulgação
Observatório de Olho Na Quebrada reúne dados sobre violência policial dentro da comunidade. Foto: Divulgação

Dois episódios de truculência policial em bailes funk de São Paulo resultou na morte de 10 jovens no dia 1º de dezembro. O primeiro caso aconteceu em Paraisópolis, na zona sul da cidade. Nove pessoas morreram pisoteadas durante tumulto causado na ação da PM. Na mesma noite, um homem morreu após ser baleado em outra ação policial que aconteceu em um baile de Heliópolis, também na zona sul.

Procurada pela reportagem para explicar qual é o protocolo para as ações em bailes funk da cidade, a Polícia Militar afirmou que “adota a ocupação do local antecipadamente para que o evento não ocorra”. Segundo a PM, essas operações são planejadas com base em um banco de dados.

Porém, Reginaldo José, coordenador do Observatório de Olho Na Quebrada, projeto da Unas (União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região) que reúne dados sobre violência policial dentro da comunidade, afirma que os bailes acontecem por conta da falta de espaços públicos dedicados ao lazer da população local.

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“O funk é um meio de diversão. A gente sempre ouve que o funk é ruim e que tem que acabar com o funk, mas o Estado não dá uma alternativa. Tinha que ter um diálogo com o poder público, assim teria o que se fazer para entender essa demanda da juventude”, explicou.

Para entender como funcionam essas festas nas ruas, o De Olho na Quebrada fez uma pesquisa experimental sobre baile funk em Heliópolis durante julho e setembro de 2019. Para o levantamento, foram ouvidos 78 moradores com uma média de idade de 18 anos.

Segundo o estudo, cerca de 8 em cada 10 desses jovens já foram em algum baile funk na região e 75% dos adolescentes que já foram em uma das festas presenciaram algum tipo de violência policial durante o baile.

De acordo com o coordenador, a polícia costuma entrar nos “fluxos” com extrema violência. “Eles chegam já jogando bomba de gás, batendo na população que frequenta esse espaço. A ação acontece de maneira exagerada e que não condiz com um ambiente que está cheio de jovens”, constatou.

Por sua vez, a PM afirma que as ações com violência se devem a algum crime grave que está acontecendo no momento em que é preciso dispersar a multidão. Por meio de nota, a corporação afirmou que já precisou prestar socorro a uma pessoa que tinha sido esfaqueada e que já teve até que fazer um parto durante um evento.

“Na grande maioria dos casos a Polícia Militar é hostilizada por alguns frequentadores com garrafas e pedras”, disse a corporação lembrando que constantemente informa os órgãos responsáveis “para que cada um, dentro da sua competência, exerça seu papel legal, uma vez que o ‘problema’ depende de ações de diversos órgãos”.

Reginaldo afirma, no entanto, que existem pontos positivos e negativos em relação à realização dos bailes. “No fluxo, os jovens podem se divertir, eles têm liberdade e não precisam sair da região para encontrar divertimento. O lado negativo é o barulho e o lixo, que acaba acarretando em um prejuízo para a população”, disse.

“Mas a morte que aconteceu aqui deixa claro que o Estado não quer que isso aconteça, ele não quer que a gente tenha direito à cidade. Aí acontece o que aconteceu. Se não temos opções de lazer, a gente vai criando o nosso jeito. Por muito tempo, eles jogaram futebol na rua, por exemplo. A pessoa acaba ocupando a rua”, explicou.

Segundo o coordenador, o grande problema que a comunidade enfrenta com a chegada da PM nas festas é a falta de diálogo. “Quando eles chegam, já chegam para querer acabar com o fluxo. Eles não chegam para dialogar. As pessoas nem estão esperando e começa a violência. Se pedir, as pessoas vão sair numa boa. O jovem não quer conflito”, afirmou.

De acordo com a nota enviada pela PM à reportagem, caso aconteça algum tipo de abuso por parte de um policial, o crime poderá ser apurado pela Polícia Civil e pela própria Polícia Militar.