Qualidade do ar melhora em São Paulo, mas permanece muito acima do ideal

***ARQUIVO*** SÃO PAULO - SP - BRASIL - 23.08.2021 - Centro de São Paulo fotografado a partir da Mooca, na zona leste.  (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)
***ARQUIVO*** SÃO PAULO - SP - BRASIL - 23.08.2021 - Centro de São Paulo fotografado a partir da Mooca, na zona leste. (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - São Paulo está com o ar pesado e não é de hoje. Uma análise do Iema (Instituto de Energia e Meio Ambiente) mostra como a cidade apresenta, em todos os índices avaliados, taxas de poluição superiores às recomendadas pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

O relatório do Iema, lançado nesta quinta-feira (26), usa dados disponibilizados pela Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo), captados em 29 pontos da cidade. O levantamento engloba o período de 2000 a 2021.

Foram avaliados níveis de três poluentes críticos para São Paulo: de material particulado, ozônio (O3) e dióxido de nitrogênio (NO2).

"A gente só reverificou a questão de que São Paulo é poluída", afirma David Tsai, gerente de projeto do Iema.

Apesar de a cidade ainda apresentar níveis consideravelmente superiores aos do cenário ideal para a saúde apontado pela OMS, há, em algum grau, uma boa notícia a ser contada. Pelo menos para material particulado e NO2, as concentrações de poluentes vêm diminuindo.

O grande problema é que diminuem em relação a níveis anteriormente muito altos.

Começando pelo material particulado, por exemplo. O nome é quase literal: trata-se de uma mistura de compostos sólido e líquidos (dispersados em fumaças e poeira) que ficam em suspensão no ar e acabam no seu nariz e nos seus pulmões. Se você estiver imaginando ônibus, carros e chaminés de fábricas soltando fumaça, você está imaginando certo.

Ao respirar o material particulado, dependendo do tamanho da partícula —quanto menor, pior—, ela pode acabar no seu pulmão e até na sua corrente sanguínea, o que, como é possível imaginar, pode levar a diversos problemas de saúde.

Segundo a análise do Iema, no começo dos anos 2000, a cidade de São Paulo tinha taxas de material particulado (MP) de 3 a 5 vezes superiores ao que indica atualmente o padrão da OMS (que foi atualizado no fim do ano passado).

Hoje, para o MP10 (o número indica o tamanho do composto medido: 10 micrômetros), os valores da capital paulista são "só" duas vezes maiores do que o ideal. No caso do MP2,5 (que, pelo seu tamanho, é mais prejudicial), a concentração é de 3 a 4 vezes maior do que o indicado.

As reduções observadas nessa área devem estar relacionadas a um maior controle das emissões veiculares, o que está associado à melhoria tecnológica em veículos e ao Proconve (Programa de Controle de Poluição do Ar por Veículos Automotores).

Os valores de NO2 de 2020 e 2021, por sua vez, chegaram a ficar dentro dos padrões estabelecidos pela OMS. Isso se levássemos em conta os padrões antigos. A atualização de 2021 da organização internacional, porém, tornou mais restritivos os níveis ideias, reduzindo-o em quatro vezes. Com isso, nenhuma estação de monitoramento em São Paulo ficou dentro de padrões adequados, apesar das reduções nas últimas duas décadas.

Os óxidos de nitrogênio são produzidos em processos de combustão —mais uma vez, veículos entram nessa equação.

"Ótimo, o material particulado está reduzindo, NO2 está reduzindo, então, estamos fazendo algumas coisas certas. Mas precisamos fazer mais porque a gente ainda está no dobro, triplo, quádruplo da recomendação da OMS", afirma Tsai.

E, por fim, o ozônio, que se trata de um poluente secundário, produzido por reações entre outros compostos, como óxidos de nitrogênio e compostos orgânicos voláteis (sabe o cheiro de gasolina em postos de combustíveis? Isso é um composto volátil).

O caso do ozônio é o mais preocupante, diz Tsai. "Ele oscilou em patamares bastante elevados, mas não apresentou uma tendência de queda", afirma o pesquisador do Iema. "Estamos estagnados."

Ainda não há uma explicação clara sobre o que está envolvido nessa manutenção dos números relacionados ao O3, mas Tsai diz que o instituto está em contato com a Cetesb para entender e pensar em soluções.

Outro ponto que chamou a atenção, segundo Tsai, foi a manutenção dos níveis de poluição tão elevados quanto antes mesmo em 2020 e 2021, ainda no início da pandemia de Covid, momento no qual uma parte grande dos deslocamentos pela cidade teve reduções. Inclusive, algumas medidas da poluição nos primeiros meses da Covid no Brasil mostravam uma redução de poluição em cidades como São Paulo.

POLUIÇÃO LOCAL

Você pode estar pensando: mas tudo isso depende de onde a poluição é medida. Em bairros mais tranquilos, sem tanto movimento de carros, os níveis de poluição devem ser menores.

Até certo ponto, você está certo. Mas, se você estiver em qualquer ponto de São Paulo, necessariamente estará em contato com um ar respirável acima dos valores tidos como seguros pela OMS.

Tsai traz más notícias. "Mesmo nos melhores cenários, a gente ultrapassa as recomendações da OMS."

De toda forma, há diferença entre os locais de medição de poluição e sua representatividade para a cidade. Por exemplo, o ar registrado no pico do Jaraguá pode ser tido como uma boa régua para o "ar médio" de quem respira em São Paulo —trata-se de uma estação de monitoramento de escala urbana, ou seja, representativa para o todo municipal. Enquanto isso, a estação da marginal Tietê não é um bom parâmetro para análises mais amplas, considerando o intenso e constante fluxo de carros —é, portanto, uma estação de representatividade muito local, com escala micro.

Mas, como dito anteriormente, mesmo as estações com escala urbana, como a do distante pico do Jaraguá, não escapam da poluição e estão distantes dos padrões aceitáveis da OMS.

CIDADE-EXEMPLO DE MONITORAMENTO

São Paulo é poluída e isso está claro no levantamento e há algum tempo. Mas só é possível saber e quantificar isso graças ao sistema de monitoramento que a cidade tem.

Segundo Tsai, a capita conta com um robusto sistema de monitoramento. "Esse é um cenário de exceção no Brasil. Poucos estados têm uma rede como a de São Paulo. A grande maioria não tem sequer uma estação de monitoramento de qualidade do ar", afirma o pesquisador. "É preciso reconhecer isso. Vinte anos de dados não é pouca coisa. Dados públicos do órgão ambiental de São Paulo."

O pesquisador aponta que até muitas capitais não têm estações de monitoramento. Toda a região Norte do país —muita afetada por queimadas, que geram grandes quantidades de material particulado— não possui nenhuma estação.

"Na maior parte dos casos, não sabemos o que o brasileira está respirando", diz Tsai.

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