Alemanha, ano 30: relatos de um país (e um mundo) ainda dividido


Fragmento preservado do Muro de Berlim

“Há poucos dias uma pessoa que tentasse atravessar o outro lado do muro de Berlim Oriental para cá poderia ser fuzilada pelos guardas de fronteira”. 

Literalmente em cima do muro, o repórter Silio Boccanera descrevia a cena enquanto a câmera se aproximava. “Hoje isso aqui parece uma rua de pedestres. As pessoas estão comemorando em ritmo de batucada e de samba. O muro de Berlim ainda está aqui. Mas em espírito ele desapareceu.”

A 10.164 quilômetros do centro do mundo, eu acompanhava aquela cena diante da TV sem ter ideia de como a derrubada simbólica daquela estrutura de concreto, que o apresentador Sérgio Chapelin chamava de “muro da vergonha”, impactaria toda a organização social do mundo que herdamos do pós-guerra. Eu tinha apenas sete anos. 

Aquela cena, gravada há exatos 30 anos, me acompanharia por muito tempo.

Era um dos últimos atos de uma série de manifestações populares que criaram as condições para a queda da Cortina de Ferro. Uma das líderes da revolta era a hoje chanceler Angela Merkel, cuja sucessão, já nas próximas eleições, suscita dúvidas e temores, não só nacionais.

Da reunificação, afinal, surgiu a terceira maior potência econômica do Planeta, e um dos pontos de equilíbrio de uma fraturada União Europeia, que hoje se bate em discussões sobre o brexit na Inglaterra e a ascensão de grupos xenófobos no auge da crise dos refugiados.

“Imagina que, de repente, nosso país se dividisse e você não pudesse visitar o Lucas (o vizinho da rua acima). Foi assim que eles viveram por quase 30 anos”, explicava meu pai, enquanto assistíamos à derrubada do muro na TV.

A queda era mais simbólica do que física: revista hoje, fica evidente que, não fossem as máquinas do dia seguinte, a multidão estaria até agora tentando arranhar com martelos e outros pequenos utensílios a enorme estrutura de concreto.

Neste sábado, dia 9, aquela cena, que praticamente colocou fim a um mundo bipolarizado, e completará 30 anos. 

Era o fim da história, anunciava o filósofo e economista Francis Fukuyama. "Não apenas o fim da Guerra Fria ou o fim de um período específico do pós-guerra, mas o fim da evolução ideológica da Humanidade e da universalização da democracia liberal ocidental como o produto final do governo humano”.

O fim do socialismo causou mudanças profundas na organização dos movimentos políticos da época até os dias atuais. No PT, o maior partido de esquerda brasileiro, por exemplo, a ala majoritária liderada por Luiz Inácio Lula da Silva tomou a dianteira, e o partido aos poucos foi absorvendo as posições da social-democracia. Para a direita, a queda do muro serviu como argumento, ainda hoje influente, da derrocada do projeto socialista. 

Ainda assim os afetos políticos ainda se aglutinam como se o muro ainda fosse uma estrutura sólida e visível, opondo neoliberais a fantasmas comunistas.

Marcas da divisão. Na véspera dos 30 anos da Queda do Muro de Berlim, chamei no no WhatsApp minha amiga Nádia Lapa, jornalista e escritora que morou na parte oriental da capital alemã entre agosto de 2017 e abril deste ano.

Queria entender como era possível uma nação, que seria reunificada oficialmente em 1990, apresentar tantos traços de divisão, estéticas e sociais, tanto tempo depois. 

Como eu, ela também assistiu à queda do muro pela TV. Tinha dez anos na época. E, como eu, ela observa assustada à ascensão de grupos neonazistas e de extrema-direita do antigo lado comunista alemão, sobretudo as áreas próximas da Polônia.

A disparidade entre os “dois países” pode ser medida pelo índice de desemprego (maior no lado oriental) e pela classificação do campeonato alemão de futebol, dominado pelos times do oeste, como os de Munique. Pode ser observada também na imagem aérea da capital ainda nos dias atuais - até as lâmpadas de iluminação entre um lado e outro são diferentes.

Durante sua estadia na capital alemã, Nádia conviveu com as divisões - para elas óbvias - das duas realidades, uma herdeira do comunismo, outra do capitalismo. Essas diferenças, porém, passam praticamente batidas para quem nasceu depois da queda do muro. 

“Berlim é uma cidade muito jovem. Todo europeu quer passar um tempo em lá. Para as pessoas mais jovens, noto que elas não tem noção do que foi aquilo. Não sabem o que foi a Guerra Fria. Uma vez conheci um australiano que só ficou sabendo do muro depois que estava morando havia dois anos lá. Muita gente vai ao muro pensando que é um ponto turístico. As pessoas vão, tiram fotos e sorriem”

Em Berlim, ela morou em Prenzlauer Berg e na baladeira Friedrichshain, bairros do antigo lado comunista. Ao lado de Friedrichshain existe o Kreuzberg, bairro localizado do outro lado do muro (e do rio), onde ficava a parte mais "pobre" do ocidente - e onde hoje circula a galera mais alternativa.

O muro não está mais lá, mas a mudança de ares ainda é nítida para quem anda pelo local. A começar pela marca dos carros.

Nos bairros ricos, como Charlottenburg, é onde fica, por exemplo, a Kadewe, uma loja de departamentos dedicadas a marcas de grife. “KaDeWe é o ‘diminutivo’ de Kaufhaus des Westens, que significa ‘a casa de compras do ocidente’”, explica.

Na mesma região fica a estrela da Mercedes Benz, que Nádia via do outro lado do rio. “Tem uma lenda de que construíram uma torre de TV do lado oriental para mostrar que o leste também tinha poder”, recorda.

Adeus, Lênin. No leste, os traços da Alemanha Oriental ainda resistem, como os blocos de apartamentos, imensos e padronizados, e que na época eram considerados modernos por serem mais altos e contarem com elevador. 

A área central da região vive hoje um processo de gentrificação (encarecimento dos imóveis), e tem colocado os movimentos de moradia no centro dos debates públicos em Berlim. 

Das paisagens visitadas na cidade, Nádia lembra das áreas neutras entre os muros, que ainda guardam marcas e arames. Durante uma visita ao memorial de Bernauer Strasse, ela disse ficado impactada com um pedaço do muro que hoje serve para mostrar aos visitantes como era a fundação dos apartamentos naquela área antes da construção.

“Dava para ver onde era o banheiro, onde eram os quartos. De repente, veio o muro. E as pessoas vizinhas, que antes se olhavam pela rua, não podiam mais se ver. É assustador pensar nisso hoje, principalmente porque Berlim é uma cidade associada à liberdade. Nessa cidade as pessoas não podiam se falar. Eram mortas se tentassem cruzar o outro lado.”

Em seus últimos dias em Berlim, ela e o marido visitaram o DDR Museum, às margens do rio Spree, após assistir a um clássico do cinema alemão: “Adeus Lênin”, de Wolfgang Becker. Aberto em 2006, o museu mostra o estilo de vida comunista na Alemanha - daí o nome DDR (Deutsche Demokratische Republik).

No filme, uma militante comunista infarta ao ver o filho em um protesto contra o regime. Ela se recupera enquanto a Alemanha é reunificada, uma notícia que os filhos fazem de tudo para evitar que chegue à mãe convalescente. Eles temem uma recaída diante da comoção. Para isso, se esforçam para recriar o cenário do mundo que acabava de desabar. 

“No museu tem alguns potes ainda de pepino e outros enlatados da época da Alemanha oriental. E tem também cenários dos apartamentos antigos onde viviam os professores e juízes, com aqueles papeis de paredes e outros elementos”.

Há também as marcas sociológicas. Do lado ocidental, há os bairros proletários. Quando o muro subiu, afinal, a parte capitalista ficou sem empregados e teve de abrir as portas para imigrantes. 

Até hoje, segundo ela, as pessoas da Bavária, a área mais rica, têm preconceito com quem vive na antiga área comunista. Dizem que são eles que sustentam a Alemanha, enquanto boa parte da cidade sobrevive com ajuda assistencial.

A impressão é confirmada pelo meu amigo dos tempos de faculdade de ciências sociais Iuri Ribeiro. Ele mora há nove anos em Stuttgart, área rica da Alemanha, com uma alemã nascida em Dresden, no lado oriental, em 1989. “Já fui incontáveis vezes para lá. Conversando com meus sogros e com minha esposa, consigo entender bem como a Alemanha ainda não resolveu a questão da unificação.”

Ele concorda que entre os dilemas a serem resolvidos está o preconceito. “Até hoje todo mundo que trabalha é descontado do pagamento um imposto chamado de ‘Solidariedade’, criado na época da unificação para ajudar a reconstruir os estados da ex-Alemanha Oriental. Passados 30 anos, o imposto ainda existe, mas o dinheiro é usado para outras finalidades. E os alemães que eram de lá são vistos como ‘preguiçosos’ que se beneficiam desse dinheiro.”

Ele compara o preconceito dos alemães do lado “capitalista” ao dos brasileiros do sul e do sudeste em relação ao norte e ao nordeste.

O espírito desse país cindido, que durante décadas representou um mundo igualmente rachado, está representado em diversas produções artísticas.

Uma delas é “A Vida dos Outros”, em que um casal de artistas é vigiado por um agente secreto do governo, e “Asas do Desejo”, de Wim Wenders, em que anjos invejam a materialidade da condição humana enquanto circulam pelo muro erguido justamente para dividir a humanidade. 

Outra obra bem didática para compreender o espírito daquele tempo é o livro “O Verde Violentou o Muro”, em que o escritor Ignácio de Loyola Brandão, que viveu em Berlim entre 1982 e 1983, retorna à cidade em busca de um reencontro histórico, e consigo mesmo, após a reunificação.