Qual o saldo (e o sentido) das manifestações em favor de Bolsonaro neste domingo?

Manifestantes levam às ruas boneco inflável de 20 metros que mistura a imagem do ministro Sergio Moro com o personagem de quadrinhos e cinema, o Super-Homem

Alguém que entrou em coma no fim do ano passado e acordou só no último domingo, 26 de maio, poderia imaginar que no Brasil há um presidente hiperativo e hiperprodutivo que há cinco meses arregaçou as mangas e tenta, em vão, se livrar das bolas de ferro da velha política e do Judiciário. Trabalhadas no boicote, as instituições seriam os últimos entraves antes de o país decolar - sabe-se-lá-para-onde.

Se o mesmo paciente não passou outros 30 anos em coma, ele saberia que, até outro dia, Jair Bolsonaro era parte da mesma classe política que agora ataca, e que a novidade representada por ele é tão revolucionária quanto registrar funcionários-fantasma, fazer rachadinha de salário no gabinete, empregar gente ligada a milícia, promover proselitismo político em nome de Deus ou ver os negócios imobiliários da família prosperarem no auge da crise econômica.

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Mas quem passou os últimos cinco meses acordado teria dificuldade em lembrar de que maneira o presidente se empenhou de fato para mudar a realidade de um país com 12,4% de desempregados e perspectivas enxutas de crescimento - a não ser que ele realmente acredite que as vendas de armas, alavancadas por um decreto metralhado de inconstitucionalidades, promovam a eliminação física de concorrentes pelos postos de trabalho, sirvam como tração para a economia e movimente a cadeia produtiva das munições aos funerais.

Mesmo quem tem dinheiro para investir já desconfia da seriedade de um país onde apoiadores do presidente decidem atacar o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que deveria ser um aliado e peça-chave para o avanço de reformas como a da Previdência.

Ou do que pode ser exatamente produtivo na verborragia do guru do presidente e filhos, todos devidamente condecorados pelo pai, contra o vice-presidente e a ala militar do governo.

Como quem faz troça do tamanho da genitália alheia em rede nacional, não espanta que os endossos sobre a manifestação de domingo, em busca de demonstração de força e vigor, sirvam como comparação à musculatura dos atos que 15 dias antes levaram opositores ou eleitores decepcionados às ruas em defesa da educação - mais precisamente, contra a precarização do ensino no país.

Quem foi às ruas no domingo certamente não parece preocupado nem com contingenciamento, nem com a suspensão de bolsas de pesquisa, menos ainda com a ausência de planos para o pós-congelamento.

Foram às ruas para quê?

Para dizer que estão com o presidente, custe o que custar, corte o que cortar, brigue com quem brigar, nomeie quem nomear, banque quem bancar, e passe o tempo que quiser no Twitter produzindo polêmicas com foliões e pesquisando sobre golden shower.

Tudo devidamente resumido na mensagem “Faça o que for preciso”.

Os atos mostraram também como Sergio Moro, ministro da Justiça, é ainda uma espécie de bastião da credibilidade do governo, a ponto de a pauta se confundir com um genérico apoio à Lava Jato.

Evidenciaram também que cresceu, desde as eleições, o arco de inimigos e “traidores da pátria”, antes limitados à esquerda, ao comunismo, ao coitadismo, ao vitimismo; agora cabem nele os políticos do centrão, os meninos do MBL e os ministros do Supremo Tribunal Federal.

Na velha estratégia morde e assopra, Bolsonaro diz que quem pede o fechamento do Congresso e do Supremo está na marcha errada.

Quem acordou agora do coma nem imagina que se trata do mesmo presidente que disparou, dias atrás, corrente de WhastApp atribuindo a inanição do governo a “políticos, servidores-sindicalistas, sindicalistas de toga e grupos empresariais bem posicionados nas teias de poder”. Ou que fazia referência a lagostas do STF e aos espumantes com quatro prêmios internacionais - tudo bem lembrado pelos manifestantes em falas e cartazes.

Antes de se perguntar quantas pessoas foram às ruas nas manifestações dos dias 15 e 26 de maio, como se fizessem parte de uma gincana sobre quem pode mais, é preciso se questionar como os alvos dos atos de domingo, o centrão entre eles, vão reagir à tentativa de emparedamento.

O recado das ruas, se houve, será suficiente para amolecer o jogo com o governo? Ou as pontes serão queimadas de vez?

É nos corredores dos Três Poderes que os próximos capítulos vão mostrar quem pode mais.

Em tempo. Para quem acredita na narrativa do presidente engajado impedido por forças do atraso de fazer sua revolução, mando abaixo uma lista dos projetos apreciados na última semana pelos senadores, um dos alvos dos manifestantes.

A lista completa está disponível, para qualquer cidadão, na página oficial do Senado. Se os projetos são bons ou não, é outra conversa.

O ponto é que só defende (ou endossa) a construção de um grande estacionamento no lugar dos inúteis Congresso e Judiciário quem já perdeu a noção de que a política e a lei são ainda os principais canais em defesa do extermínio. Mover esses “obstáculos” é mover o que nos organiza como civilização.

-O Plenário aprovou na terça-feira (21) projeto de lei que regulamenta a profissão de cuidador de idosos, crianças e pessoas com deficiência ou doenças raras. O PLC 11/2016 segue para sanção presidencial.

-Comissão Mista de Planos, Orçamentos Públicos e Fiscalização (CMO) aprovou na terça-feira (21) um projeto de crédito especial (PLN 3/2019) que destina R$ 36 milhões para o pagamento de indenizações aos policiais rodoviários federais que trabalham no dia de folga.

-Dirigir veículo de transporte escolar sem autorização específica poderá ser classificado como infração gravíssima. O aumento da penalidade está previsto no Projeto de Lei da Câmara (PLC) 109/2017, aprovado na quarta-feira (22), na CCJ.

-A família não pode interferir na retirada de órgãos de uma pessoa com morte cerebral que tenha manifestado em vida a vontade de ser doadora. Tal determinação está prevista no Projeto de Lei do Senado (PLS) 453/2017, aprovado em decisão final na CCJ.

-A Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) aprovou na terça-feira (21) um projeto de decreto legislativo o (PDS 377/2015) que derruba a Portaria 61/2015 do Ministério da Saúde. Essa medida do governo restringiu o acesso de mulheres de 40 a 49 anos aos exames de mamografia para detecção precoce de câncer de mama no Sistema Único de Saúde (SUS). A portaria determina que somente mulheres de 50 a 69 anos de idade podem fazer o rastreamento mamográfico na rede pública. Texto volta a assegurar a mamografia a todas as mulheres a partir dos 40 anos de idade.

-Avançou no Senado uma proposta para incluir na Lei de Racismo a discriminação por orientação sexual ou de identidade de gênero. O PL 672/ 2019 foi aprovado na quarta-feira (22), em caráter terminativo, na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ).

-Mulheres transgênero e transexuais poderão contar com a proteção da Lei Maria da Penha (Lei 11.340, de 2006). A CCJ aprovou, na quarta-feira (22), o Projeto de Lei do Senado (PLS) 191/2017, que amplia o alcance da norma e, com isso, pretende combater a violência contra pessoas que se identificam como integrantes do gênero feminino.

-A Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) aprovou na quinta-feira (23) um projeto de lei que garante prioridade na tramitação judicial a ações de divórcio que envolvam vítimas de violência doméstica. O PL 510/2019, do deputado Luiz Lima (PSL-RJ), segue agora para a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ).

-Proposta que determina premiações iguais a homens e mulheres em competições esportivas que envolvam recursos públicos foi aprovada terminativamente, na terça-feira (21), na Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE). O texto segue para a Câmara dos Deputados, caso não haja recurso para análise em Plenário.

-A CE aprovou, na terça-feira (21), o Projeto de Lei (PL) 2.479/2019, que cria a Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT). A nova instituição virá do desmembramento da Universidade Federal de Tocantins (UFT) e terá sede e foro no município de Araguaína. O texto segue para a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ).