Quarentena na Itália para conter coronavírus ignora moradores de rua

 Lucas Ferraz, especial para O Globo

ROMA — Na emergência italiana do coronavírus, com o país em confinamento geral há nove dias, Roberto Mariani caminhava nos arredores de um deserto Vaticano com resignação:

— Quem não tem casa vai fazer o quê?.

Ele é um dos 50 mil moradores de rua da Itália, população excluída do decreto editado pelo governo no último dia 9, intitulado com o imperativo “io resto a casa” (eu fico em casa), lema da quarentena nacional em vigor pelo menos até 3 de abril. Com a decisão emergencial, os sem-teto — 60% deles são estrangeiros — tornaram-se um dos grupos mais visíveis nos últimos dias nas ruas e praças das maiores cidades do país.

Como a maioria das estimadas oito mil pessoas que não têm uma habitação em Roma, Mariani, 70 anos, segue dependendo dos serviços oferecidos pela Igreja Católica. Ele dorme embaixo das pilastras nos arredores da praça São Pedro, sede da Santa Sé, um pontos de acolhida da cidade.

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A restrição social contra o coronavírus prevê a circulação nas ruas somente por motivo de saúde ou trabalho. Há bloqueios e os deslocamentos precisam ser justificados por meio de autorização, sob pena de multa. Só serviços considerados essenciais, como supermercados e farmácias, estão abertos, todos com filas.

O decreto que fechou a Itália não toca no assunto dos sem-teto. Algumas estruturas do Estado voltadas para essa população mantiveram o atendimento, como o oferecido pela prefeitura de Roma, e por instituições como a Comunidade de Santo Egídio, que tem presença nacional.

Na capital italiana, pelo menos três dos oito mil sem-teto dormem propriamente nas ruas — os demais são acomodados em dormitórios ou igrejas. Em Milão, na região da Lombardia, epicentro da difusão do vírus na Itália, alguns centros fecharam. Um morador de rua chegou a ser multado por desrespeitar o decreto em vigor, e uma organização milanesa afirmou que eles estavam sem saber para onde ir — situação de umas 300 pessoas na cidade.

A emergência do coronavírus e o atendimento aos mais vulneráveis provocou debates e reviravoltas na cúpula da Igreja em Roma. A Diocese da cidade, seguindo o decreto do governo, determinou o fechamento de todas as igrejas e paróquias.

Segundo o professor de história da Universidade Pontifícia Gregoriana, Roberto Regoli, era a primeira vez que isso acontecia desde que o imperador Constantino legalizou o cristianismo, no ano de 313. Missas, casamentos e funerais já estavam suspensos antes mesmo da publicação da nova norma, mas a diocese indicava numa diretriz interna que era vetado inclusive as orações individuais dentro das igrejas.

O cardeal polonês Konrad Krajewski, que tem o título oficial de “esmoleiro-pontifício” e coordena a caridade vaticana, protestou no dia seguinte à decisão. Próximo do papa Francisco, ele admitiu o “ato de desobediência” ao abrir a igreja sob sua responsabilidade no centro de Roma, próxima à estação Termini, outro ponto que concentra muitos moradores de rua.

Krajewski ressaltou que sua decisão baseava-se no sacramento e lembrou que as igrejas não fecharam nem durante o fascismo na Itália, nem no seu país natal durante os anos de dominação soviética. E pediu coragem aos padres.

— Para eles [os sem-teto] é muito difícil. Não tem bar aberto, não tem gente na rua que eventualmente ajudá-los com comida ou esmola. São os mais frágeis nessa situação — afirmou o cardeal polonês.

No mesmo dia da sua insubordinação, a Diocese romana voltou atrás e liberou a abertura das igrejas.

Após o episódio, no domingo, o Papa Francisco circulou pelas ruas desertas de Roma. Ele saiu do Vaticano para rezar em duas igrejas da cidade pelo fim da pandemia do coronavírus. Em uma delas, na via del Corso, no centro, Francisco rezou de frente a um crucifixo considerado milagroso em 1522, quando terminou o que ficou conhecido como a “Grande Peste de Roma”. Seu gesto foi interpretado como um apoio à abertura das igrejas aos fiéis e à população de rua durante a atual emergência.

Robin Hood do Papa

Já nomeado pela imprensa italiana como o Robin Hood do Papa Francisco, o cardeal Krajewski é o responsável pelo serviço oferecido aos moradores de rua ao lado das colunas da Praça de São Pedro. Ele também participa da distribuição de alimentos em outros pontos de Roma e, como ex-eletricista, já fez até um gato na energia de um prédio ocupado.

Na estrutura do Vaticano há banheiros, entrega de roupas e comida, além de serviço farmacêutico. Um dos auxiliares da equipe do cardeal é o brasileiro Zaqueu Duarte, que já viveu na rua e hoje cuida da limpeza das duchas.

Instituições como Santa Egídio e Cáritas ampliaram atendimento nos últimos dias para quem vive na rua, especialmente os idosos, grupo de risco e maioria dos mortos relacionados à Covid-19 na Itália. As instituições afirmam que suas estruturas estão sobrecarregadas, ressaltando que grupos como os ciganos e os idosos que vivem sozinhos também precisam de assistência no atual momento por causa das precárias condições de higiene. Elas ainda oferecem atendimento psicológico aos sem-teto.

Segundo voluntários, muitos deles estão perdidos sem entender o motivo do confinamento geral.

— O problema do morador de rua não é a pobreza, é a ignorância — afirmou Elia Mokbel, 67 anos, que esperava ser chamado para o banho na fila do Vaticano na última terça-feira.

De máscara, ele reclamava dos colegas que desconhecem ou não tomavam nenhuma medida de proteção contra o vírus. Nascido no Líbano mas criado em Roma, Mokbel conta que pelo menos pode contar nestes dias com a garagem cedida por um amigo, onde dorme. Já Roberto Mariani, também na fila do banho, disse que passou a dar valor às “coisas do cotidiano que parecem corriqueiras”, como entrar num bar ou ganhar refeições dos donos de restaurantes e dos turistas.