Quarentenas ainda não foram suficientes para conter coronavírus no Brasil, indica estudo

ANA ESTELA DE SOUSA PINTO
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 25.03.2020 - Ladeira Porto Geral, que costuma ficar lotada, fica vazia durante quarentena em São Paulo. (Foto: Gabriel Cabral/Folhapress)

BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) - As medidas de distanciamento físico para combater a pandemia no Brasil tiveram algum efeito mas ainda não foram suficientes para controlar a transmissão do coronavírus no país, mostra um estudo divulgado nesta sexta (8) pelo Imperial College.

Segundo um dos autores do estudo, o matemático Henrique Hoeltgebaum, "é esperado um colapso na capacidade hospitalar de alguns estados" se o padrão observado no país for mantido.

Um dos principais indicadores de controle da transmissão é o número de reprodução (Rt), que indica para quantas pessoas cada infectado com o coronavírus transmite a doença. Se esse número está acima de 1, a velocidade de contágio é crescente: cada contaminado passa o coronavírus a mais de uma pessoa, que por sua vez também a espalha para mais de uma pessoa, acelerando a infecção.

A pesquisa, assinada por 59 pesquisadores do Centro de Análise Global de Doenças Infecciosas (MRC), estima que as intervenções reduziram a mobilidade no Brasil em 29%, o que provocou uma queda de 54% no Rt, insuficiente para conter a expansão acelerada da doença.

Como comparação, estudos feitos na Itália mostraram que a quarentena reduziu a mobilidade em 53% e a Rt em 85%, levando o indicador significativamente abaixo de 1.

No Brasil, esse número chegou a ser de 2,81 no final de abril (ou seja, cada brasileiro passava o coronavírus para quase 3 pessoas), segundo as previsões de curto prazo feitas pelo instituto. Na previsão até o começo desta semana, o número era 1,49.

O trabalho publicado nesta sexta-feira analisou 16 estados com números de mortes suficientes para gerar resultados estatísticos confiáveis. Em todos eles, o R está acima de 1: o menor indicador é o de Santa Catarina, com 1,14 (variando de 0,91 a 1,38), e o maior, o do Pará, com 1,90 (de 1,57 a 2,31).

"Na ausência de intervenções importantes adicionais, um crescimento substancial

da epidemia é esperado em todos os 16 estados brasileiros considerados, levando ao agravamento da crise da saúde pública", diz o texto.

São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará, Pernambuco e Amazonas concentram 81% das mortes no país. Entre esses cinco, o MRC calcula que São Paulo tem a menor porcentagem de população infectada: 3,3% (de 2,8% a 3,7%, com intervalo de confiança de 95%). A maior parcela de infectados está no Amazonas: 10,6% (podendo variar de 8,8% a 12,1%).

Embora não seja uma conclusão direta do estudo, os cálculos indicam que o número de infectados nos 16 estados analisados corresponde a 38 vezes o de casos confirmados oficialmente: pelas contas do Imperial College, havia até esta quarta (6) 4,2 milhões de infecções totais no Brasil, que teve seu primeiro caso relatado em 25 de fevereiro e se tornou epicentro da doença na América do Sul.

Pelos números oficiais, há mais de 135 mil casos confirmados e 9.000 mortes. O número de infecções dobrou nos últimos dez dias.