'Quase morri', conta Leo Gandelman, que volta aos palcos após se recuperar de doença

Silvio Essinger
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O projeto Quadrilátero — com uma série de shows com público que se inicia hoje, no Centro Cultural Banco do Brasil — não marca apenas a volta aos palcos de um grupo de músicos que estavam isolados, em casa, por causa da pandemia de Covid-19. Ele também promove uma espécie de renascimento para o saxofonista, arranjador e produtor Leo Gandelman, de 64 anos, que é curador e anfitrião dos espetáculos. Em fevereiro do ano passado, Leo foi internado com diverticulite e septicemia (“quase morri”, conta) e acabou iniciando sua quarentena antes mesmo do lockdown.

O exílio de um ano, o músico interrompeu esta segunda-feira, no ensaio do show que será apresentado hoje, com os percussionistas Pretinho da Serrinha, Marcelo Costa, Marcos Suzano e Robertinho Silva. A emoção de voltar a tocar em grupo, depois de tanto tempo, segundo ele, não tem preço. Ou melhor: tem, o preço da constante autovigilância.

— Esses shows vão ter plateia, mas é só 30% da capacidade do teatro, com todo o distanciamento. É uma situação incomum. Ao mesmo tempo em que existe aquela alegria com a volta ao exercício da profissão, há o medo de a gente saber que está se arriscando — admite Leo, que pela idade é do grupo de risco para a Covid-19. —Esta é uma fase muito sofrida para todos que trabalham com shows, que foram os primeiros a parar. Tem gente que está fazendo festa em laje, mas não vamos nem falar nisso!

Projeto que teve sua primeira versão em 2012, no CCBB, o Quadrilátero volta em uma série de quatro espetáculos, sempre às quartas-feiras: o de percussões, o de saxofones (dia 3 de março, com Leo, Mauro Senise, Zé Carlos Bigorna, Nivaldo Ornellas), cordas dedilhadas (no dia 10, com Rogério Caetano, Luis Barcelos, João Camarero, Henrique Cazes) e cordas de arco (em 17/3, com Janaina Salles, Carla Rincon, Inah Kurrels e Jocelynne Huiliñir Cárdenas). A partir de junho, os shows seguem para São Paulo, Belo Horizonte e Brasília.

— A ideia é que cada músico se mostre primeiro como solista, depois o grupo se reúne para tocar e eu entro no final para fazer uma participação especial com cada quarteto — explica o curador, que faz os ensaios com cada grupo de músicos na semana da apresentação. — O primeiro ensaio foi uma festa, são músicos que vêm de caminhos diferentes, mas que se admiram muito. O Suzano tem um trabalho muito especial de pandeiro e percussão eletrônica, o Pretinho chega com todos os ritmos do Rio de Janeiro, o Robertinho representa os ritmos brasileiros no mundo e o Marcelo traz uma escola de percussão muito original. No final vai rolar uma jam session, uma viagem de tambores e sons.

Músico que se desdobra no audiovisual, com a sua produtora Sax Driver, Leo Gandelman espera agora a retomada dos programas de TV sob sua batuta, o “Vamos tocar” e o “Hip hop machine”, ambos no canal Bis. Na manga, ele tem mais uma série em produção: “O som delas”, para o canal Music Box, em que conversa e toca com os grandes talentos femininos da música brasileira. Não vem de hoje a sua ligação com a telinha.

— Eu fiz o tema da Odete Roitman (vilã da novela “Vale tudo”, de 1988, reprisada atualmente pelo Globoplay)! Toda vez que ela fazia maldade, tocava a minha música. Isso popularizou muito meu trabalho, foi ali que comecei a ser conhecido do grande público — conta ele, que tem planos de comemorar os 30 anos de lançamento de “Solar” (1990), seu LP de maior sucesso. — Vou promover um concurso virtual, o “Solar, 30 anos”. Disponibilizo as bases e as partituras, e quem fizer o melhor trabalho em cima delas ganha aulas particulares comigo. Esse disco influenciou toda uma geração de saxofonistas.

Onde: Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Primeiro de Março, 66, Centro (3808-2020). Quando: Dia 23, e dias 3/3, 10/3 e 17/3, às 18h.

Quanto: R$ 30 (à venda através do site Eventim). Classificação: Livre