Quarto improvisado em ponto de ônibus é desfeito. Prefeitura não sabe paradeiro de moradora

Diego Amorim
Quarto de Carmem estava montado até ontem de manhã no ponto final da linha 712

No início da noite de quarta-feira, a Secretaria municipal de Ordem Pública (Seop) informou ao EXTRA que a mobília da moradora de rua Carmem — que havia improvisado um quarto com cama, poltrona, cômoda, tapete, lixeira e até vaso de flor em um ponto de ônibus de Cascadura, na Zona Norte do Rio — foi removida, e o local, limpo pela Comlurb.

Questionada sobre o paradeiro da travesti de 37 anos que há um mês havia “fixado residência” sob o abrigo, a Secretaria municipal de Assistência Social e Direitos Humanos (SMASDH) chegou a informar que ela teria ido para um abrigo. O que, em seguida, foi negado. Até a noite de quarta, não se sabia o paradeiro de Carmem, que pela manhã já havia recusado acolhimento oferecido por agentes da SMASDH.

— Não quero nada por caridade, por pena. Quer me dar alguma coisa? Me dê um emprego para eu ter de volta a minha dignidade, como dizia minha mãe — pediu a moradora em situação de rua.

A travesti — registrada ao nascer como Luiz Rodrigo de Noronha — é a dona do quarto improvisado sob o abrigo de um ponto de ônibus na Praça Nossa Senhora do Amparo, em Cascadura, flagrado pelo EXTRA.

— Você tem que se amar, cuidar de si mesma. Não importa se está na rua ou em outro lugar. Quero me virar por conta própria. Não é exibicionismo para as pessoas verem e tirarem fotos. Só tento oferecer o melhor para mim, o que está a meu alcance. Não sofro por esperar minha quentinha chegar ou por precisar de uma ajuda — diz a travesti, que tem o vírus HIV e já trabalhou como diarista e faxineira.

Carmem nasceu em Belém, no Pará. No Rio, estudou até o ensino médio, mas não chegou a concluir. Há cerca de dez anos, diz ela, desavenças familiares a levaram para a rua. O pai, que não aceitava a filha travesti, foi o principal motivo.

— Meu pai é capitão do Exército e nunca aceitou o meu estilo de vida. Mas não o julgo, sei que a mente é de outra geração.

Quarta-feira pela manhã, uma equipe da Secretaria municipal de Assistência Social e Direitos Humanos (SMASDH) esteve no local para oferecer acolhimento, mas Carmem recusou. Os agentes chegaram conversaram com ela por cerca de 15 minutos.

— Abrigos de prefeitura, em qualquer lugar, são malcuidados. Não é todo mundo que sabe lidar com homossexuais, então, eu prefiro ficar na rua. Lá (no abrigo), é briga toda hora. De repente você está dormindo, e alguém pode tentar abusar de você — diz Carmem.

Aos agentes da SMASDH, ela garantiu que iria a um Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) para atualizar o cadastro do Bolsa Família. A Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual em nota, diz que acompanha a história da travesti, após encontro ontem à tarde, e que a convidou para o projeto Trans+Respeito, que oferece capacitação profissional para transexuais.

Em nota, a SMASDH informou que Carmem é acompanhada desde 2016 pelo Creas de Madureira, mas que nunca aceitou acolhimento.