Quase 60% dos trabalhadores franceses com menos de 29 anos sofrem de esgotamento mental

© iStock/Rowan Jordan

A saúde mental dos trabalhadores franceses não vai nada bem. Uma pesquisa recente mostra que 41% dos assalariados estão em situação de estresse psicológico. E quase 60% dos assalariados com menos de 29 anos sofre de esgotamento mental.

De acordo com o instituto de pesquisa OpinionWay, são dois os principais motivos que vêm prejudicando a saúde mental dos franceses: a pandemia de Covid-19 e a queda do poder aquisitivo. À preocupação com a crise sanitária se adicionaram as consequências da guerra na Ucrânia, responsável pela disparada da inflação e dos preços.

Um terço dos trabalhadores franceses diz que enfrenta dificuldades para conseguir terminar o mês com o salário que recebem. Para 22% deles o sentimento é ainda mais pessimista, com o temor de cair na pobreza e não conseguir mais viver dignamente.

Os trabalhadores com menos de 29 anos são os que mais sofrem: 59% afirmam viver um esgotamento mental. Um estudo do grupo de proteção social Malakoff Humanis apona que a pandemia teve um impacto particular para essa faixa etária. Não é à toa que 44% dos empregados com menos de 29 anos afirmam que a saúde mental piorou nesses últimos dois anos devido ao contexto profissional e 67% reclamam da intensidade e do tempo de trabalho.

Outro grupo que expressa sua dificuldade à adaptação ao "novo normal" são os chefes, que exercem funções liderança dentro das empresas. A mesma pesquisa do instituto OpinionWay mostra que 43% dos trabalhadores que exercem funções de gerenciamento de equipes apresentam sintomas de esgotamento mental ou depressão. Um terço dos trabalhadores que foram elevados a uma posição de chefia durante a crise sanitária se arrepende de ter aceito a promoção.

Home office se tornou prioridade

A pandemia de Covid-19 parece também estar incitando uma nova organização do mercado. De acordo com uma pesquisa do institut ADP, especializado em estudos sobre performance dos empregados e mundo do trabalho, o home office se tornou uma prioridade para muitos assalariados. Após ter entrevistado 15 mil pessoas na Europa, a pesquisa apontou que 65% entre elas deixariam seus empregos caso tivessem que voltar integralmente para o trabalho presencial.

O jornal francês Le Figaro fez uma vasta reportagem sobre este assunto e entrevistou jovens de diversos setores na França que dizem que não imaginam trabalhar em uma empresa que não lhes ofereça a possibilidade do home office. Franceses que acabam de entrar no mercado e que estão em busca de emprego dizem que descartam as empresas que não oferecem essa opção.

Os sociólogos confirmam esse fenômeno que já vinha sendo observado aqui na França nos últimos anos e se reforçou durante a pandemia de Covid-19. Para eles, o trabalho está perdendo o espaço central na vida dos indivíduos, que vêm dando mais importância a outras esferas da vida, como a família e o lazer.

Burn-out: 2,5 milhões de casos na França

A França registra hoje 2,5 milhões de casos de burn-out severo nas empresas: três vezes mais do que antes da pandemia de Covid-19. Também chamado de "síndrome do esgotamento profissional", seus sintomas são cansaço extremo em nível mental, emocional e físico relacionado ao emprego, geralmente devido à sobrecarga, o que implicaria na incapacidade de trabalhar.

Embora o burn-out não seja oficialmente registrado como uma doença, desde 2015 patologias psíquicas podem ser reconhecidas como doenças relacionadas ao trabalho.

Nos últimos anos, as empresas francesas vêm registrando um aumento da quantidade de atestados de saúde devido ao stress, ao esgotamento mental e à depressão. No último mês de março, doenças relacionadas à saúde mental eram a segunda causa de afastamento do trabalho, ficando atrás apenas dos atestados devido à Covid-19.

Além disso, 70% dos estudantes franceses estão em situação de "mal-estar". É o que diz uma pesquisa realizada pelo instituto francês CSA, divulgada há alguns dias. Eles relatam principalmente sinais de depressão e pensamentos suicidas.

Crise climática

Dois terços dos estudantes da França expressam seu pessimismo em relação à sociedade francesa e ao futuro. Eles justificam esse sentimento com a preocupação relacionada às mudanças climáticas, às dificuldades financeiras enfrentadas por eles e pelas famílias e à pandemia de Covid-19, que levou muitos jovens a interromper os estudos e a cortarem as relações sociais durante longos períodos nesses últimos dois anos.

O jornal Libération publicou recentemente uma reportagem sobre as consequências da pandemia a uma parcela da população ainda mais jovem, adolescentes de 11 a 17 anos. Os pedopsiquiatras entrevistados pelo diário falam em "uma pandemia silenciosa", com um forte aumento de suicídios registrado nesta faixa etária.

Os serviços psiquiátricos dos hospitais franceses registram uma onda de jovens com gestos suicidas: um salto de mais de 50% em 2021 em relação à 2018 e 2019 na faixa etária de 11 a 14 anos. Os especialistas falam que essa falta de esperança desses jovens em relação ao futuro se agravou durante a pandemia, mas se reforça diante da vivência dos problemas gerados pelas mudanças climáticas e também o clima de ansiedade que se instalou na Europa devido à guerra na Ucrânia.

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