Quatro mulheres ativistas são encontradas mortas no norte do Afeganistão

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GUARULHOS, SP (FOLHAPRESS) - Quatro afegãs, inicialmente identificadas como ativistas de direitos humanos, foram encontradas mortas na cidade de Mazar-i-Sharif, no norte do Afeganistão, segundo informou neste sábado (6) um porta-voz do Talibã, grupo fundamentalista que retomou o poder no país em agosto.

Até o momento, dois suspeitos foram detidos, de acordo com Qari Sayed Khosti, do Ministério do Interior. As vítimas não foram identificadas pelos talibãs, mas fontes próximas disseram à agência de notícias AFP que ao menos uma era ativista dos direitos das mulheres.

Ao serviço persa da rede britânica BBC, moradores informaram que as mulheres eram amigas e foram sequestradas perto do aeroporto da cidade, que é capital da província de Balkh. Em 27 de outubro, os corpos teriam sido encontrados em um fosso na periferia da cidade.

Uma ativista afegã que vive na Alemanha informou que uma das mulheres era Forouzan Safi, 29, professora universitária e ativista. O pai de Forouzan, Abdul Rahman, relatou à mídia que a filha saiu de casa depois de entrar em contato com pessoas que se identificaram como representantes de organizações de direitos humanos.

A família não teve mais notícias dela, e, quatro dias depois, seu corpo foi encontrado. A irmã de Forouzan, Rita, uma médica afegã, disse que a reconheceu no necrotério pela roupa. "As balas destruiram o corpo dela. Havia ferimentos por toda parte: na cabeça, no coração, no tórax, nos rins e nas pernas", descreveu ao britânico The Guardian.

Ainda segundo os familiares, a suposta ligação recebida por Forouzan pode ter tentado a enganar com a esperança de um pedido de asilo na Alemanha, algo que a professora universitária vinha pleiteando. Em sua bolsa, encontrada depois, estavam documentos como o diploma universitário. O marido dela, também ativista, deixou o Afeganistão devido a ameaças.

Não há mais detalhes disponíveis sobre as identidades das outras três mulheres mortas, cujos familiares ainda não foram encontrados.

O Talibã, grupo fundamentalista islâmico, promoveu uma veloz retomada do poder após 20 anos de ocupação de tropas ocidentais no Afeganistão. Quando governaram o país da Ásia Central pela primeira vez, de 1996 e 2001, imprimiram uma reconhecida repressão aos direitos das mulheres -que não podiam, por exemplo, estudar.

Quando retomou o poder, o grupo tentou adotar uma narrativa moderada, algo pouco creditado pela comunidade internacional. Em cerca de três meses no poder, os talibãs já reprimiram protestos de mulheres e anunciaram a proibição de que elas pratiquem esportes, por exemplo.

Organizações têm pleiteado que o grupo mude a postura e colocado o pedido como exigência para possíveis acordos bilateriais ou ajuda humanitária. O secretário-geral das Nações Unidas, o português António Guterres, já instou os talibãs a permitirem que as mulheres se mantenham ativas no mercado de trabalho, mesmo porque o país passa por uma grave crise econômica.

Na quinta-feira (4), a Human Rights Watch divulgou comunicado em que acusa os talibãs de proibirem as afegãs de trabalharem com ajuda humanitária no país, o que estaria contribuindo para o agravamento da crise humanitária. Segundo a ONG internacional, mapeamento mostrou que mulheres só têm sido permitidas em agências humanitárias de três das 43 províncias do país.

Trabalhadoras humanitárias estariam enfrentando restrições como a exigência de que um homem da família as acompanhem no trabalho, detalhou a HRW. "As severas restrições do Talibã estão impedindo que a ajuda desesperadamente necessária chegue aos afegãos, especialmente mulheres, meninas e famílias chefiadas por mulheres", disse Heather Barr, diretora de direitos das mulheres da ONG.

Desde o retorno do grupo fundamentalista, muitas afegãs se sentem com medo de trabalhar na ajuda humanitária e sofrerem retaliação dos talibãs. Elas só conseguem desenvolver a atividade se receberem um acordo por escrito das autoridades locais, o que, em tese, as mantém mais seguras.

Estudo divulgado em setembro pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) calculou que até 97% da população afegã pode estar abaixo da linha da pobreza em 2022, a menos que uma resposta às crises política e econômica seja estruturada com urgência.

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