Quatro milícias do Rio têm a participação de CACs que atuam como cobradores e até matadores

Em 24 de julho de 2020, ao checar denúncias de que milicianos estavam cobrando “taxa de segurança” de moradores e comerciantes no bairro Vilar dos Teles, em São João de Meriti, agentes da Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF) prenderam Thiago Gutemberg de Almeida Gomes, o Curisco, que estava armado, ao volante de um Hyundai Creta clonado. Para tentar se livrar das acusações de integrar a milícia e de porte ilegal de arma, ele disse à Justiça que comprou a pistola calibre .380 de forma legal: o homem, apontado pela polícia como principal cobrador da milícia, tinha um certificado de registro da arma emitido pelo Exército e integrava a categoria dos Caçadores, Atiradores e Colecionadores, os CACs.

Um levantamento feito pelo GLOBO em processos que tramitam no Tribunal de Justiça do Rio revela que milícias que atuam em quatro cidades do Estado do Rio têm CACs entre os seus integrantes. Além de São João de Meriti, grupos paramilitares que dominam regiões de São Gonçalo e de Itaboraí e o Morro do Quitungo, na Zona Norte da capital, também têm colecionadores de armas e atiradores desportivos em suas fileiras. Desde 2018, foram identificados sete CACs acusados ou condenados por integrar milícias. Nas quadrilhas, eles desempenham as funções de cobrador, armeiro, fornecedor de munição e até de matador, responsáveis por assassinar desafetos de seu bando.

No celular apreendido com Curisco no dia de sua prisão, a polícia encontrou mensagens que indicam a participação do miliciano e atirador desportivo em dois assassinatos de rivais. Num dos diálogos, depois de enviar uma foto de uma marca de tiro em seu carro, o CAC afirmou, por áudio, que uma das vítimas tentou reagir antes de ser morta: “Tem que ficar sempre na atividade, antes de morrer ele ainda deu prejuízo”. Em outra conversa, Curisco afirmou que “bateu muito” e deu “coronhadas na cabeça” de uma moradora que deixou de pagar a taxa da milícia.

A quebra de sigilo do aparelho também descortinou a participação de outro CAC no bando de Curisco: o sargento da PM Alex Bonfim de Lima Silva, que também tinha um certificado de registro emitido pelo Exército e era responsável, segundo revelaram as mensagens, pela manutenção e pelo conserto das armas de fogo da milícia. Num dos diálogos com Bonfim — que era chamado de Alex Armeiro pelo comparsa — , Curisco combinou detalhes da troca de peças de uma arma. “Amanhã, eu vou comprar o tirante do gatilho e mola”, escreveu o PM. No dia seguinte, a dupla combinou a entrega da arma num local próximo ao 39º BPM (Belford Roxo), onde Bonfim trabalhava. Por conta das mensagens, o policial CAC também foi preso acusado de integrar uma milícia em setembro de 2021.

Depois que foi preso, Curisco tentou argumentar à Justiça que iria a um clube de tiro no dia em que foi capturado — e, por isso, podia portar a arma. A versão foi exatamente a mesma que outros dois CACs acusados de integrar a milícia do Quitungo deram quando foram presos em abril de 2021. Os atiradores desportivos Marcelo Pereira Orlandini e Wallace César dos Santos Teixeira portavam pistolas — uma 9mm e uma .40 — e recolhiam taxas de moradores, quando foram capturados por policiais civis. Em depoimento, eles alegaram que “a nova portaria do governo diz que pode transportar a arma municiada de casa para o clube de tiro”. Decretos assinados pelo presidente Jair Bolsonaro, de fato, flexibilizaram o transporte de armas pela categoria, além de terem aumentado a quantidade de armas e munição que os CACs podem adquirir. Em fevereiro de 2021, por exemplo, Bolsonaro liberou a atiradores e colecionadores o porte de uma arma municiada em “qualquer itinerário” para o local da prática do tiro.

Apesar das mudanças, as explicações de Curisco, Orlandini e Teixeira não convenceram a Justiça: os três acabaram condenados pelo porte ilegal das armas. No entanto, para o policial federal Roberto Uchôa, que estuda políticas de controle de armas e é pesquisador associado ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), as medidas do governo federal dificultaram a punição a CACs que não cumprem a lei.

— Na prática, o governo permitiu que centenas de milhares de pessoas andem armadas pelas ruas sem qualificação e treinamento para isso. Mesmo sem autorização formal para o porte, os CACs podem transportar suas armas com a desculpa de que vão para clubes de tiro. Alguns estandes passaram até a funcionar de noite para poder servir como desculpa para atiradores que querem andar armados. Como diferenciar um miliciano de um atirador? Ficou muito mais difícil — afirma Uchôa.

Em decorrência dos decretos presidenciais, o número de CACs no Brasil cresceu de 117 mil, em 2018, para mais de 673 mil, até junho de 2022, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Depois das mudanças, qualquer atirador pode comprar até 60 armas e 180 mil cartuchos por ano; antes, só CACs com experiência em competições tinham o direito a adquirir o limite máximo de 16 armas e 40 mil cartuchos. Assim, o arsenal nas mãos da categoria passou de 350 mil armas em 2018 para mais de um milhão.

Um dos CACs identificados no levantamento no Tribunal de Justiça foi condenado a nove anos de prisão por fornecer munição, que adquiria de forma legal, a uma milícia que domina seis bairros de São Gonçalo. O instrutor de tiro Eduardo Waldemiro da Costa Pereira também era dono de uma loja de armas quando foi preso, em 2018, após ter seu nome mencionado em ligações telefônicas por integrantes do grupo paramilitar. “É para usar R$ 120 para comprar dez munições novas, para substituir as que usou, e quem vai trazer as munições é o Pereira”, disse um dos milicianos numa das ligações. Em novembro do ano passado, Pereira recebeu o benefício da liberdade condicional e foi solto. Atualmente, ele tenta reaver, na Justiça, as armas que foram apreendidas em sua casa no dia de sua prisão.

Já os atiradores desportivos Osmar da Silva Gomes, o Tirso, e Leonis Loviz da Silva tinham como função, dentro da milícia que domina Itaboraí, capturar e matar traficantes rivais e ocultar os cadáveres em cemitérios clandestinos. Numa mensagem enviada a um grupo com comparsas pelo WhatsApp, Tirso chegou a se vangloriar de ter cometido uma série de assassinatos: “Matei mais de 200 vagabundos”. Em outros diálogos, a dupla planejou diversos ataques a “bandidos”. Os dois foram presos em 2019 durante uma operação da Polícia Civil e, num imóvel de Tirso, a polícia encontrou dois fuzis enterrados no jardim. Atualmente, ambos cumprem as penas a que foram condenados: Tirso, a 37 anos de prisão, e Leonis, a dez.

Questionado se os CACs citados na reportagem tiveram seus certificados cassados após serem presos, o Exército afirmou que nenhum deles “consta com certificado de registro vigente”.