Quatro presos já morreram por Covid-19 em presídios do Rio; dezenas de agentes estão com sintomas

Rafael Nascimento de Souza
Centro de Controle e Monitoramento da SEAP, no Complexo de Presídio de Bangu

Em menos de três dias a Secretaria de Administração Penitenciária (Seap) já registra o quarto caso de mortes de presos por coronavírus dentro de uma cadeia do estado do Rio. O novo caso aconteceu nesta sexta-feira na Penitenciária Esmeraldino Bandeira, no Complexo de Gericinó, em Bangu. O detento, que não teve o nome e nem a idade revelado, já havia sido testado para a Covid-19 e mesmo assim continuou ao lado de outros presos. Nas últimas horas o homem teria apresentado muita febre, tosse e reclamado de dores pelo corpo. Uma outra morte também aconteceu nessa quinta-feira, no  Instituto Penal Cândido Mendes, no Centro. A Seap também não informou a identidade do custodiado. 

Na última terça-feira um outro preso já havia morrido no Hospital Doutor Hamilton Agostinho Vieira Castro, também em Gericinó. O detento Jorge Pereira de Almeida, de 66 anos, estava custodiado no Instituto Penal Francisco Spargoli Rocha, em Niterói, na Região Metropolitana, desde o último dia 23 de abril. Antes de chegar no Spargoli Rocha, havia passado por outras duas cadeias: Cadeia Pública José Frederico Marques, em Benfica, na Zona Norte do Rio, e no Presídio Tiago Teles, em São Gonçalo, quando no último dia 22 foi transferido para Niterói.

No dia 23, ele passou mal e precisou ser encaminhado para o Hospital Doutor Hamilton Agostinho Vieira Castro. Na terça-feira, Jorge não resistiu e morreu. Na manhã de quarta-feira, a direção do Francisco Spargoli Rocha foi informada de que ele estava infectado com o coronavírus. Não se sabe se a contaminação ocorreu na prisão.

De acordo com servidores da unidade, toda a ala 5 do presídio está isolada. No local, existem presos com suspeitas de estarem infectados com a doença.

A primeira morte em um presídio no Rio foi registrada no dia 15 de abril, mas a Seap só divulgou o caso dois dias depois. Foi um preso de 73 anos do Instituto Penal Cândido Mendes, no Centro da capital. Segundo a Seap, tinha problemas de saúde e chegou a ser intubado, mas não resistiu.

Servidores infectados

Pelo menos 150 agentes penitenciários foram afastados em pouco menos de um mês de presídios onde trabalham. O motivo: todos eles estão com suspeitas de estarem contaminados com o Coronavírus. O surto da doença, principalmente no Complexo de Gericinó, em Bangu, fez com que a Secretaria de Administração Penitenciária (Seap) determinasse uma testagem em massa de servidores no último sábado. Os resultados não ficaram prontos. Enquanto isso, mais servidores estão se afastando com suspeitas de estarem contaminados.

Para se ter ideia, no último domingo seis agentes do Serviço de Operações Especiais (Soe) não se apresentaram para trabalhar alegando estarem com febre, tosse, dores no corpo e na cabeça. Segundo o documento que o EXTRA teve acesso, esses servidores foram atendidos no Hospital municipal Albert Schweitzer, em Realengo e na Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) Hamilton Agostinho Vieira de Castro, instalada dentro do Complexo de Gericinó. Todos foram orientados a ficarem em quarentena.

— A quantidade de agentes infectados ou com suspeita da doença é uma coisa absurda. Está acontecendo um surto sem controle dentro do sistema penitenciário e daqui a pouco haverá um colapso — disse um agente ao EXTRA. E a fala do servidor faz sentido. No sábado, por falta de agentes do Soe, a Seap teve que fazer uma realocação de servidores. Os agentes do Soe são os responsáveis por fazer a escolta de detentos para exames médicos e audiências de custódias.  Atualmente, por conta da crise do novo vírus, as audiências de custódias estão suspensas.

Na terça não foi diferente. Pelo menos cinco servidores da escolta, que se apresentaram para trabalhar, tiveram febre, tosse e dores pelo corpo. Todos eles foram medicados e liberados de suas funções.

E não para por aí. Nesta segunda-feira, seis agentes da Cadeia do Albergado Crispim Ventino, em São Cristóvão, foram afastados por estarem todos contaminados com a Sars-Cov-2.

O que diz a Seap

"A Secretaria de Estado de Administração Penitenciária informa que, até o momento, houve três óbitos confirmados entre os detentos no sistema prisional em decorrência de complicações causadas pelo coronavírus. Dois casos ocorreram no Instituto Penal Cândido Mendes e um no Instituto Penal Cel. PM Francisco Spargoli Rocha.

A Secretaria lamenta as mortes dos internos e esclarece que a equipe da Coordenação de Saúde da Seap está monitorando a saúde de todos os internos das unidades.

A Seap destaca que dispõe de mil testes rápidos de Covid-19, disponibilizados pela Secretaria de Estado de Saúde, que serão realizados, a partir da próxima segunda-feira (04/05), nos ambulatórios da sede da Secretaria, na Central, e no Complexo e Gericinó, em Bangu, por meio de agendamento telefônico. Em um primeiro momento, serão testados servidores, com prioridade para aqueles que lidam diretamente com os internos nas unidades prisionais.

É necessário esclarecer que os testes serão aplicados seguindo os seguintes critérios orientados pela Secretaria de Estado de Saúde: Pessoas que apresentem síndrome gripal iniciada no prazo de oito dias e que já estejam assintomáticas durante 72h. Em caso de testar positivo para a Covid-19, o servidor deverá entrar em contato com a sua unidade administrativa para a solicitação do AIM e realizar todos os procedimentos junto à Perícia do Estado.

A Seap ressalta o empenho incansável dos seus servidores e o apoio de familiares dos internos que vêm contribuindo para o cumprimento das ações protetivas adotadas pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro nas unidades. Conforme o decreto Nº 47.052, publicado em Diário Oficial, nessa quinta-feira (30/04), pelo governador Wilson Witzel, as visitas permanecerão SUSPENSAS nas unidades prisionais até o dia 11 de Maio.

É necessário reforçar a importância da utilização dos EPI's disponibilizados. Neste momento, tal medida é fundamental para intensificarmos a prevenção e o combate à Covid-19 dentro do sistema prisional.

Desde o dia nove de abril, todas as 51 unidades prisionais estão utilizando os termômetros infravermelhos, cujo objetivo é realizar a medição da temperatura dos servidores da Seap.

Também foram distribuídos mais 500 óculos de segurança e água sanitária para a limpeza das unidades. Além disso, foram instaladas um número maior de pias nas unidades e fornecidos sabão e toalha de papel, para a facilitação e intensificação da lavagem das mãos, com orientação da área técnica da Seap.

Ressaltamos, também, que desde o dia 25 de Março, já foram distribuídas 96.600 máscaras descartáveis e reutilizáveis. Além disso, desde o último dia primeiro de abril, já foram distribuídas 25.800 luvas cirúrgicas, além de álcool em gel e líquido, aos servidores das unidades prisionais. Também foram entregues dois faces shields para cada unidade prisional.

Os materiais serão usados de acordo com a necessidade, cuja avaliação ficará a cargo da Subsecretaria de Tratamento Penitenciário. O Equipamento de Proteção Individual (EPI) é indicado à função que os inspetores exercem, por orientação do Ministério da Saúde.

Nessa quarta-feira (29/04), 40 inspetores penitenciários receberam, no Centro de Instrução Especializada (Ciesp), no Complexo de Gericinó, instruções dos militares do Comando Militar Leste sobre medidas de proteção e higienização para aplicação no dia a dia nas unidades prisionais. Os servidores serão os multiplicadores das referidas informações nas unidades onde atuam".