Quase metade da população adulta mais pobre de SP já teve Covid

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na cidade de São Paulo, quase metade (47%) da população acima de 18 anos que mora nos distritos mais pobres já teve Covid e desenvolveu anticorpos específicos contra o coronavírus.

Esse percentual é 11% maior do que o encontrado na população que vive nos distritos mais ricos (36%).

A proporção é semelhante à observada na comparação entre indivíduos que se declaram pretos ou pardos e os brancos (48,4% contra 35%), fator já evidenciado nas pesquisas sorológicas passadas e que indica maior risco dessa população frente ao vírus.

A média da população adulta que apresenta anticorpos no sangue contra o Sars-CoV-2 é de 41,6%, ou aproximadamente 3,5 milhões de pessoas. Os dados são da sexta fase do estudo conduzido pelo Grupo Fleury na cidade para mapear a parcela da população que já teve a doença.

Na etapa anterior, realizada em janeiro, a parcela da população com anticorpos era de 29,9%, representando um aumento de 11,7 pontos percentuais.

O estudo de mapeamento sorológico da população adulta do município utiliza dois tipos de teste a fim de localizar no sangue anticorpos específicos para o coronavírus. Um deles busca os anticorpos IgM (produzidos no início da infecção) e IgG (de memória); o outro, anticorpos totais (não discriminados).

Houve uma clara mudança do perfil etário de contaminados pela Covid-19 na cidade de São Paulo de janeiro para maio.

Na etapa anterior, cerca de 19,9% da população acima de 60 anos já tinha contraído a doença e a diferença maior era com relação à população de 18 a 34 anos (33%).

Nesta nova medição, a doença deu um salto na população de 35 a 44 anos, que representa mais da metade (51,3%) da população com anticorpos, frente a 36,2% dos indivíduos com mais de 60 anos. Entre os mais jovens, o número encontrado é de 41,5%.

Pela primeira vez a pesquisa mediu também a taxa de anticorpos dos imunizados (45,7%) em relação aos não imunizados (40,8%), embora os resultados não sejam estatisticamente significativos --uma vez que grande parte da população com mais de 18 anos em São Paulo ainda não foi vacinada.

A nova fase da pesquisa apontou ainda para um estreitamento entre os indivíduos com anticorpos para Covid de baixa (até fundamental completo) e média (médio completo) escolaridade que, em geral, ficam muito próximos (45,2% e 48%, respectivamente). Esse valor representa o dobro do número de infectados com o superior completo (24%).

Um dado inédito nessa etapa é o de aumento da transmissão intradomiciliar. Se, nas etapas anteriores, não havia uma diferença estatisticamente significativa entre os contaminados que moram em residências com um ou duas pessoas frente àqueles que dividem a casa com cinco ou mais habitantes, os novos resultados apontam para um aumento de 1,4 vezes da incidência da Covid nas casas mais populosas.

É importante destacar também que, desde a última fase, o número de casos confirmados no município de São Paulo saltou de 578.224 (contabilizados até o dia 4 de janeiro, quando se encerrou a quinta etapa do estudo) para 1.052.190 (até o dia 1º de maio), um aumento de 1,8 vezes.

Nesse período também teve início a campanha de vacinação no país. No entanto, a circulação do vírus continuou acelerada, sendo mais rápida do que o ritmo da vacinação. No período da coleta dos dados, apenas 16,3% da população adulta da cidade já havia recebido uma dose de imunizante.

Segundo Fernando Reinach, biólogo e professor titular de bioquímica na USP e pesquisador principal do estudo, nos últimos três meses, houve 1 milhão de pessoas contaminadas, enquanto 1,5 milhão de pessoas recebeu a vacina.

"O número de pessoas que não teve contato com o vírus previamente e que foi vacinada é por volta de 80% dos novos casos. Ou seja, nesse período, o vírus infectou mais pessoas do que a vacina", diz.

Uma das limitações do estudo é quanto à população acima de 60 anos. Sendo esta a principal faixa já vacinada na cidade, não é possível determinar se os anticorpos identificados são em decorrência da vacinação ou de infecção prévia, uma vez que o teste não busca os anticorpos neutralizantes produzidos pela vacina.

Para Celso Granato, diretor médico do Grupo Fleury, a maior presença e circulação da variante P.1 do coronavírus na cidade nos últimos meses também afetou o índice de pessoas com anticorpos no sangue, principalmente na faixa etária de 35 a 44 anos.

"Os cuidados da população estão diminuindo, e isso observamos empiricamente pelo aumento de casos nessa faixa etária, aliado a uma forma do vírus mais transmissível."

A partir da prevalência encontrada, de 41,6%, estima-se que 3,5 milhões de indivíduos com idade acima de 18 anos da capital possuam anticorpos para o vírus (ou, considerando a população adulta de 8,4 milhões, 4 em cada 10 indivíduos).

Até esta quarta-feira (19), o município de São Paulo registrou 1.114.473 casos confirmados de Covid-19. Esse número é menos do que um terço do detectado pelo estudo de prevalência. Com relação à etapa anterior da pesquisa, houve um aumento de 1 milhão de novos indivíduos estimados com anticorpos contra o vírus.

Os dados são superiores à prevalência encontrada no último estudo da prefeitura de São Paulo, que apontou 1 em cada 3 indivíduos contaminados em São Paulo ou 33,5% da população adulta.

Estudos de soroprevalência são importantes para saber qual a parcela da população que já foi infectada pelo vírus e, não tendo apresentado sintomas, não buscou atendimento hospitalar para fazer exame de diagnóstico do vírus, como o RT-PCR.

Nesta nova fase, a pesquisa do SoroEpiSP dividiu a cidade em 160 setores censitários. Em cada um deles, foram sorteadas oito residências aleatoriamente, que depois poderiam aceitar ou não participar do estudo.

Em cada residência participante, uma equipe formada por enfermeiros do laboratório Fleury e pesquisadores do Ibope fazia um questionário com os moradores da casa e colhia sangue de todos os adultos.

Foram colhidas 1.187 amostras de sangue de indivíduos maiores de 18 anos, entre os dias 22 de abril e 1º de maio.

O inquérito sorológico é uma iniciativa do Grupo Fleury em parceria com a ONG Instituto Semeia e o Ibope Inteligência e tem apoio financeiro do Todos pela Saúde. Conta ainda com colaboração da Escola Paulista de Medicina, Faculdade de Saúde Pública da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).