Quase oito milhões correm risco de sofrer insegurança alimentar na América Latina, diz Cepal

A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) fez, nesta segunda-feira, um alerta sobre os impactos do baixo crescimento das economias regionais sobre a população, apontando para o risco de quase oito milhões de pessoas passarem a enfrentar um cenário de insegurança alimentar, e para um avanço considerável dos índices de pobreza.

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De acordo com relatório publicado nesta segunda-feira, em Santiago, a região enfrenta, como um todo, um complexo cenário de desaceleração econômica, de inflação em alta e de uma “lenta e incompleta recuperação dos mercados de trabalho”, um quadro que foi intensificado pela guerra na Ucrânia.

O impacto mais direto é visto nas mesas da população: segundo a Cepal, 7,8 milhões de pessoas podem sofrer de segurança alimentar — que, segundo a definição da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, acontece quando uma pessoa tem dificuldades para obter, ou não obtém, “alimentos suficientes para atender necessidades energéticas diárias e preferências alimentares para levar uma vida ativa e saudável” . Elas se juntariam as 86,4 milhões de pessoas que vivem nesta condição nos países da América Latina e Caribe.

— E isso é só se levarmos em conta a inflação e o crescimento. Se considerarmos que a crise atinge bem mais as mulheres, os setores informais e o fato de não haver recursos para ações sociais, então o impacto pode ser ainda maior — disse, o secretário-geral interino da Cepal, o argentino Mario Cimoli.

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Durante a apresentação do relatório, Cimoli declarou que essa não é uma situação isolada ou relacionada a um fato único, como a guerra na Ucrânia. Para ele, é uma combinação de uma série de crises “acumuladas”, citando o crash de 2008-2009, as recentes tensões econômicas entre EUA e China e, nos últimos três anos, a pandemia da Covid-19.

Neste cenário, a previsão da Cepal é de que 33,7% dos habitantes se encontrarão em situação de pobreza até o final de 2022 (alta de 1,6 ponto percentual em relação ao previsto para 2021). No caso da pobreza extrema, ela chegaria a 14,9%, 1,1 ponto percentual a mais do que em 2021 e 4,5 pontos percentuais a mais do que em 2018.

“Esse resultado reflete o forte aumento do preço dos alimentos. Esses níveis são notoriamente superiores aos observados antes da pandemia e implicam outro retrocesso na luta contra a pobreza”, afirma a Cepal, em comunicado, alertando que esses números podem ser ainda maiores caso haja novas altas inflacionárias. Pela previsão atual, a taxa anualizada para a região deve ficar em 8,1%.

Desaceleração

O baixo crescimento também deverá ser um problema para eventuais ações de combate à pobreza: após o avanço médio de 6,3% no PIB regional em 2021, primeiro ano de retomada depois do início da pandemia, é esperado um crescimento bem mais modesto em 2022, de 1,8%, segundo projeções feitas no mês passado.

“Retornaríamos assim ao padrão de um crescimento muito lento, que prevaleceu entre 2014 e 2019”, diz o relatório, que aponta para os diferentes ritmos de crescimento na região. O Caribe, por exemplo, espera crescimento médio de 10,1%, enquanto a América Central deve avançar 4,2% e a América do Sul apenas 1,5%.

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Como forma de mudar esse quadro, a Cepal defende medidas amplas para o fortalecimento das receitas públicas, o uso de ferramentas para conter a inflação, incluindo a taxa de juros, “minimizando seus efeitos negativos sobre o crescimento e o investimento”. A Comissão, ligada às Nações Unidas, sugeriu ainda que os países não restrinjam o comércio de alimentos e fertilizantes, como uma das formas de garantir a segurança alimentar, especialmente da população mais vulnerável.

— Diante da regionalização da economia mundial, a região não pode mais continuar atuando de forma fragmentada. É necessário aumentar o papel da articulação regional nas respostas à crise: formular e implementar as respostas da América Latina e Caribe em seu conjunto ou em seus blocos de integração — concluiu Cimoli.

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