Quase um quarto das famílias dependeu de programas sociais como auxílio emergencial em 2020, mostra IBGE

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Em meio à pandemia, o aumento do desemprego e a necessidade de programas de transferência de renda mudaram o perfil do rendimento dos lares brasileiros. É o que aponta a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do IBGE, divulgada nesta sexta-feira.

A proporção de domicílios que recebeu renda de programas sociais, como o auxílio emergencial, saltou de 0,7%, em 2019, para 23,7%, quase um quarto dos lares do país, em 2020. O aumento foi registrado em todas as regiões, com destaque para o Norte (de 0,5% para 32,2%) e Nordeste (de 0,8% para 34,0%).

Em paralelo ao aumento da dependência de benefícios sociais, a saída de 8,1 milhões de pessoas do mercado de trabalho no ano passado levou o número de brasileiros com renda oriunda do trabalho a cair para 40,1% da população com idade de 14 anos ou mais, o menor patamar desde 2012, quando foi iniciada a série.

Já a quantidade de pessoas que recebeu renda de outras fontes - como aposentadoria, pensão, aluguel, seguro-desemprego e programas sociais do governo - chegou a 28,3%, o equivalente a 59,7 milhões. O pagamento do auxílio emergencial foi o que puxou o avanço, segundo o IBGE.

O contingente de pessoas que recebeu recursos de algum programa social, como o Bolsa Família e o auxílio emergencial, ou seguro-desemprego saltou de 16,4 milhões em 2019 para 30,2 milhões (14,3%) no ano passado.

— O mercado de trabalho sofreu (ano passado). Com menos gente tendo renda do trabalho, que em geral é a principal fonte de renda das famílias, o auxílio emergencial foi um colchão para que as pessoas sentissem menos os efeitos da pandemia — diz Alessandra Brito, analista de pesquisa do IBGE.

A renda proveniente da aposentadoria ou pensão, que obtinha o maior peso dentro da categoria de outras fontes desde 2012, foi ultrapassado em 2020 pelo segmento que abarca os programas sociais, como o auxílio emergencial.

Apenas 12,4% da população obtiveram renda da aposentadoria ou pensão no ano passado, uma queda frente os 13% em 2019.

A parcela da população que obteve renda advinda de aluguel ou arrendamento caiu de 2% em 2019 para 1,3% em 2020. Já o contigente de brasileiros com renda oriunda de pensão alimentícia ou doação caiu de 2,5% em 2019 para 1,7% em 2020.

Na região Nordeste, a dependência de programas de transferência de renda do governo foi ainda maior para compensar a queda da renda do trabalho.

A região amargou o menor percentual (32,3%) de população residente com renda proveniente do trabalho, seja informal ou formal. No Sul, quase metade da população (46%) conseguiu obter renda oriunda do trabalho.

O Nordeste também foi a primeira região do país a registrar um percentual superior de renda advinda de outras fontes, como programas sociais (32,8%) frente o rendimento do trabalho (32,3%). Historicamente, a renda do trabalho é a principal fonte de renda das famílias em todo o país.

Apesar da menor participação da renda do trabalho para compor o rendimento dos lares brasileiros, a desigualdade de renda domiciliar per capita no ano passado apresentou queda histórica.

Segundo o IBGE, o Índice de Gini do rendimento médio domiciliar per capita, que vinha crescendo desde 2016, passou de 0,544 em 2019 para 0,524 em 2020. No índice, quanto mais perto de 1 maior a desiguadade.

O indicador caiu em todas as regiões, sobretudo no Norte e Nordeste, onde o auxílio emergencial atingiu maior proporção de domicílios.

A analista da pesquisa Alessandra Brito explica que, apesar de a notícia parecer positiva, o movimento de redução da desigualdade ocorreu porque todos os domicílios perderam renda, sendo que a metade da população com os menores rendimentos pôde compensar perdas com o auxílio.

— O auxílio foi como um colchão para a desigualdade não piorar. Mas a gente teve uma melhora porque todo mundo perdeu, não porque as pessoas estão ganhando. É uma notícia que parece boa mas não é tão boa.

Os resultados da pesquisa levam em conta a reponderação realizada na Pnad Contínua. A pesquisa foi recalibrada com o objetivo de mitigar os impactos da coleta por telefone, e passa a considerar os totais populacionais por sexo e grupo etário com projeções populacionais baseadas em dados Censo 2010.




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