Que tanto medo uma carta pela Democracia gera nas pessoas?

Mas que medo essas pessoas têm de uma carta pela Democracia? (Foto: MIGUEL SCHINCARIOL/AFP via Getty Images)
Mas que medo essas pessoas têm de uma carta pela Democracia? (Foto: MIGUEL SCHINCARIOL/AFP via Getty Images)

Essa semana foi histórica. Foi lida a carta pela democracia numa demonstração de sobriedade da sociedade civil que se sente ameaçada pelas constantes verborragias de um presidente que insiste em defender o absurdo.

Obviamente Bolsonaro minimizou o ato o chamando de “micareta da esquerda” e que ela valia “menos que papel higiênico”. Mas que medo essas pessoas têm de uma carta? A que ponto chegamos em que uma carta pedindo serenidade e sobriedade das instituições provoca tanto medo em certos setores da sociedade?

Manifestos políticos são necessários quando se percebe o sufocamento da democracia. Obviamente que são terrenos férteis para o surgimento de movimentos sociais. E o hibridismo faz parte historicamente dos movimentos. Portanto, é perfeitamente normal que em meio à sociedade civil movimentos partidários façam parte.

O processo brasileiro de transição rumo à democracia é visto como particular na América Latina, pois resultou de uma negociação entre elites e não de um choque político via deposição. Por que não agora o poder realmente emanar do povo?

E, de novo, por que menosprezar uma grande parte da população que faz uma manifestação absolutamente pacífica em favor da estabilidade política num ano eleitoral em que as pessoas estão literalmente se matando por política? Não seria legítimo?

Tocqueville escreveu certa vez que “cada pessoa, mergulhada em si mesma, comporta-se como se fora estranha ao destino de todas as demais. Seus filhos e seus amigos constituem para ela a totalidade da espécie humana. Em suastransações com seus concidadãos, pode misturar-se a eles, sem no entanto vê-los; toca-os, mas não os sente; existe apenas em si mesma e para si mesma. E se, nessas condições, um certo sentido defamília ainda permanecer em sua mente, já não lhe resta sentido de sociedade”.

Estamos cada vez caminhando mais numa direção de isolamento onde só nos importamos com quem soa familiar para nós.

Quando comecei a estudar o então deputado federal Jair Bolsonaro, uma das primeiras características que percebi foi justamente esse sentimento de egoísmo e auto-preservação onde só importa a sua sobrevivência e dos seus.

A individualidade torna-se um bem de luxo.

A podridão moral que nos governa, e não, não estou falando do presidente, estou falando de nós, que na nossa vaidade não legitimamos o pensamento contrário, faz com que a gente simplesmente aniquile quem pensa diferente. Mas em que ponto da nossa história perdemos o respeito pelo outro?

Estamos tornando imperativo na nossa sociedade controlar as mobilizações populares e os processos políticos. Nossa democracia, tão imatura, oferece de quatro em quatro anos, a oportunidade de escolhermos nossos representantes. E até isso estamos tentando controlar.

Chegamos num ponto em que, sim, cartas pela democracia são necessárias. Urgentes.

Veja como foram as últimas pesquisas eleitorais de 2022:

É assim que sociedades se reconstroem quando ameaçadas e dessa forma que surgem novos atores políticos que propiciam a oxigenação que tanto clamamos todos os dias. Cenários como esse possibilitam surgimentos e ressurgimentos de uma sociedade civil organizada. A quem minimiza o movimento dizendo que tinham muitas bandeiras de esquerda. Meus amigos, tudo é política.

A carta pela democracia foi, nada mais nada menos, que um ideal alimentado pela participação democrática com fins de reconstruir uma identidade nacional. Legítima. De um lado aqueles que veem na carta apenas mais um ato e de outro aqueles que acreditam que um basta precisa ser novamente dito.

No confronto pacífico das ideias, demonstramos mais uma vez nossa sobriedade diante de ataques descompensados de quem quer calar as vozes de mais de um milhão de cidadãos. Que linda é a democracia e o confronto pacífico de ideias.