Quando os opostos se atraem... Ela, feminista, se apaixonou por ele, muçulmano

Uma história de amor incomum: Chrystiane, feminista, encontrou em Ahmad, muçulmano, um oposto que a completava. Por amor, mudou sua vida totalmente de uma hora para outra

Por Rosana Pinheiro, da Agência PLANO

A advogada brasileira Chrystiane Castellucci, de 30 anos, é uma mulher ativa e falante. Nunca sonhou em casar ou ter filhos: “minha vida sempre foi estudar”. Se formou em Direito em Piracicaba, interior de São Paulo, fez mestrado em estudos feministas na Universidade de Coimbra, em Portugal, passou pela Academia de Direito Internacional de Haia, na Holanda, e, na Bélgica, trabalhou nas Nações Unidas. Em 2013, a carreira internacional foi interrompida pelo diagnóstico de uma esclerose múltipla e seus sintomas, que vão desde simples dores musculares até dificuldade para andar e enxergar.

Ela voltou para o Brasil e se estabeleceu em São Paulo, onde começou a trabalhar com temas relacionados a refúgio. “Em uma das reuniões sobre direitos dos refugiados vi o Ahmad”. Os dois não se falaram, mas Chrystiane garante que “foi amor à primeira vista”. Tratou de investigar quem era o homem de nariz proeminente que tinha chamado tanta atenção. Descobriu que Ahmad Almazloum era mestre em engenharia biomédica, sírio, estava no Brasil desde 2012 como refugiado, era solteiro, e… muçulmano. “Muçulmano? Ixi, ninguém merece” pensou. “Com o feminismo, a gente acaba tendo muito preconceito com o Islã” diz. “Mas a maioria das restrições tem a ver com a cultura do país  que segue aquela religião, e não com o islamismo em si. Na Arábia Saudita mulher não pode dirigir, por exemplo. Na Síria é diferente”.

Depois do primeiro contato, os dois foram apresentados oficialmente em 29 de novembro de 2014 pela advogada Carla Mustafa. A amiga de Chrystiane também trabalhava com questões de refúgio e tinha amigos em comum com Ahmad. Durante a Marcha do Imigrante na Avenida Paulista, Carla colocou os dois para conversar. “Eu fui meio cupido nessa história, até hoje a Chrystiane me chama de comadre”. Apesar da discrição de Ahmad, Carla conta que a atração imediata foi recíproca. “Desde o primeiro contato deles a gente percebeu uma troca de olhares. Nada explícito, claro, até porque ele é super discreto”.

O que Chrystiane não esperava era um pedido de casamento  em pouco mais de um mês. “Eu falei para o Ahmad que tudo aconteceu muito rápido. Na verdade, eu nunca havia pensado em casar”. Mas ele estava convicto: “e eu nunca pensei que casaria com uma brasileira e amo você”. Em janeiro de 2015, em uma cerimônia discreta na Mesquita do Pari, em São Paulo, Ahmad e Chrystiane oficializaram a união de acordo com a tradição islâmica, em ritual ministrado pelo Sheikh Mohammed Al Bukai.

Chrystiane se converteu ao islamismo. “Depois do que aconteceu comigo – a esclerose múltipla – eu não acreditava mais em nada”, ela conta. “Quando eu me converti, eu me reconciliei com Deus. Hoje eu consigo orar e conversar com ele”. A conversão facilitou a relação com a família de Ahmad, que está em Damasco, e, por enquanto, só conhece pela webcam. O hijab, véu islâmico, ela usa quando vai a mesquita, que passou a frequentar com o marido. “Eu uso as minhas roupas de sempre. A única coisa é que procuro sempre estar de calça ou com as pernas cobertas”.

Para Chrystiane as diferenças de cultura são os principais motivos para os atritos na convivência. “Eu sou brasileira, morei na Europa, que tem uma cultura super aberta, de liberdade. Ele é sírio, tem o lado dele que é mais conservador e protetor”, diz. “Não acredito que seja uma questão de machismo, mas sim super proteção dele em algumas situações”, ela explica. “Mas ele está cada vez mais entendendo o meu lado”. Nesse momento, é interrompida pela mãe, a professora Kaly Mary Castelucci, que acompanha a conversa animada: “Ou você está entendendo mais o lado dele também, né?”, fala, em defesa do genro.

Dona Kaly acompanhou a história desde o início e confessa que nunca imaginou que sua filha casaria tão rápido. “Olha, ela escolheu a dedo. Não tinha como ser outro, porque são tão opostos que acaba dando certo”, fala enquanto abre um sorriso para Chrystiane. “Ele é muito protetor com a Chrys, quer ver ela bem e saudável”, diz a mãe, que descarta a possibilidade do comportamento de Ahmad ser comparado ao machismo. “Aqui no Brasil o machismo do homem é para humilhar a mulher, fazer de escrava mesmo. O Ahmad não é assim, ele cuida da minha filha”.

“A Chrys não cozinha, por exemplo. É ele que toma conta da comida”, diz a mãe, rindo do mal jeito da filha para a culinária. “O Ahmad é sistemático, ele gosta dos cubinhos de cebola perfeitos!”, diz Kaly. Enquanto o genro orgulha a sogra com a organização da casa, Chrystiane ainda se acostuma com os hábitos do marido: “Tem que ter a hora certinha para jantar e almoçar e eu sou mais tranquila com isso”, conta.

Por outro lado, é estranho para Ahmad o jeito sociável e contestador da esposa. “Meu amigos dizem que eu sou combativa”, explica Chrystiane, que recentemente organizou os moradores do prédio onde moram para discutir questões do condomínio. “O Ahmad fica bravo, fala ‘você fala com todo mundo, você gosta de chamar atenção’, mas não é isso. O que é certo é certo, e eu não consigo ficar quieta”, conta bem humorada.

Atualmente Ahmad faz doutorado em engenharia biomédica na UNICAMP e sonha em ser professor universitário no Brasil. Chrystiane atua como advogada e, apesar dos efeitos da esclerose múltipla, não pretende diminuir o ritmo. “Eu falo cinco línguas e estou aprendendo a sexta. O Ahmad fica preocupado com a minha condição de saúde. Eu não descanso um minuto, mas não consigo ser diferente”. Há 2 anos casados, ela avalia que as mudanças decorrentes da união vieram para o bem: “ele é uma pessoa maravilhosa e eu aprendo muito todos os dias”.