Quando o cansaço na verdade é depressão

Catherine Pearson
·HuffPost
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<i>Depressão e cansaço muitas vezes andam de mãos dadas, mas a relação é complexa.</i> (Photo: PHOTOALTO/FREDERIC CIROU VIA GETTY IMAGES)
Depressão e cansaço muitas vezes andam de mãos dadas, mas a relação é complexa. (Photo: PHOTOALTO/FREDERIC CIROU VIA GETTY IMAGES)

A depressão pode ser um dos problemas de saúde mental mais comuns, mas ainda é frequentemente mal compreendida. Muitas pessoas acreditam que os principais sintomas são tristeza e falta de esperança. Mas eles tendem a ser muito mais amplos e frequentemente mais sutis. Incluindo o cansaço.

A associação entre cansaço e depressão não é linear e pode ser difícil de identificar. Mas a conexão existe, e os especialistas em saúde mental dizem que é essencial prestar atenção ― talvez mais do que nunca durante a pandemia do coronavírus, que afetou profundamente nossa saúde mental e nossas rotinas de sono.

Eis o que você precisa saber sobre depressão e cansaço:

Sentir-se cansado é um sintoma comum da depressão

“A fadiga afeta mais de 90% das pessoas com depressão clínica”, diz Nadine Kaslow, professora do departamento de psiquiatria e ciências comportamentais da Emory University School of Medicine.

E fadiga não significa apenas a dificuldade para sair da cama de manhã (embora certamente possa ser o caso) ou aqueles bocejos no meio do dia (embora essa também seja uma possibilidade).

A fadiga também pode se manifestar mais como uma falta generalizada e persistente de energia. Mesmo tarefas relativamente simples parecem exigir um esforço físico e emocional muito maior.

O relacionamento é complexo

Quando se trata de depressão e fadiga, “pode haver um fator subjacente que está causando ambos”, diz Betty Lai, psicóloga e professora assistente da Escola Lynch de Educação e Desenvolvimento Humano do Boston College. Ela apontou para o possível papel do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal, ou eixo HPA, sistema que ajuda a regular a resposta do corpo ao estresse.

“O estresse crônico pode interromper o funcionamento do eixo HPA e causar problemas tanto de sono quanto de depressão”, explica Lai.

Portanto, uma base biológica compartilhada pode ser uma das razões para a ligação entre cansaço e depressão, mas não é a única. Cerca de 80% das pessoas com depressão têm problemas para dormir ― uma relação de duas mãos. A insônia pode causar (ou piorar) a depressão, mas os problemas podem se sobrepor. A própria depressão também pode causar insônia. Além disso, pessoas com problemas de sono subjacentes, como fadiga crônica, também podem ser mais vulneráveis à depressão.

“A relação bidirecional entre depressão e cansaço pode levar a um ciclo vicioso difícil de romper”, explica Kaslow.

Outro complicador? Efeitos colaterais de remédios. “O tratamento com medicamentos para a depressão geralmente reduz a gravidade dos sintomas de fadiga, mas alguns remédios também podem causar fadiga significativa”, acrescenta ela.

Preste atenção se estiver perdendo o interesse pelas coisas

Os especialistas em saúde mental ressaltam que os sintomas de fadiga ligados à depressão nem sempre se manifestam como cansaço físico.

“Um sinal de alerta para a depressão é: ‘Ah, eu gostava de fazer aquilo... gostava dessa atividade ou de eventos sociais. Mas perdi a vontade. Estou desmotivado’”, diz Tameka Brewington, psicoterapeuta e proprietária do Real Talk Counseling.

Portanto, ao diagnosticar a depressão, os profissionais de saúde mental estão procurando cansaço emocional e perda de motivação.

Se alguém está disposto a realizar suas atividades habituais, mas está simplesmente cansado demais, diz Brewington, o foco deve ser encontrar as causas da fadiga.

A covid-19 pode complicar ainda mais as coisas

As evidências disponíveis sugerem que a pandemia está afetando a saúde mental das pessoas. Uma pesquisa recente dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças, por exemplo, descobriu que 30% dos americanos apresentaram sintomas de depressão ou ansiedade. Um em cada quatro pais disse que sua saúde mental piorou durante a pandemia, e um em cada sete disse que isso é verdade para seus filhos.

Ao mesmo tempo, alterações na rotina e o estresse de viver em uma pandemia cujo final não está à vista podem ― e têm ― afetado o sono .

Os especialistas dizem que é particularmente importante prestar atenção às mudanças prolongadas na saúde emocional, nos padrões de sono e no cansaço. Principalmente se esses sintomas durarem mais de duas semanas, diz Brewington.

“Todos devem ter consciência de que podem estar ansiosos ou deprimidos, ou reconhecer o cansaço, afinal estarmos passando por uma pandemia”, afirma ela.

Às vezes é mais fácil falar sobre cansaço, e isso é bom

“O sono pode ser um assunto mais fácil para conversas – e também é mais fácil notar os problemas”, diz Lai. Portanto, ele pode ser um bom “ponto de partida” para as pessoas que, de outra forma, teriam dificuldade em procurar ajuda.

Infelizmente, o estigma em torno da busca de suporte para saúde mental persiste. Os dados mostram que mais de 30% dos americanos dizem temer ser julgados pelos outros porque procuraram cuidados de saúde mental e até 50% dos adolescentes e jovens adultos dizem que é esse o caso.

Todos os especialistas em saúde mental entrevistados para esta reportagem repetiram a importância de buscar apoio. Existem muitos tratamentos eficazes para a depressão, desde terapia e grupos de apoio a remédios.

Você pode começar pesquisando diferentes tipos de terapeutas e diferentes abordagens de terapia. Também existem maneiras de encontrar opções de terapia mais acessíveis. E uma vantagem da pandemia é que nunca foi tão fácil fazer terapia virtual.

Em última análise, médicos e profissionais de saúde mental também podem determinar - e tratar - as causas básicas da fadiga persistente.

“Isso é real”, disse Brewington. “O problema não vai embora por conta própria.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

Ouça o podcast Tamo Junto sobre síndrome do impostor:

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Este artigo apareceu originalmente no HuffPost Brasil e foi atualizado.