‘Quando vacinarmos 70% da população poderemos comemorar’, diz Margareth Dalcolmo após receber imunizante de Oxford

Raphaela Ramos
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Os primeiros brasileiros foram vacinados contra a Covid-19 com o imunizante desenvolvido pela AstraZeneca e a Universidade de Oxford neste sábado (23), no campus da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em Manguinhos, no Rio de Janeiro. As doses utilizadas foram produzidas pelo Instituto Serum, na Índia, e fazem parte de um lote de dois milhões entregue ao Brasil nesta sexta-feira (22).

A médica pneumologista do Centro de Referência Professor Helio Fraga da Fiocruz e colunista do GLOBO Margareth Dalcolmo foi a segunda vacinada com o imunizante em uma cerimônia.

— Esse é um dia simbólico. Quando tivermos 70% da população vacinada, aí poderemos comemorar de verdade. Mas esse é um dia de esperança e traz uma sensação de confiança que gostaríamos de passar para todos — afirmou a médica.

Dalcolmo também destacou que receber a primeira dose do imunizante não a autoriza a relaxar os cuidados de proteção contra a doença:

— Nem o fato de sermos vacinados com duas doses vai nos autorizar a deixar de lado os cuidados. O coronavírus não vai desaparecer, então cuidados individuais e coletivos são indispensáveis — afirmou, e completou: — Tenho esperança de que esse chamamento de hoje sirva para estimular autoridades para que a importação de insumos se materialize o mais rápido possível para que a Fiocruz possa dar início a produção do imunizante.

Assim como Dalcolmo, foram vacinados Estevão Portela, infectologista do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), a médica Sarah Ananda Gomes, que trabalha no Hospital Felício Rocho, em Belo Horizonte, e têm ascendência indiana, além de outros sete trabalhadores de saúde.

Caminhões saíram da Fiocruz durante a tarde para levar os dois milhões de doses do imunizante de Oxford/AstraZeneca para um armazém do Ministério da Saúde, em Benfica, no Rio de Janeiro, para ser dividido para envio aos estados.

Presidente da Fiocruz, Nísia Trindade recomendou que todas as doses que chegaram ao Brasil neste lote sejam utilizadas logo, uma vez que a segunda dose desta vacina pode ser aplicada até três meses após a primeira.

A Fiocruz depende da chegada de ingredientes farmacológicos ativos (IFA) para iniciar a produção nacional da vacina. Atrasos na entrega desses insumos, que devem ser importados da China, fizeram com que a fundação adiasse a previsão de entrega das primeiras doses produzidas no Brasil.

— A preocupação com a chegada do IFA está nos consumindo. A perspectiva é de receber por volta do dia 8 de fevereiro, mas ainda não temos uma data definida. Essa questão passa por muitas etapas e não sabemos quanto tempo pode levar. A expectativa era que fosse um período mais curto — afirmou Nísia Trindade.

A presidente da Fiocruz também afirmou estar analisando com a AstraZeneca a possibilidade de entrega de mais doses prontas “para que esse gap seja superado”.

— A princípio (as doses) viriam do Instituto Serum, na Índia, mas também pode vir de outros locais, porém nesse caso precisaria de uma nova submissão (de uma autorização da Anvisa para o uso emergencial) — afirmou.

A expectativa no momento, segundo a Fiocruz, é que entre fevereiro e março tenham mais doses prontas para serem disponibilizadas.

Mauricio Zuma, diretor de Bio-Manguinhos, afirmou que o acordo com a AstraZeneca estabelece o recebimento de insumos suficientes para produção de 15 milhões de doses por mês, que devem ser entregues em dois lotes.

— Estamos discutindo a possibilidade de acelerar a chegada dos próximos lotes porque teremos mais capacidade de produção do que esse cronograma que está estabelecido. Se pudermos receber mais IFA vamos poder produzir vacinas mais rápido — afirmou Zuma.

O acordo prevê a entrega de IFA pela AstraZeneca em quantidade suficiente para produzir 100,4 milhões de doses até julho. Além disso, inclui a transferência de tecnologia que possibilitará a produção do insumo no país: a partir de abril, a Fiocruz quer produzir o IFA nacionalmente. A previsão total é que a fundação entregue ao Ministério da Saúde 210 milhões de doses da vacina de Oxford/AstraZeneca até o final de 2021.